Homilia Festa do Senhor dos Milagres '26

FESTA DO SENHOR DOS MILAGRES
Machico, 8 de Outubro de 2026
Do ver ao acreditar
1. Numa impressionante manifestação de fé, por entre os archotes do povo, também nós, uma vez mais, acompanhámos o Senhor dos Milagres pelas ruas desta sua cidade. Uns fizeram-no em cumprimento de promessas realizadas; outros em simples manifestação de fé — todos no entanto, cheios de devoção: se na aluvião de 1803 o Senhor dos Milagres não nos quis abandonar, muito menos o abandonaremos nós, madeirenses deste já segundo quartel do séc. XXI, tão atravessado por guerras, problemas, indefinições, medos.
2. De medos, indefinições e revoltas nos falava a 1ª Leitura (Nm 21,4b-9). No meio do caminho para a Terra Prometida, o povo começou a desconfiar de Deus. Perguntava se Ele os poderia de facto conduzir à Terra da Promessa. Se tinha poder, se queria. Por eles, enjoados com o maná (a comida que Deus lhes enviava todos os dias), sem pão nem água, recordavam "o conforto da escravidão" e dispunham-se a regressar ao Egito.
Surgiram então serpentes venenosas no acampamento — manifestação física do veneno que saía da boca e do coração daquele povo, libertado da escravidão mas incapaz de assumir a tarefa da liberdade. E muitos morreram, vítimas do seu maldizer. Confrontado com a morte, arrependido da sua falta de fé, uma vez mais, o povo voltou-se para Deus.
O Senhor apresentou então uma saída: aquele que fosse mordido, deveria olhar para a serpente de bronze erguida por Moisés num poste de madeira. E, diz a Escritura: "Quando alguém olhava para aquela serpente, ficava curado".
3. É a esta serpente de bronze, erguida por Moisés num poste, quando a fé do povo vacilou, é a ela que Jesus se refere no evangelho, ao dizer: "Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n'Ele a vida eterna" (Jo 3,15).
Jesus diz-nos que Ele é a verdadeira serpente de bronze: Ele como que antecipa a Nicodemos o momento em que Ele próprio será erguido diante de todos, no madeiro da cruz, para a todos salvar!
Nesse momento da cruz, quando foi levantado no madeiro, muitos foram os modos com que o Senhor foi olhado.
Para muitos dos soldados romanos, aquele era mais um pobre judeu, condenado por Pilatos a sofrer a morte mais horrível que poderia ser pensada. No entanto, sem piedade e habituados que estavam àquelas condenações, escarneceram-no, divertiram-se com a sua vida e com os seus pertences. Também para Pilatos, incapaz de lutar pela verdade, fácil em ceder à vontade da maioria, era mais um judeu. É certo que nele não tinha encontrado crime. Mas a multidão insistia para que fosse crucificado: "O rei dos judeus", mandou Pilatos gravar na placa da condenação, em várias línguas conhecidas, como que a justificar a sentença de morte diante do mundo inteiro. Pilatos olhou para Jesus, reconheceu a sua inocência, mas achou que devia ceder aos pedidos da multidão e dos chefes judaicos.
Para estes últimos, o pedido da condenação de Jesus à morte de cruz era uma decisão "politica", resultante da tentativa de poder celebrar a festa da Páscoa sem problemas com a autoridade romana — mas era, também, uma "decisão justificada" pelo crime de blasfémia, uma vez que Jesus tinha actuado usando a autoridade do próprio Deus. Nem sequer colocaram a hipótese de, diante deles, se encontrar o verdadeiro Messias esperado! E, no final, olharam para Jesus com troça: "Os chefes dos sacerdotes, com os doutores da Lei e os Anciãos troçavam dele, dizendo: 'Salvou os outros, mas não consegue salvar-se a si mesmo!" (Mt 27,41).
Para a multidão, era mais um condenado. De pouco importou que, dias antes, o tivessem aclamado e olhado como rei e Messias. Agora, ali estava, agonizando na cruz. "Os que passavam — diz S. Mateus — insultavam Jesus, balançando a cabeça e dizendo: 'Tu que destróis o Templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és Filho de Deus, desce da cruz!' (Mt 27,39-40).
Entretanto, os que tinham ficado por ali, olhavam, curiosos, para as últimas palavras do condenado: "Está chamando por Elias […]. Vamos ver se Elias o vem salvar!" (Mt 27,47.49).
Quanto aos discípulos, seguidores da primeira hora, com quem o Senhor tinha partilhado aqueles anos, fugiram na sua maioria, assustados com o destino do Mestre e com o que previam ser também a sua condenação. Apenas algumas mulheres, que tinham vindo da Galileia, acompanhando Jesus para o servirem, "olhavam de longe", diz S. Mateus.
Somente os estrangeiros — o centurião e os romanos que montavam guarda a Jesus —, ao verem o modo como o Senhor morreu, foram capazes de ir mais longe e de reconhecer: "Realmente ele era o Filho de Deus!" (Mt 27,54).
4. E nós? Nós, que nos reunimos e olhamos para o Senhor dos Milagres (o mesmo Senhor, erguido na cruz, aquele que passou por nós e que acompanhámos nesta procissão), nós que aqui nos encontramos, como olhamos para Ele? Que procuramos nós neste Senhor dos Milagres? Qual é a nossa oração? Qual é a nossa disposição para que Ele nos cure do veneno do pecado que ainda habita o nosso coração? Como deixamos que, à sua visão, Ele nos transforme, nos faça abandonar o veneno da desconfiança e da incapacidade de caminhar para a verdadeira liberdade?
Contudo, nesta procissão, não somos apenas nós a olhar para o Senhor. Também Ele olha para nós. Conhece bem o coração de cada um. Conhece bem a verdade da nossa vida — da nossa vida interior e da vida que partilhamos com os outros, bem como da vida da nossa comunidade cristã e humana.
Num momento de silêncio, deixemos que Ele nos olhe, dando-nos a força de que precisamos, não apenas para continuar a viver, mas para continuar a viver bem, a viver como cristãos, como "próximos" — Ele que não veio para condenar o mundo mas para o salvar, que olhe para todos nós, e nos faça olhar para Ele com toda a confiança, dizendo com toda a entrega do nosso coração: "Verdadeiramente, este Homem é o Filho de Deus", a quem posso entregar a minha vida, tudo aquilo que sou!
+ Nuno, Bispo do Funchal
