Homilia na Missa do Final do Ano e Te Deum

01-01-2022

TE DEUM DE FINAL DE ANO

Sé do Funchal, 31 de dezembro de 2021


1. "Não é possível imaginar um mundo essencialmente diferente e simultaneamente melhor do que o actual. Outras épocas, menos reflectidas, também se julgavam as melhores; mas nós chegamos a esta conclusão de uma forma exaustiva, por assim dizer, através da busca de alternativas que pudessem ser melhores" (F. Fukuyama, O fim da história, 65).

Estas palavras do livro O fim da história e o último homem, escritas há já 30 anos pelo pensador norte-americano Francis Fukuyama, poderão hoje ser olhadas com um sorriso indulgente. Mas elas reflectem bem o modo como nós, habitantes do mundo ocidental, olhávamos até alguns meses atrás para a nossa vida e para a nossa civilização. Nada nos poderia derrotar. Todos nos desejavam (e deveriam) imitar.

O nosso mundo tinha-se tornado, mesmo sem ter consciência disso, na realização da parábola evangélica do homem rico cujas propriedades produziram com abundância, e que pensava consigo: "Farei isto: derrubarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, e ali recolherei todos os meus cereais e os meus bens; e direi à minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te. Mas Deus disse-lhe: Insensato, esta noite pedir-te-ão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?" (Lc 12,18-20). A que Jesus acrescentava: "Buscai antes o Reino de Deus, e tudo o mais vos será dado por acréscimo" (Lc 12,31).

Há dois anos atrás, era este o sentimento generalizado: vivíamos no melhor dos mundos. Faltavam, simplesmente, alguns pequenos acertos, que a ciência e a técnica se encarregariam de introduzir. Poderíamos, por isso, declarar que a história tinha atingido o seu ponto alto e final.

De repente, a vida parou. Qual Guerra Mundial, ultrapassam já os 5 milhões e meio, os mortos oficialmente causados por esta pandemia. Se as vacinas nos protegem em larga medida, creio, no entanto, que ninguém hoje deixará de pensar: se este é o melhor dos mundos, bem pouco é o que conseguimos.

Não falta quem insista em dizer que Deus, a existir, nada tem a ver com esta realidade. Afinal, a pandemia funcionaria mesmo como uma prova de que Deus não existe: "Onde está Deus, que assiste indiferente a todo este sofrimento?". Foi esta a reacção de muitos intelectuais europeus ao Terramoto de Lisboa de 1755; esta é a reacção de tantos, ainda hoje.

2. A resposta àquela interrogação essencial (como é que Deus permite o sofrimento?) só pode ser vislumbrada se retirarmos todas as consequências do anúncio evangélico que acabámos de escutar: "O Verbo fez-se carne e habitou no meio de nós" (Jo 1,14).

Com efeito, ao afirmar que Deus se fez carne (não apenas que Deus é pensamento, ideia; que é razão e sentido; ou mesmo que é sentimento e vida - tudo isso já a antiga filosofia grega o tinha afirmado de modo eminente) - ao afirmar que Deus se fez "carne", o evangelista está a afirmar que a realidade frágil, mortal, limitada e sofredora daquele homem concreto que é Jesus de Nazaré, se tornou, a partir desse momento, o lugar onde nos é possível encontrar Deus.

Que o mesmo é dizer: o sofrimento e o limite; a fragilidade e a finitude que marcam o humano, são experimentados, vividos por Deus em primeira pessoa. Em Jesus, Deus sabe o que é sofrer, e o que é sofrer injustamente; Deus sabe o que é morrer, e morrer na solidão, abandonado por todos; Deus sabe o que significa ser condenado injustamente, no meio de jogos políticos ou de comunicação, crucificado na praça pública.

Em Jesus de Nazaré, Deus é um Deus connosco não apenas porque nasceu como homem (nasceu, aliás, como o último dos nascituros, sem nada nem conforto); não apenas porque viveu como um pobre, sem lugar onde reclinar a cabeça (Mt 8,20); mas porque experimentou e fez seu, em primeira pessoa, a totalidade do drama humano - o drama dos últimos mais últimos, a morte dos condenados e renegados, a morte de cruz.

O Verbo de Deus quis fazer seu todo o drama humano, do nascer ao morrer, tornando-se, assim, próximo de todos os que sofrem. Fez seu, não apenas o drama comum de qualquer indivíduo humano, mas também o drama social, as dilacerações e todas as mortes de que padeceu, padece e padecerá a humanidade em toda a sua história. Na cruz de Jesus, a morte é o peso do sofrimento humano que cai sobre Deus.

