Quarta-feira de Cinzas

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Sé do Funchal, 6 de Março de 2019

Convertei-vos!

Caros irmãos

1. A cada um de nós, a cada uma das nossas comunidades - à nossa Diocese! - a Palavra de Deus que acabou de ser proclamada começava por fazer um apelo: "convertei-vos!". Como escutávamos ao Profeta Jeremias: "Diz agora o Senhor: «Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete".

O apelo à conversão marcou, aliás, a pregação do próprio Jesus, como nos recorda o evangelista S. Marcos, logo no início do seu escrito: "Depois que João foi preso, Jesus veio para a Galileia e proclamava o Evangelho de Deus: Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e acreditai no Evangelho" (Mc 1,14-15).

A conversão é, portanto, uma atitude que deve estar sempre presente na vida de qualquer cristão. Mas na Quaresma este convite torna-se mais intenso. A conversão de vida é o grande convite e o grande dom da Quaresma!

2. Mas porque nos havemos de converter? Certamente, no coração de todo e qualquer ser humano está sempre presente um desejo de viver melhor, de ser melhor - um desejo de progresso, para si e para os demais. Mas não é desta sede de mais e de progresso que nos fala o Evangelho, ainda que este desejo, longe de ser negativo, seja antes o reflexo daquele outro que Jesus nos propõe e coloca ao nosso alcance.

Jesus convida à conversão porque o tempo chegou ao seu termo e o Reino de Deus está próximo! Deus encheu, preencheu o tempo, e ele transbordou e encharcou de vida divina tudo quanto estava ao seu redor. Quando Deus se fez homem, disse-nos tudo o que havia a dizer; realizou tudo quanto havia a realizar da sua parte: a salvação. Deus iniciou, com o novo Adão que é Cristo, o mundo novo. Quando Deus se fez homem em Jesus de Nazaré, a história ficou grávida, preenchida de Deus. O Reino de Deus, quer dizer: a vida de Deus connosco, com tudo o que isso significa de paz, bem estar, convivência, harmonia, amor, de perenidade e de infinito - de vida eterna! -, passou a ser uma realidade, uma semente presente efectivamente no seio do mundo e da história. Algo de vivo, eternamente vivo que se tornou manifesto na manhã da ressurreição. E não se trata de uma ideia ou de um sonho, por muito que as ideias e os sonhos possam fazer avançar o mundo. Trata-se de um homem, de uma pessoa bem concreta: Jesus de Nazaré.

É por isto que não podemos deixar de nos converter. O amor tornou-se uma realidade. É uma pessoa, um ser humano: Jesus. Aquele mesmo que, como recorda S. João, os apóstolos viram, tocaram, escutaram (cf. 1Jo 1,1). E, perante esta sobreabundância de vida, poderemos, porventura, ficar impávidos e serenos como se nada fosse, como se nada tivesse acontecido, como se toda esta sobreabundância não nos interpelasse?

Que havemos de fazer? - perguntaram os habitantes de Jerusalém a Pedro quando este, no dia de Pentecostes, lhes anunciou o Evangelho, quer dizer: a ressurreição de Jesus e a vida nova que ela a todos trazia. Diante desta realidade maravilhosa que é colocada ao nosso alcance, que podemos nós fazer para também dela participarmos?

A resposta do Apóstolo foi precisamente esta: "convertei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos pecados. Então recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, assim como para os vossos filhos e para todos aqueles que estão longe" (At 2,38-39).

3. Mas em que consiste a conversão? A conversão - esse dinamismo, esse motor que há-de estar sempre presente na nossa vida cristã - consiste na transformação quotidiana do nosso modo de pensar, de agir, de viver, de ser.

É uma permanente mudança no modo de pensar. Quer dizer: uma transformação no nosso modo de olhar o mundo. Habitualmente, vemos o mundo a partir de nós - e é também assim que o pensamos: tudo parece estar à nossa volta; parece que somos o centro do universo. A conversão que Jesus nos propõe consiste, em primeiro lugar, no convite a vermos o mundo com os olhos de Deus.

E como tudo muda, quando procuramos ver o mundo com os olhos de Deus! Aqueles que consideramos inimigos passam a ser alguém que é digno do amor de Deus - e, por isso, digno do nosso amor. Aqueles que condenamos com palavras e sentimentos fáceis porque cometeram algum crime, tornam-se alguém que precisamos de ajudar a ser melhores. Aqueles que tratamos como objectos desprezíveis, são afinal alguém por quem o próprio Jesus morreu na cruz, nossos irmãos. A própria natureza se transforma em dom a ser cuidado e preservado para o bem de todos os que agora vivem e para o bem daqueles que hão-de viver depois de nós!

A conversão é, depois, uma permanente mudança no nosso modo de agir. Convida-nos a não tratarmos primeiro de nós, mas a colocar o outro em primeiro lugar. Convida-nos a colocar Deus em primeiro lugar e, logo depois e como expressão desse primeiro cuidado pela Pessoa divina, a cuidar do próximo. Convida-nos a esquecer o nosso conforto, para cuidarmos daquele que precisa. Convida-nos à atitude da caridade. A caridade é o nome dado ao amor de Deus por nós. E nós somos convidados a fazer como Deus; a agir como Ele: esquecendo-nos de nós para, primeiro, servirmos o próximo.

A conversão é uma mudança permanente, um caminho de constante mudança no nosso modo de viver, no nosso modo de ser. Quero dizer: não raras vezes as palavras que dizemos não concordam, de facto, com aquilo que pensamos; e noutras tantas situações o que fazemos é porque somos obrigados pelas circunstâncias. É essa apenas uma conversão exterior. Importante porque traz consigo o bem do próximo, mas não suficiente. A conversão é um caminho de mudança do nosso próprio ser, das realidades mais íntimas, secretas e fundamentais da nossa existência. Jesus era mesmo duro para com aqueles que assumiam como objectivo o de "serem vistos pelos homens" (Mt 6,16), chamando-lhes hipócritas.

"Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim" (Gal 2,20). Esta é a meta que nos é proposta a todos: deixarmos que o encontro com o Senhor, a consciência da Sua presença nos vá transformando nas atitudes exteriores mas, sobretudo, naquelas interiores, no nosso ser mais profundo. "E teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa", afirmava o Senhor no trecho do evangelho que escutámos.

Irmãos,

Começamos hoje, uma vez mais, o caminho em direcção às celebrações da Páscoa do Senhor. Diante de nós estão estes 40 dias de penitência. Não os vivamos de um modo apenas exterior, para cumprir o calendário. Aceitemo-los como verdadeiro dom de Deus, como caminho a percorrer, individualmente mas também como comunidade eclesial, com os olhos fixos na Páscoa de Jesus.

Que havemos de fazer? Jesus apontava três ajudas essenciais: a esmola, o jejum, a oração. A estas, a sabedoria da Igreja acrescentou ainda a leitura frequente da Palavra de Deus, a confissão sacramental, e tantos outros exercícios pessoais ou comunitários de piedade.

Na sua mensagem para a Quaresma, o Papa Francisco fazia-se também porta voz deste apelo do Evangelho: "O caminho rumo à Páscoa - dizia o Santo Padre - chama-nos precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, da conversão e do perdão, para podermos viver toda a riqueza da graça do mistério pascal. A «impaciência», a expectativa da criação ver-se-á satisfeita quando se manifestarem os filhos de Deus, isto é, quando os cristãos e todos os homens entrarem decididamente neste «parto» que é a conversão".

As cinzas que, como sinal de penitência, vamos de seguida receber sobre as nossas cabeças sejam expressão da nossa profunda vontade de mudança de vida.