Missa do Galo 2022

26-12-2022

NATAL DO SENHOR

Missa da Meia-Noite

Sé do Funchal, 24 de dezembro 2022

"Rejubilam na vossa presença"

O Anjo do Senhor aproximou-se deles, e a glória do Senhor cercou-os de

luz" (Lc 2,9).

Velando pelo rebanho, desprezados e marginais a toda a sociedade; sem

tecto ou abrigo onde passar a noite, os pastores de Belém dão corpo e

presença aos "herdeiros" de David - também ele um guardador de

rebanhos e, depois, rei de Judá a quem fora prometida a vinda do Messias

(cf. 1Sam 16,11; 2Sam 7,14).

Foi àqueles pobres pastores que viviam nos campos, fora da cidade - longe

daquela cidade de coração endurecido, incapaz de acolher Deus e de

albergar a família de Nazaré - foi a eles - talvez os únicos pobres

disponíveis para, naquela noite, acolher semelhante notícia - foi a eles que

o Anjo foi enviado para anunciar o Evangelho: "Nasceu-vos hoje, na cidade

de David, um Salvador, que é Cristo Senhor" (Lc 2,11).

Dum modo silencioso e imprevisível, tinha - por fim! - chegado o tempo

escolhido por Deus para cumprir aquilo que, séculos antes, fora anunciado

por Miqueias: "E tu, Belém-Efrata, pequena entre as cidades de Judá, de ti

sairá aquele que há-de governar Israel. [...] Ele se erguerá e apascentará o

rebanho pela força do Senhor, com a majestade do nome do seu Deus" (Miq

5,1.3).

O tempo da preparação fora preenchido. O Messias, o Cristo prometido por

Deus e esperado como Salvador, tinha nascido e manifestava-se. Nesse

momento, a história de toda a humanidade recebeu finalmente o seu centro,

aquele ponto único (preparado e esperado desde o princípio), capaz de lhe

oferecer o sentido, o porquê do seu caminho e existência.

O Messias manifestava-se com toda a sua glória e, ao mesmo tempo, em

toda a fragilidade do "Filho do Homem": aquela fragilidade que não se impõe

mas sempre propõe; aquela fragilidade que se apresenta à liberdade de

todos, sem mais argumentos que não o próprio ser; aquela fragilidade de

quem quer necessitar do outro, do seu acolhimento e do seu amor, do seu

cuidado; aquela fragilidade que apenas o pobres são capazes de entender.

No Menino do Presépio, no Menino recém-nascido, envolto em panos e

deitado na manjedoira, manifestava-se o Messias.

Não espanta pois, que, no momento em que o Anjo evangelizou os pastores

de Belém (quer dizer: o momento em que lhes comunicou a feliz notícia e

eles encontraram o Salvador), não espanta que, nesse momento, a glória de

Deus se tenha manifestado, e a noite se tenha transformado em dia. Os

pastores escutaram a boa notícia, e tudo à sua volta se transformou. Tudo foi

inundado da glória de Deus - a natureza que os rodeava e o íntimo do seu

coração.

A "glória de Deus" é a expressão usada na Sagrada Escritura para falar

daqueles momentos em que a Presença divina se mostra ao ser humano na

sua majestade, peso, perfeição, bondade, santidade e beleza - mas

também na fragilidade de quem se expõe e arrisca o acolhimento da

liberdade humana.

Naquela noite, Deus manifestou a Sua glória àqueles pobres pastores,

tornando luminosa a sua existência e envolvendo-os completamente (S.

Lucas diz: "A glória do Senhor cercou-os de luz").

Ao mesmo tempo, aquilo que era inicialmente uma percepção apenas visual

(luz que tudo torna inteligível, compreensível), tornou-se também uma

percepção audível, musical, sinfónica. S. Lucas diz: "Juntou-se ao Anjo uma

multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: Glória a Deus nas

alturas e paz na terra aos homens por Ele amados".

O ver e o ouvir, tudo se conjugava harmoniosamente e se tornava veículo

para conduzir ao encontro da Presença de Deus. É o que sucede quando

Céu e Terra se unem num ponto de singular coincidência: Deus e o Homem

unidos na fragilidade dum recém-nascido; a glória de Deus que se manifesta

na pequenez e humildade duma criança; e, ao mesmo tempo, o homem que

é elevado a lugar de epifania divina.

