Palavras do Bispo do Funchal nos cumprimentos de Natal

SAUDAÇÕES DE BOAS FESTAS

Casa Episcopal, 28 Dezembro 2019

1. As minhas primeiras palavras não podem deixar de ser de agradecimento. Agradecimento pelas saudações que acabaram de me ser dirigidas e que expressam o voto de Boas Festas por parte de toda a Igreja diocesana.

O nascimento do Salvador em Belém e em nós, que ainda estamos a celebrar, quase espontaneamente faz surgir nos nossos corações este sentimento de gratidão.

Mas a espontaneidade transforma-se, depois, em tomada de consciência e em adesão crente, em resposta de fé proclamada - de um modo particular nesta nossa Ilha, onde o Natal é "a Festa" por antonomásia.

Estas minhas palavras de agradecimento querem, no entanto, ir além da presente circunstância natalícia, para expressar a gratidão (que já tenho tantas vezes dirigido a Deus) por estes meses - quase um ano! - como bispo do Funchal. Têm sido meses de trabalho intenso; têm sido meses de percepção de como o Espírito Santo actua no meio de nós; têm sido meses de enamoramento por esta nossa diocese.

Dirão que se trata apenas da "lua-de-mel" e que não tardarão os momentos de "lua-de-fel". Será. Mas enquanto estes não vêm, deixai que aproveite a felicidade da "lua-de-mel" para a viver intensamente. E para, reconhecido, agradecer ao Pai que me enviou para o meio de vós, como vosso bispo. Mas também para agradecer ao todo da Igreja diocesana - e de um modo muito concreto a todos os que aqui se encontram: rostos visíveis e concretos em que a Igreja funchalense mais aparece e sem os quais, de um ou outro modo, os trabalhos destes meses teriam sido impossíveis. Do fundo do coração, a todos vós um obrigado sincero pela colaboração, entusiasmo, incentivo que me tendes oferecido.

2. Sem qualquer pretensão de estar agora a desenvolver doutrina, permiti que chame a vossa atenção para dois pontos da nossa realidade de Igreja diocesana, que me parecem importantes.

Em primeiro lugar, a necessidade de darmos atenção ao cristianismo como "acontecimento". Envolvidos por aquilo que se convencionou chamar a "magia" do Natal; pelo "Pai Natal" com as suas renas; por fadas e duendes e por outros tantos reclames à nossa imaginação, facilmente embarcamos também nós, cristãos, numa redução da fé a este imaginário, criado na mente humana, sobretudo ocidental. Dessa redução se faz, aliás, eco uma publicidade televisiva: depois de mostrar o Pai Natal, convida: "acredita e faz acreditar".

Ao contrário de tudo isto, como alguém dizia, tomemos consciência de que "o Presépio cheirava mal", era desconfortável, frio e sujo. Muito pouco (nada) teria do conforto que, de um modo ou de outro, vivemos, principalmente nesta quadra. Mas foi assim, naquele concreto Presépio de Belém, que Deus entrou, de um modo imprevisível mas decisivo, na história da humanidade.

Digo bem, na história da humanidade. Assim o sublinha o canto das calendas, no início da Missa do Galo:

«Passados inumeráveis séculos desde a criação do mundo, quando no princípio Deus criou o céu e a terra e formou o homem à sua imagem; depois de muitos séculos, desde que o Altíssimo pôs o seu arco nas nuvens como sinal de aliança e de paz; vinte e um séculos depois da emigração de Abraão, nosso pai na fé, de Ur dos Caldeus; treze séculos depois de Israel ter saído do Egipto, guiado por Moisés; cerca de mil anos depois que David foi ungido rei; na semana sexagésima quinta, segundo a profecia de Daniel; na Olimpíada cento e noventa e quatro; no ano setecentos e cinquenta e dois da fundação de Roma; no ano quarenta e dois do império de César Octávio Augusto; estando todo o orbe em paz, Jesus Cristo, Deus eterno e Filho do eterno Pai, querendo consagrar o mundo com a sua piedosíssima vinda, concebido pelo Espírito Santo, nove meses depois da sua conceição, nasceu em Belém de Judá, da Virgem Maria, feito homem: Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne».

O Natal é acontecimento. Acontecimento histórico. Num lugar, tempo e cultura determinados. Realidade concreta e palpável. Sem nada de magia ou de sonho. Com tudo de temporal, transitório, perceptível aos sentidos humanos. E a sua maravilha é precisamente esta: de na realidade histórica e concreta, sensorial e humana, Deus estar presente. Deus fez-se visível, palpável, presente, para nos oferecer a sua vida divina.

E, desde então, a fé cristã é também assim: acontecimento. Quando deixar de o ser; quando passar a ser fruto da imaginação humana; quando se reduzir a uma teoria acerca do homem e do mundo, terá deixado de ser cristã.

