Homilia Te Deum

TE DEUM FIM DE ANO
Sé do Funchal, 31 de dezembro de 2025
Proteção, favor e paz
1. Proteção, favor e paz: eis o que, como benção, o próprio Deus se propõe oferecer ao seu povo. Assim o diz a Moisés para que este encarregue Aarão, o sacerdote, de a todos abençoar: "O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos, e te conceda a paz" (Num 6,24-26).
Também nós, no final deste 2025, nos apresentamos diante do Senhor, agradecendo os seus favores ao longo do ano que termina, mas disponíveis para acolher a benção que Ele nos quer oferecer para o ano que amanhã inicia. E, sobretudo, disponíveis para aquilo que Ele nos quiser pedir ao longo do próximo ano.
Na verdade, as bênçãos que o Senhor nos oferece constituem igualmente responsabilidade para com o próximo: se somos abençoados é, também, para sermos fonte de benção para quantos nos cercam.
2. O Senhor oferece-nos a benção da sua proteção. Sabemos que essa benção não significa imunidade às dificuldades ou sofrimentos que nos surjam. As dificuldades e os sofrimentos são fruto da nossa condição de criaturas, limitados, finitos. Mas a benção do Senhor faz-nos viver todos esses momentos de forma diferente. Sabemos que Ele está connosco, ao nosso lado; sabemos que nada do que nos possa suceder deixa de ter sentido; a proteção divina ajuda-nos a retirar o bem e a salvação, mesmo daquilo que, à primeira vista, possa parecer uma derrota.
Mas a benção divina da proteção convida-nos igualmente a cuidar, a proteger o nosso próximo. Em particular aqueles mais abandonados e desprotegidos — mesmo aqueles que, por qualquer motivo, recusam as ofertas institucionais que estão ao seu dispor.
Proteger o próximo não significa substituir-nos a ele, com um paternalismo que lhe possa até ser prejudicial. Mas significa uma preocupação e uma atenção, uma disponibilidade para com todos quantos nos rodeiam.
3. O Senhor oferece-nos o seu favor. Que significa isso? "O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face". Ver a face divina; deixar que ela brilhe diante de nós: deixar-nos confrontar, olhar, perscrutar pelo rosto de Deus, deixar que todas as nossas atitudes sejam ditadas e iluminadas por este diálogo primeiro com Deus. Viver na presença de Deus, não como na presença dum ser distante e indiferente, mas como Moisés: "O Senhor falava com Moisés face a face como um homem fala com o seu vizinho", diz-nos o Livro do Êxodo (Ex 33,11).
Ter o favor divino significa poder tomar as decisões da nossa liberdade não à luz da moda ou do que parece bem aos homens, mas à luz de Deus, dos seus sentimentos e da lógica divina. Significa caminhar, progredir, ser mais, adquirir uma outra lógica de vida para além do simplesmente humano que nos limita. Significa ter como horizonte de vida a Presença de Deus e o seu amor infinito.
Mais do que nunca, o mundo contemporâneo procura colocar fronteiras à nossa lógica, às razões da nossa existência, aos critérios pelos quais nos conduzimos. A globalização, com todas as suas qualidades, trouxe também a uniformização do pensar, do agir, do sentir — lógicas humanas em que Deus não entra. Ter a benção do favor divino, viver na presença de Deus, significa ter a coragem de ultrapassar e mesmo enfrentar essas lógicas que a moda nos propõe, em favor de um pensar, sentir e viver na presença de Deus.
Significa ainda que o Senhor olha para nós com misericórdia. Apesar do nosso pecado merecer o castigo, Deus olha-nos com a benevolência paterna, é-nos favorável, está sempre pronto a acolher e a perdoar, esperando apenas que nos ergamos e nos apresentemos diante dele, conscientes do pecado e dispostos a mudar.
Mas o favor divino significa, igualmente, a missão de sermos presença de Deus, portadores da sua luz para quantos nos rodeiam. Significa a coragem de tornar Deus presente à nossa volta; significa, com humildade mas ousadia, ajudar outros a viverem também eles na presença divina. E significa sermos capazes de perdoar a quantos nos ofenderam, a quantos discordaram de nós, a quantos se nos opuseram.
4. "O Senhor volte para ti os seus olhos, e te conceda a paz". Nunca seremos suficiente gratos pela benção da paz. Viver em paz — viver num país, numa região, numa família onde reina a paz é uma benção que creio apenas seremos capazes de apreciar plenamente quando confrontados com o drama da guerra.
Longe de impedir o progresso, a paz é antes a sua condição. A guerra pode trazer consigo a descoberta de novos modos de subjugar o próximo, de o eliminar de um modo porventura mais refinado. Mas jamais trará consigo o progresso humano.
A guerra, qualquer que ela seja, constitui sempre uma derrota da humanidade e uma vergonha para todos. Por isso, agradecemos a Deus o dom da paz e comprometemo-nos a fazê-lo expandir, a semeá-lo à nossa volta.
Ao mesmo tempo, percebemo-nos solidários com todos os povos que vivem o drama da guerra. Com o povo da Ucrânia e com o povo russo; com o povo da Nigéria e de Moçambique, onde os cristãos são perseguidos violentamente; com o povo da Guiné Bissau, incapaz de encontrar estabilidade governativa; com o povo da Venezuela… e com tantos, tantos outros povos que passaram este Natal ao som ruidoso das armas.
Neste fim de ano, reconhecemo-nos infinitamente abençoados por Deus. Pedimos-Lhe que continue a habitar, a caminhar connosco ao longo do próximo ano. E comprometemo-nos a sermos, nós também, fonte de bênçãos, das suas bênçãos, para todos.
+ Nuno, Bispo do Funchal