É esta Presença de Deus que, a partir desse momento, passará a iluminar

toda a história, toda a humanidade, em todos os tempos. É esta Presença

que passará a animar toda a urgente procura humana pelo sentido da

existência: "Vamos já a Belém - dizem os pastores uns aos outros - e

vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer. Foram às

pressas e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura" (Lc

2,15-16).

Algo de muito semelhante sucederá com os Magos, no dizer do evangelho

de S. Mateus: "E eis que a estrela, que tinham visto no oriente, avançava à

sua frente, até que, ao chegar, parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao

ver a estrela, sentiram uma alegria imensa. Entrando na casa, viram o

Menino com Maria, sua mãe, e, caindo por terra, adoraram-no" (Mt 2,9-11).

E o evangelho de S. João narra como, mais tarde, André e outro discípulo,

depois de escutarem o Baptista, seguiram Jesus que os interrogou: "Que

procurais?" "Rabbi, onde moras?", responderam. Disse-lhes: "Vinde e vede".

"Então, eles foram e viram onde morava, e permaneceram com Ele naquele

dia". "Encontrámos o Messias" - dirá depois André a seu irmão Simão. E,

ainda, Filipe a Natanael: "Encontrámos aquele de quem escreveram Moisés

e os Profetas: é Jesus de Nazaré" (cf. Jo 1,35-45).

Alguns anos depois, um ancião de aspecto venerável dirá a Justino, filósofo

que procurava a verdade: "Reza para que, antes de mais, te sejam abertas

as portas da luz". E Justino recorda: "Pelo que me diz respeito, um fogo

irrompeu naquele momento na minha alma, fui tomado pelo amor dos

profetas e daqueles que são amigos de Cristo; reflectindo para comigo sobre

os seus discursos, encontrei ser esta a única filosofia certa e salvadora"

(Dial. Trif. 7,3.8,1).

E depois, tantos e tantos outros, ao escutarem o Evangelho (a mesma Boa

Notícia anunciada naquela noite aos pastores), foram tomados pela mesma

Presença divina e encontraram o mesmo Messias salvador: na presença

escondida de um pobre, na contemplação do mistério da cruz, na palavra ou

na vida de tantos, ou em qualquer outro momento em que Deus fez com eles

Natal - a glória do Natal!

Sabemos, nós que enchemos hoje as naves desta velha catedral (também

ela testemunha natalícia no meio desta nossa cidade), que não terminaram

nem o anúncio do Anjo, nem a procura humana pelo Salvador, nem a sua

manifestação natalícia.

E também sabemos, por experiência própria, o que significa vigiar na noite

do sofrimento e da incompreensão como os pastores de Belém; ou procurar

por caminhos desconhecidos, guiados por um qualquer sinal, como os

magos de terras longínquas; ou seguir discretamente os passos de Jesus,

como os discípulos da primeira hora; ou indagar de qualquer outro modo pelo

Salvador.

Mas sabemos, igualmente por experiência própria, a felicidade suprema de

ter, um dia da nossa vida, encontrado o Menino, assim como Ele sempre se

manifesta: pequeno, frágil, deitado na manjedoira, com sua Mãe; a felicidade

suprema de perceber interiormente: "Encontrámos o Messias".

Hoje, somos nós, que envolvidos pela Presença de Deus nesta noite santa

de Natal, nos vemos cercados pela luz da glória de Deus, missionários e

construtores da paz entre os homens. Somos nós que vemos e escutamos a

sinfonia do louvor divino - a glória presente no amor dos irmãos, presente

na vida quotidiana da Igreja, presente no bem que se faz por esse mundo

fora, presente quando alguém estende a mão e conduz para Deus.

É esta mesma Presença divina que, saída do Presépio de Belém, chega hoje

até nós, com o mesmo fulgor, com a mesma beleza daquela noite primeira,

daquele momento "zero" da história da humanidade.

É esta Presença que hoje aqui acolhemos, nesta Catedral funchalense, e de

que somos testemunhas uns para os outros - verdadeiros anjos que, com

suas palavras e com suas vidas, assumem também a missão divina de

contar, de proclamar a glória de Deus e de construir a paz, oferecida aos

homens capazes de acolher o seu amor.


+ Nuno, Bispo do Funchal