Poderão, certamente, os homens duvidar da realidade da manifestação divina naquele acontecimento. Poderão duvidar que nele estivesse presente o Verbo. Mas não poderão nunca duvidar da carne em que Ele se manifestou, e que aí está, como realidade, evidência, questionamento dirigido a todos, oferecendo-se como sentido definitivo para a existência humana.

Nem poderão duvidar da vida que depois se lhe seguiu. E mesmo aqueles que não acreditam na verdade da ressurreição, mesmo esses não deixam nunca de afirmar, confrontados com os testemunhos históricos que lhes são oferecidos: não sabemos o que foi, mas algo sucedeu que transformou os discípulos. Mesmo aqueles, não são capazes de negar a dimensão histórica da ressurreição de Jesus.

E essa manifestação divina, assim, em acontecimento, em vida humana vivida, continuou depois, ao longo destes dois mil anos: antes de revolucionar o pensamento, o cristianismo revolucionou o modo de viver do nosso mundo. O cristianismo não se ofereceu nunca como ideologia mas propôs-se, apresentou-se sempre como vida.

Certamente: essa vida foi também pensada, comunicada. Com efeito, a vida humana não pode nunca ser vivida sem ser pensada, porque essa é a condição para que possa ser partilhada e para que aquele acontecimento único que é o todo da existência de Jesus de Nazaré pudesse chegar ao mundo inteiro, pudesse ser presente, assim como é, na sua inteireza, sem os desvios, sem as subtrações ou adições a que a mente humana é sempre tão inclinada. Como afirmou um teólogo do século XX, "a Palavra fez-se carne, para que a carne se pudesse fazer palavra" (H. U. von Balthasar).

E a carne continua a fazer-se palavra, a falar ainda hoje. E é importante que o faça. O mesmo é dizer: é importante que o acontecimento que é Jesus de Nazaré continue a ser visível. É importante que a carne dos cristãos continue hoje a falar, a mostrar o Verbo: a mostrá-lo como oferecendo-se ao nosso olhar e a todos os sentidos humanos, mas também à nossa inteligência e ao nosso coração. Só desse modo o Verbo pode continuar a oferecer sentido para a vida do mundo, a converter, revolucionar, transformar a nossa vida individual e a nossa vida de sociedade: é a vida de cada cristão e de cada comunidade que hoje fala de Jesus e, desse modo, interroga a quantos ainda não têm a felicidade de acreditar.

3. Um segundo ponto de reflexão gostaria ainda de vos oferecer. Trata-se desta realidade simples, concreta mas magnífica, que estamos a viver neste preciso momento: somos, nós que aqui estamos, povo de Deus, humanidade nova, batizados que passaram em Cristo da morte para a vida; Igreja de Deus que fala, que se apresenta, com a sua fragilidade - e temos tantas fragilidades! -, com a sua carne, ao mundo contemporâneo.

É esta realidade do batismo, em que é sepultado o homem velho (quer dizer: o modo velho, habitual, já conhecido, de viver como ser humano, cheio de modas, centrado em si, juiz de tudo e de todos, à procura que todos se lhe verguem e rendam homenagem), é essa realidade do baptismo que aqui nos reúne.

É o batismo que nos faz cristãos, filhos de Deus, membros do único corpo de Cristo. Sem essa vida nova, vida de Cristo (o Espírito Santo), a escorrer, a latejar na nossa existência, para nada serviríamos. Como diz tantas vezes o Papa Francisco - disse-o logo na primeira Eucaristia celebrada como Sucessor de Pedro - sem Cristo a Igreja não passaria de uma ONG piedosa. Sem a vida de Cristo nos cristãos, o mundo pode bem passar sem eles. Aquilo que temos para oferecer ao mundo inteiro resume-se a uma pessoa: Jesus. Resume-se à vida batismal de cada um e à vida batismal de cada uma das nossas comunidades.

Ao convocar a nossa Igreja diocesana para um ano dedicado ao aprofundamento da vida baptismal que em cada um de nós corre e que nos une a todos no único corpo de Cristo, quis apenas que tomássemos consciência da maravilha que é ser cristão; de como essa vida nova nos torna irmãos uns dos outros; de como essa vida não pode ser guardada, escondida, mas há-de antes ser anunciada sobre os telhados, bem alto, para que seja acessível a todos, como proposta de vida nova.

Perdoai estas reflexões que já vão longas para a circunstância presente, mas que não poderia deixar de partilhar convosco.

Renovo a todos os votos de um santo e feliz Natal (ainda nos encontramos dentro da oitava!), e a todos animo a que, ao longo deste ano que se aproxima, usemos o tempo que o Senhor nos oferece para vivermos dele e com Ele; e que a nossa carne seja um testemunho concreto que sempre fala, mostra, proclama o Verbo de Deus feito homem para nos dar a vida.