Por isso, quando sofremos, sempre uma escolha se nos apresenta: viver aquele momento com Deus ou sem Ele. Sofrer acompanhados por Deus, cujo sofrimento se tornou caminho de vida e ressurreição, ou sem Ele, abandonados à nossa solidão, incapacidade e revolta. Não apenas como indivíduos, mas também como sociedade.

Compreenderam-no bem os nossos antepassados madeirenses quando, no meio da dureza que sempre significou viver nesta Ilha, foram marcando a sua vida pela proximidade a Deus. A sociedade madeirense escolheu viver o seu drama humano acompanhada por Deus. E essa mesma escolha a precisamos nós de realizar - cada um de nós e o todo do nosso tecido social. Porque não nos basta ser herdeiros de uma tradição; importa que a liberdade de cada um se deixe iluminar pela graça que é o dom do Espírito Santo, e realize hoje e para a sua vida esta opção que respeita a cada um e a todos: queremos ser com Jesus Cristo, o Deus que sofre connosco e que nos aponta o caminho da vida, e com Ele, moldar a nossa existência. Não queremos viver solitários o percurso do tempo, procurando com a nossa sabedoria uma saída no meio do labirinto da existência.

Por isso, tão importante que a pergunta acerca onde está Deus no meio da pandemia que vivemos, é aquela outra questão: onde está o homem? Onde estamos nós?

Quer dizer: que ser humano estamos disponíveis para ser? Que sociedade humana queremos construir? Com Deus, aceitando a sua proximidade, os apelos e as exigências do "Deus connosco", ou orgulhosamente sós, confiando nas nossas capacidades e conquistas, construindo por nós e para nós, com as nossas forças e saberes, o que achamos ser "o melhor dos mundos possíveis", mas constantemente derrotados por este ou por um qualquer outro vírus minúsculo ou maiúsculo (quer dizer: um minúsculo vírus natural, como o covid-19, ou um "maiúsculo" vírus social que grassa no meio de nós e mata como epidemia bem maior - como o vírus do egoísmo, do orgulho e da soberba humana, que ignora todos os demais e as suas situações concretas, desde que o próprio viva descansado e regalado)? Que humanidade queremos ser e construir? Com quem o queremos fazer?

3. O final do ano civil e a celebração que estamos a viver, rodeados pela beleza desta catedral, é momento de acção de graças pelo que vivemos neste ano de 2021. Não foi o ano que idealizámos. Foi mesmo um ano de particular luta e de muitas derrotas.

2021 integrou aquele conjunto de anos já chamados de "era da pandemia". Durante ele, certamente nos perguntámos sobre o que fizemos de mal para sofrermos assim, castigados por um pequeno vírus.

Mas em 2021 foi-nos, também, dada a possibilidade de quase tocar Deus em tantas circunstâncias: desde o testemunho daqueles que, esquecendo-se de si, se fizeram presença do amor divino, de modo particular junto dos doentes; até ao testemunho de fé do povo simples que escolheu continuar a confiar em Deus e a entregar-lhe a sua vida; passando pela valorização das relações directas entre pessoas, fartos que nos descobrimos dos encontros virtuais.

Neste ano, aprendemos todos um pouco mais sobre o valor do outro e de como é bom olhar o seu rosto sem máscara; aprendemos a respeitá-lo e a acolhê-lo na sua singularidade; aprendemos a não deixar que apenas o aqui e agora determinem a nossa existência, e fomos convidados a olhar para o horizonte de eternidade que Deus sempre nos propõe; aprendemos a dar valor a tantas realidades bem mais humanas que o ter ou o prazer. Aprendemos, afinal, a deixar que Deus nos visite no hoje da nossa vida e lhe dê um novo e definitivo sentido.

Na primeira leitura, S. João falava-nos dos tempos definitivos. Certamente, Fukuyama nunca leu a Primeira Carta de S. João. Teria descoberto que Jesus de Nazaré, o Deus feito Homem, é, de facto, o fim da história, o Homem definitivo, porque não é possível conceber algo maior para o ser humano que o viver unido a Deus.

Aprendamos a perceber e a viver esta meta última e definitiva que o próprio Deus nos apresentou na sua encarnação: deixemos que, partilhando a nossa existência, Jesus Cristo nos ensine, ao longo de 2022, o modo de viver definitivo e excelente, a concretização do desígnio que o próprio Deus propõe a cada um e a toda a nossa sociedade.

+ Nuno, Bispo do Funchal