Homilia Solenidade da Dedicação da Catedral do Funchal

18-10-2026
Foto de Duarte Gomes
Foto de Duarte Gomes

SOLENIDADE DA DEDICAÇÃO DA CATEDRAL DO FUNCHAL

XIX Domingo do Tempo Comum (A)

18 de Outubro de 2026

"Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus": o convite — melhor: mandamento que o Senhor faz aos seus discípulos, constitui uma constante tarefa para todos nós, sempre. Em todos os domínios da nossa vida.

"César" são as realidades do nosso mundo, com as suas normas, o seu modo de ser e de viver. Não são, necessariamente realidades más. Mas servem para este mundo apenas. Trazem consigo os limites deste mundo: a sua visão estreita, os seus objectivos estreitos, a sua hierarquia de valores.

Mas a César, devemos dar o que é de César. Por isso, os cristãos sempre se sujeitaram às normas honestas da convivência neste mundo: desde o pagamento dos impostos à obediência às autoridades legitimamente constituídas, passando pela procura da boa relação com todos.

Contudo, acima de César, existe Deus. E a Deus devemos sempre dar o que é de Deus. E de Deus é tudo quanto existe, em particular cada um de nós e todos os demais seres humanos. Por meio do ser humano, Deus é louvado: é a nós que cabe oferecer ao mundo, ao universo, o seu destino último. Que melhor destino para um bago de uvas, que aquele de ser transformado no sangue do Senhor? Ou ao trigo, a glória de ser corpo do Senhor, para alimento dos seus filhos? Ou ainda ao lenho que ser cruz de Jesus?

Mas tudo o que somos e fazemos; tudo quanto é usado para a vida humana e para a elevação e santificação de cada ser humano, tudo se vê transformado em louvor ao Criador. Essa é uma das grandes missões de todos e de cada ser humano: dar a Deus o que é de Deus!

Nós somos sua propriedade — sua imagem e semelhança. Criou-nos para Ele, para o conhecermos e louvarmos; para mostrar a sua bondade e o seu amor; para tornar presente a sua salvação.

A Ele devemos oferecer, entre outras realidades que lhe são devidas, o louvor, o culto verdadeiro. Na verdade, este Templo de que hoje celebramos o dia da Dedicação, da "consagração", tornou-se, a partir desse momento, muito mais que um espaço belo; muito mais que uma casa de reunião; tornou-se um espaço sagrado — aquele espaço que dedicamos a Deus e no qual Ele habita dum modo muito particular.

Ao dedicá-lo, os nossos antepassados estavam a entregar ao Senhor o melhor daquilo que o próprio Deus lhes tinha entregue, ao desembarcarem, anos antes, nesta Ilha paradisíaca. E, no centro da cidade, ergueram esta enorme cruz, este Templo que nos recorda, até com a sua forma, o Homem Novo, o Homem do mundo novo, que é Jesus.

Presença de Deus, no quotidiano da cidade e no coração de quantos aqui se dirigem para louvar o Senhor, para lhe apresentar os seus pedidos ou, simplesmente, para estar com Ele — para O escutar e Lhe abrir o coração de filhos que gostam de estar, de conviver com o Pai.

Saiba cada um de nós ser como este Templo: belo na sua forma; santo no seu conteúdo; com as portas sempre abertas a convidar para o encontro com Deus. O mesmo é dizer: saibamos nós, sempre, dar a Deus o que é de Deus!

+ Nuno, Bispo do Funchal