Homilia Vigília Pascal

04-04-2026
Foto de Duarte Gomes
Foto de Duarte Gomes

VIGÍLIA PASCAL

Sé do Funchal, 5 de Abril de 2026

"Assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova" (Rom 6)

No excerto da Carta aos Romanos que escutámos, S. Paulo apresentava à Comunidade de Roma um raciocínio central para a nossa vida de cristãos: ser cristão, dizia o Apóstolo, é viver unido o mais possível a Cristo.

Ou seja: ser cristão é estar unido a Cristo exteriormente, procurando assumir os mesmos comportamentos e as mesmas atitudes que Ele; é estar unido a Cristo psicologicamente, vivendo os mesmos pensamentos e sentimentos; mas é, sobretudo, estar unido a Cristo em união de ser, deixando que seja Ele a viver em nós — deixando que Ele tome conta de tudo o que somos, temos e vivemos. Se tal acontecer, então a vida de Cristo será a nossa; o destino de Cristo será o nosso: e se Cristo ressuscitou, também nós havemos de, com Ele, ser ressuscitados.

1. "Cristo ressuscitou dos mortos para glória do Pai"

Cristo ressuscitou. Esta é a grande notícia que fez correr os primeiros cristãos, e que faz correr, em particular, a S. Paulo, depois que o Ressuscitado lhe saiu ao encontro na estrada de Damasco, e o antigo perseguidor se rendeu à vida gloriosa que Jesus lhe propunha.

Desde esse momento, os cristãos correm até aos confins do mundo porque trazem consigo uma notícia única mas essencial para todos os seres humanos: um de nós venceu a morte e mostra em si a vida, a glória de Deus. E isso significa que a morte pode ser vencida; que a morte deixou de ser um destino inevitável para os seres humanos. O muro da morte que nos condenava e separava da vida foi derrubado para sempre.

E essa é também a grande notícia que nos faz correr a cada um de nós — para a vivermos com feliz alegria, porque abre diante de nós o horizonte da vida eterna; e para a comunicarmos aos outros, de modo a transformar a sua vida, a vida das diferentes sociedades e culturas humanas: de todas as suas estruturas, modos de pensar, organizações sociais e políticas.

A notícia da ressurreição de Jesus é a notícia que nos anima a ser cristãos durante esta nossa vida: a procurar ser "por Cristo, com Cristo e em Cristo", apesar de todas as dificuldades e sofrimentos.

De um modo particular, esta é a notícia que preenche esta noite santa, esta noite de Páscoa. Ao romper da manhã, um grupo de mulheres foi procurar um sepulcro cerrado e encontraram um Anjo que, da parte de Deus, lhes retirou a pedra que fechava o túmulo; foram para chorar o amigo morto, e depararam-se com a notícia alegre e jubilosa da ressurreição; estavam derrotadas com o acontecimento da morte, e anunciaram-lhes a alegre notícia da vitória sobre a morte; foram procurar o Crucificado e saiu-lhes ao encontro o Ressuscitado, cheio da glória de Deus.

2. "Também com Ele viveremos"

"Se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos, sabendo que, uma vez ressuscitado dos mortos, Cristo já não pode morrer; a morte já não tem domínio sobre Ele".

Como morremos com Cristo? O Baptismo, dizia S. Paulo, configura-nos com Cristo: "Todos nós que fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele pelo Batismo na sua morte". No baptismo morremos com Cristo. O baptismo é, em primeiro lugar, um sacramento de morte.

No século IV, São Basílio Magno interrogava-se: "Como poderemos assemelhar-nos a Cristo na sua morte? Sepultando-nos com Ele pelo Baptismo. Em que consiste esta sepultura e qual é o fruto desta imitação? Antes de mais, trata-se de cortar com a vida passada. Mas ninguém pode conseguir isto, se não renascer de novo, segundo a palavra do Senhor, porque o renascimento, como o nome indica, é o começo de uma vida nova. Por isso, antes de começar esta vida nova, é necessário pôr fim à antiga" (Sobre o Espírito Santo, Cap. 15, 35).

E São Cirilo de Jerusalém dirigindo-se aos recém-baptizados na noite de Páscoa, também no século IV, dizia: "Oh! facto estranho e paradoxal! Não morremos em verdade, não fomos sepultados em verdade, não fomos crucificados e ressuscitados em verdade. A imitação é uma imagem; a salvação, uma verdade. Cristo foi crucificado, sepultado e verdadeiramente ressuscitou. Todas estas coisas nos foram dadas como graça, a fim de que, participando, por imitação, nos seus sofrimentos, em verdade cheguemos à salvação. Oh! amor sem medida! Cristo recebeu em suas mãos imaculadas os pregos e padeceu; e a mim, sem sofrimento e sem pena, concede graciosamente a salvação por meio desta participação" (II Catequese mistagógica, 5).

Eis, queridos irmãos, o grande mistério que celebramos nesta noite santa de Páscoa. Unidos a Cristo, participando da sua morte por meio do baptismo, também nós havemos de viver como ressuscitados, irradiando a glória de Deus — quer dizer: o esplendor do amor divino. Acolhamos, de coração disponível a graça que nos é oferecida, e manifestemos na nossa vida a maravilha de vivermos como ressuscitados, unidos sempre ao Senhor, vencedor da morte e do pecado.

+ Nuno, Bispo do Funchal