Solenidade de Nossa Senhora, Mãe de Deus - 1 janeiro

SOLENIDADE DE SANTA MARIA MÃE DE DEUS

DIA MUNDIAL DA PAZ - 1 JANEIRO 2020

Sé do Funchal

1. Celebramos hoje a solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Trata-se da mais antiga solenidade da Virgem Maria no calendário da liturgia cristã. Parecendo que se trata apenas de um louvor à Mãe de Jesus - já isso não seria pouco! - a solenidade de hoje é, essencialmente, uma afirmação de fé acerca do próprio Jesus, quer dizer: do Menino nascido no Presépio de Belém.

Com efeito, logo no início do cristianismo e ao longo dos primeiros séculos surgiram dificuldades acerca de como devemos olhar para Jesus, de como O devemos entender.

Que Ele fosse alguém de extraordinário, não havia dúvidas. Que olhar para Ele como um profeta como tantos outros fosse redutor da sua própria pessoa, também não havia dúvidas, tal tinham sido o fulgor e as consequências da sua ressurreição. Que nele se experimentava uma particular proximidade de Deus, era igualmente claro. Mas como compaginar, como afirmar a presença de Deus neste homem que era Jesus?

O primeiro impulso foi o de considerar Jesus apenas como um homem, que Deus teria adoptado como seu Filho. Mas, então, Jesus seria apenas um homem mais extraordinário que os demais: nunca o Deus salvador.

A esta tentativa, seguiu-se uma outra, a de considerar que Deus aparecia no homem de Nazaré mas sem assumir verdadeira natureza humana. Agora era a verdade do homem que se encontrava em perigo e, com ela, de novo, a salvação, porque aquilo que não foi assumido, não pode ser redimido.

Coube ao Concílio de Éfeso, no ano 431, afirmar que Maria é a Mãe de Deus; que dela o Verbo recebeu verdadeira carne, natureza humana. "Verdadeiro Deus e verdadeiro homem": podemos resumir, numa perspectiva cristológica, o dogma da Mãe de Deus. Ou, como afirma o Catecismo da Igreja Católica (466): "A humanidade de Cristo não tem outro sujeito senão a pessoa divina do Filho de Deus, que a assumiu e a fez sua desde que foi concebida".

Maria convida-nos, portanto, a olhar para o Presépio e a reconhecer naquele Menino, que é de verdade seu Filho, a reconhecer nele o Deus feito homem verdadeiro.

Foi da Virgem que Jesus recebeu a natureza humana. Jesus não é um homem adotado por Deus como profeta, nem é apenas Deus numa aparência humana. Ele é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Coube à Virgem Maria a sublime missão de lhe oferecer a natureza humana, a carne humana que O fez um de nós - como afirma a Carta aos Hebreus: "em tudo igual a nós, excepto no pecado" (Heb 4,15). Ou, como afirmava o Apóstolo Paulo na passagem da Carta aos Gálatas que escutámos como IIª leitura: "Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei" (Gal 4,4-7).

Apenas deste modo é garantida a nossa salvação. Apenas deste modo, quando Deus se faz homem - e homem verdadeiro - Ele nos pode resgatar em todas as dimensões da nossa existência, nos pode dar a vida em abundância, que é a sua vida divina.

2. Mas isto significa, igualmente, que nada de quanto é verdadeiramente humano é, doravante, estranho a Deus. Pelo contrário: tudo o que é humano lhe interessa em primeira pessoa. E, assim, tudo o que é humano interessa à fé, e nos interessa a nós, cristãos.

De um modo particular, de há 53 anos a esta parte, neste dia de início de um novo ano, em que pedimos para nós e para o mundo a bênção divina (cf. Nm 6,22-27: "O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz"), de um modo particular neste primeiro dia do ano, como que a oferecer o mote para todos os demais dias, somos convidados pelo Santo Padre a rezar e a sermos fonte de paz para toda a humanidade.

"A paz, é caminho de esperança", diz o Papa Francisco na Mensagem para o presente Dia Mundial da Paz. Podemos ainda esperar um mundo de paz? "A paz, diz o Papa, alcança-se no mais fundo do coração humano, e a vontade política deve ser incessantemente revigorada para abrir novos processos que reconciliem e unam pessoas e comunidades".

Sim: quando deixamos que a paz, que é dom de Deus, transforme, converta o nosso coração e, desse modo, converta o nosso ser, o nosso agir, o nosso viver, podemos e devemos esperar a paz para nós e para quantos nos rodeiam. Podemos e devemos esperar a paz para o mundo inteiro. Não como sonho inalcançável. Não como desejo inatingível mas como realidade que já experimentamos e da qual queremos fazer com que todos participem. "O mundo, diz ainda o Papa, não precisa de palavras vazias, mas de testemunhas convictas, artesãos de paz abertos ao mundo, sem exclusões nem manipulações".

Daqui, surge, diz ainda o Santo Padre, um "novo modo de habitar na casa comum, de convivermos uns e outros com as próprias diversidades, de celebrar e respeitar a vida recebida e partilhada, de nos preocuparmos com condições e modelos de sociedade que favoreçam o desabrochar e a permanência da vida no futuro, de desenvolver o bem comum de toda a família humana".

Ou, dito de outro modo, daqui surge a "conversão ecológica": "Esta conversão - continua o Papa - deve ser entendida de maneira integral, como uma transformação das relações que mantemos com as nossas irmãs e irmãos, com os outros seres vivos, com a criação na sua riquíssima variedade, com o Criador que é origem de toda a vida. Para o cristão, uma tal conversão exige deixar emergir, nas relações com o mundo que o rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus".

Percebendo que, em Jesus de Nazaré (Deus e homem verdadeiro), Deus vem ao nosso encontro; percebendo que, desse modo, Ele se torna próximo de todos e cada um, deixemos que em nós Jesus semeie a paz, único caminho verdadeiramente digno do ser humano que queremos percorrer ao longo de todo este ano de 2020.

+ Nuno, Bispo do Funchal