Homilia Solenidade de S. Tiago Menor

01-05-2026

SOLENIDADE DE SÃO TIAGO MENOR

1 de Maio de 2026

1. Queremos pedir a São Tiago Menor, nosso Padroeiro, que hoje aqui nos reúne, que nos ajude a viver melhor como cristãos e como cidadãos deste nosso Funchal.

A figura deste Santo Apóstolo é riquíssima, e disso se têm feito eco numerosos estudos contemporâneos. No entanto, nesta ocasião, não olhemos tanto para as minudências dos estudiosos, quanto sobretudo para os grandes traços da sua personalidade.

Em primeiro lugar, sabemos que Tiago foi discípulo do Senhor e membro do grupo dos Doze. Chamado "Irmão do Senhor" por ser da sua família, foi com algumas reticências que olhou para Jesus quando este deixou Nazaré e tomou Cafarnaúm como centro do seu ministério. Sabemos, no entanto, que essas reticências desapareceram porque, logo depois, vemos Tiago a integrar o grupo dos Doze: é o Tiago chamado "Menor", ou o "filho de Alfeu"; é o Tiago que — após a ressurreição e depois que Pedro teve que abandonar Jerusalém — assumiu a condução da primeira comunidade cristã.

Tiago é, portanto, a figura daquele que, mesmo tendo nascido ao lado de Jesus, assaltado por reticências iniciais, se deixou converter pelo Senhor, para abraçar decididamente a fé — podemos dizer que Tiago inspira o caminho daqueles madeirenses que, apesar de terem sido batizados em criança e de a sua família viver a fé, se "esqueceram de Deus", mas em cujo coração existe a disponibilidade para regressar e se colocar no caminho decidido dos discípulos de Jesus.

Naquele tempo como hoje, o grupo dos discípulos é muito heterogéneo: de gente simples a intelectuais; de pescadores e agricultores a cobradores de impostos e universitários; de reflexivos a gente de acção; homens e mulheres; solteiros e casados; jovens e velhos; soldados romanos e judeus que sofrem as violências da ocupação… — o seu ponto de encontro não eram os gostos, capacidades ou opiniões de cada um, mas Jesus e a necessidade de anunciar a presença do Reino de Deus.

Também hoje a Igreja de Jesus (concretamente a nossa Diocese do Funchal) abarca e quer abarcar a todos, quem quer que seja, desde que disponível para se deixar converter, tocar por Jesus de Nazaré.

2. Como discípulo e, depois, como Apóstolo, membro do grupo dos Doze, bispo de Jerusalém, Tiago Menor era a figura em que a comunidade se revia, aquele para quem todos olhavam, aquele de quem procuravam conselho e orientação. Esta faceta de homem de sabedoria, somos capazes de a perceber com facilidade quando lemos a Carta de S. Tiago, presente no Novo Testamento, cheia de discernimento, de conhecimento e meditação das Escrituras — Palavra de Deus para nós os crentes, mas, igualmente, repositório de sabedoria humana para todos.

Tiago é, de facto, o homem da sabedoria, da interioridade que se ganha na oração e na proximidade com Deus. É o homem capaz de olhar a realidade não com um simples olhar humano mas com os olhos de Deus, com os olhos da fé. Ele convida-nos todos a deixar-nos tocar pela sabedoria. A não nos deixarmos levar pela primeira opinião, por aquilo que aparece e que parece, pelo superficial e pelas modas, ou até pela opinião da maioria. Convida-nos, antes, a deixar-nos iluminar pela luz de Deus, que faz ver mais longe, com outros critérios. Como seria diferente a nossa cidade, se nela vivessem mais sábios ou, pelo menos, mais crentes que se deixassem confrontar e iluminar pela sabedoria divina!

3. Tiago é, finalmente, o discípulo que não hesita em caminhar para o martírio. Com efeito (contam-nos várias fontes, mesmo não cristãs) que, olhando-o como homem sábio e respeitado por todos, os líderes judaicos de então, num momento de convulsões e de vazio de poder romano (ano 62), lhe pediram que subisse à parte mais alta do Templo de Jerusalém para, diante do povo, confessar que Jesus tinha sido apenas um judeu bom e sensato, mas nada mais, devendo todos regressar à tranquilidade anterior à Páscoa do Senhor.

Ao ver a possibilidade que lhe ofereciam de dar testemunho do Ressuscitado, Tiago não hesitou e, diante de todos, afirmou alto e claramente que apenas em Jesus existe a salvação. Foi quanto bastou para o precipitarem do lugar alto onde estava, para o lapidarem e, por fim, terminarem com a sua vida terrena com um maço de pisoeiro.

Em 2002, foi encontrado um ossário com a inscrição "Tiago filho de José, irmão de Jesus", e que vários estudiosos defendem ter guardado os restos de S. Tiago, perto do Templo de Jerusalém. A ser verdadeiro, tratar-se-ia não só de um vestígio arqueológico de Tiago como também do próprio Jesus. Convenhamos, no entanto, que não é dele que depende a nossa relação com este Apóstolo.

Aliás, o achado de pouco nos importa, diante do testemunho firme, corajoso, claro — e indiscutível! — que Tiago deu em favor do Senhor ressuscitado. E como os funchalenses, cuja esmagadora maioria recebeu a fé ainda antes de ver a luz do dia, continuam a necessitar desse testemunho oferecido pelo Apóstolo seu padroeiro!

Possa a figura de São Tiago Menor, a quem há mais de 500 anos os funchalenses invocam como Padroeiro, continuar a defender e a inspirar a vida desta sua cidade, em particular dos cristãos desta sua cidade e desta sua diocese.

+ Nuno, Bispo do Funchal