Homilia Dia Fiéis Defuntos

02-11-2026
Foto de Duarte Gomes
Foto de Duarte Gomes

DIA FIÉIS DEFUNTOS

Cemitério de S. Martinho

2 de novembro de 2026

1. A promessa de Isaías: Deus destruirá a morte para sempre

"Ele destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces".

Ao povo de Israel que o escuta, o Profeta Isaías fez duas promessas: uma primeira, que o final de tudo será semelhante a um banquete oferecido por Deus — um banquete de manjares suculentos, para o qual todos os povos da terra são convidados.

Na verdade, o Profeta, longe de fazer distinção entre Israel e os outros povos da terra, afirma que, mesmo a estes, Deus irá retirar o véu que cobria os seus olhos e os impedia de conhecer o Senhor, dando assim a todos a possibilidade de partilhar da vida do próprio Deus, a vida eterna, para sempre, à volta da mesa abundante.

Essa é, aliás, a segunda promessa do Profeta: o final de toda a realidade será semelhante à festa de um banquete abundante. O final de tudo, a palavra última de julgamento que Deus irá pronunciar, não será de divisão e inimizade, de guerra e ódio, de destruição e morte. A palavra última será de vida, plena e feliz: será a vida de Deus oferecida e partilhada por todos, com a alegria de um banquete.

2. Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido

Os cristãos de Tessalónica — uma cidade da Grécia, ainda hoje existente — tinham colocado ao Apóstolo Paulo (fundador daquela comunidade) uma questão: será que apenas aqueles que estiverem presentes no momento da última vinda de Jesus, em glória, será que apenas eles vão participar da vida eterna? Que sucede com todos os outros cristãos que morrerem antes dessa última vinda?

O Apóstolo respondeu-lhes como escutámos na IIª Leitura: "Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo, Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido". Quando tiver lugar a última vinda do Senhor, os que tiverem morrido em Cristo ressuscitarão e só depois os que nessa altura estiverem vivos participarão da glória de Jesus.

Mas S. Paulo é também claro: o que importa é "morrer em Cristo". Que significa isso? Creio que o podemos entender por meio da afirmação final de S. Paulo: "E assim estaremos sempre com o Senhor". Esse é o segredo da vida, da nossa vida enquanto vivemos neste nosso mundo, porque nisso consiste a vida cristã — estar sempre com o Senhor: viver, pensar, sentir, rezar, agir na presença de Jesus, com Jesus ao nosso lado. E, esse é, também, o segredo da própria vida eterna, como escutámos: "Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo, Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido".

Para Paulo é claro: a morte e a ressurreição de Jesus são a garantia da nossa própria ressurreição — nós que vivemos com o Senhor, que fizemos parte dos seus, não seremos abandonados às garras da morte: "O Senhor é meu pastor, nada me faltará", como cantámos no Salmo Responsorial.

Isso mesmo afirma o Apóstolo num seu outro escrito, a Primeira Carta aos Coríntios: "Se realmente os mortos não ressuscitam, […] por que razão nos sujeitamos ao perigo, a toda a hora? 31Eu todos os dias me exponho à morte — tão certo, irmãos, como serdes vós o motivo que tenho para me gloriar em Cristo Jesus, nosso Senhor. 32Se foi apenas por razões humanas que lutei contra as feras em Éfeso, que proveito é que isso me trouxe? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos […]. 35Mas alguém poderá dizer: «Como ressuscitam os mortos? Com que espécie de corpo voltam eles?» 36Insensato! O que tu semeias não se torna vivo, se não morrer! 37E, quando semeias, não semeias o corpo que há de surgir, mas um simples grão, por exemplo de trigo, ou de qualquer outra espécie. 38Deus, porém, dá-lhe um corpo conforme determinou, e dá a cada uma das sementes o corpo que lhe é próprio. […] 42Assim é também a ressurreição dos mortos: semeado na corrupção, o corpo ressuscita na incorruptibilidade; 43semeado na desonra, ressuscita na glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; 44semeado corpo natural, ressuscita corpo espiritual" (1Cor 15,29-32. 35-38. 42-44).

3. A Eucaristia: A certeza do caminho para o Céu

Da vida do Senhor Jesus — vida eterna, eternamente feliz porque divina, — se torna penhor a Eucaristia, antecipação na história do banquete final a que se referia o Profeta.

Ao participar na Eucaristia; ao comungar o corpo e sangue do Senhor é-nos oferecida a garantia de partilharmos plenamente dessas realidades na eternidade divina.

Mas não apenas garantia dum bem futuro: já hoje nos é dado participar do "Pão do Céu": "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, também aquele que Me come viverá por Mim" — assim o assegurava o próprio Senhor Jesus no evangelho há pouco proclamado.

Compreendeu-o bem S. Carlo Acutis, o jovem italiano recentemente canonizado que, desde a sua Primeira Comunhão, colocou no centro de cada dia a participação na Eucaristia: "A Eucaristia, dizia ele, é a minha autoestrada para o Céu".

Celebremos, também nós, a Eucaristia. Saboreemos, desde já, o Pão do Céu. Alimentados pelo Corpo e Sangue do Senhor, caminhemos seguros em direção à eternidade feliz.

E que esta Eucaristia, celebrada por alma de quantos repousam neste cemitério de S. Martinho do Funchal, e de quantos faleceram na nossa Diocese neste ano que passou, seja para eles comunhão de vida, sufrágio dos pecados, ajuda preciosa no seu peregrinar em direção a Deus.

+ Nuno, Bispo do Funchal