Homilia Quarta Feira de Cinzas

18-02-2026
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QUARTA FEIRA DE CINZAS

Sé do Funchal, 18 de fevereiro de 2026

Esmola, oração, jejum

1. A Páscoa da morte e ressurreição do Senhor é o centro não só do ano litúrgico como de toda a nossa vida de cristãos. De facto, cada um de nós mais não pretende que ser a presença de Cristo morto e ressuscitado, a dar a vida ao mundo.

Não espanta, por isso, que, desde os inícios do cristianismo, a festa da Páscoa tenha sido preparada. Em Jerusalém, muitos eram os peregrinos que, mesmo no meio de perseguições, para ali se dirigiam, procurando reviver os acontecimentos da salvação naqueles lugares, por entre as ruas e as casas que os tinham testemunhado.

Desse modo, as celebrações dos acontecimentos narrados pelos evangelhos e que ainda permaneciam na memória dos fiéis, foram sendo desenvolvidas: para além da celebração do domingo, Páscoa semanal, apareceu o ritmo anual das celebrações dos mistérios cristãos e, com ele, primeiro o tríduo pascal, depois a semana santa e, finalmente, a quaresma como hoje a encontramos.

Progressivamente, estas celebrações foram sendo vividas e espalhadas nas outras comunidades cristãs — e de pouco importa a distância de tempos e lugares: sabemos que a presença de Deus os ultrapassa e relativiza, para se manifestar como um "hoje" que nos envolve e dá vida.

Depois, um pouco por toda a parte do mundo cristão, em particular após a liberdade de Constantino, como preparação próxima daqueles que iriam ser batizados na Vigília Pascal, a Quaresma surgiu como necessidade e modo de ajudar a viver o batismo. Finalmente, todos os demais cristãos foram assumindo como peregrinação espiritual os quarenta dias de penitência que os separavam da Páscoa, procurando, por meio da sua vivência, reavivar a graça do batismo para poderem celebrar, de coração purificado, as festas pascais.

2. Três atitudes, propostas a todos os cristãos, caracterizam, desde o início, este tempo da Quaresma: a esmola, a oração e o jejum.

A esmola. Dar, partilhar, não guardar egoisticamente o que temos, não apenas porque "dar nos faz bem", nos liberta, mas, sobretudo, por causa da realidade do irmão que se encontra ali, bem ao lado, e que necessita da nossa ajuda. O mesmo é dizer: o hábito da esmola (na Quaresma ou em qualquer tempo) cria em nós a atitude de nos deixarmos interpelar pela realidade de quantos nos rodeiam e que, neste mundo cada vez mais egoísta, não possuem o necessário para viver. Partilhar a riqueza que nos sobra; partilhar a pobreza do que temos; partilhar até o que nos falta; partilhar, sobretudo, o que somos: todas essas atitudes alargam progressivamente o nosso coração, e fazem a diferença para aqueles que recebem a nossa partilha.

A oração. Deus quer precisar de nós. Certamente, Deus, criador e Senhor de tudo quanto existe, poderia ter concebido o mundo e cada um de nós de um modo diferente. Escolheu, na sua liberdade infinita, criá-lo deste modo que conhecemos. E quis que partilhássemos da Sua liberdade, quer dizer: da possibilidade de nos construirmos e de construirmos tudo o que se encontra à nossa volta como interlocutores do próprio amor divino. É isso a liberdade.

E é isso que, da nossa parte, exige a oração — quer dizer: o encontro com Deus, nosso criador e redentor, a resposta ao seu ato primeiro de amor. Oração que brota da nossa vida agradecida, provocada não raras vezes pelo sofrimento e pelos limites que vivemos e experimentamos, ou que é, simplesmente, expressão do maravilhamento que surge no nosso coração perante as expressões da grandeza e do amor divino de que nos vemos rodeados.

Oração pessoal, no segredo do nosso coração, na intimidade do quarto, dizia o evangelho que escutámos, ou oração litúrgica de Cristo no seu corpo que é a Igreja. Como quer que seja, resposta do que somos e vivemos, encontro, diálogo em que falamos de amizade por meio do movimento espontâneo do nosso coração ou procurando que este se faça expressão do sentir da Igreja. Resposta nossa, sempre devida àquele que é o Criador.

O jejum. Se a atitude de quem dá esmola é provocada pelo outro que está ao nosso lado; se a atitude orante é provocada pelo encontro com Deus; a atitude do jejum é provocada pelo encontro connosco mesmo. Jejuar faz-nos bem.

Todos já ouvimos falar do "jejum intermitente" e ninguém se escandaliza com ele. Contudo, muitos se escandalizam quando o jejum tem motivações de vida cristã. Mas o exercício do jejum é escolha daquele que deixa algo que lhe apetece como exercício da vontade animada pela fé.

Trata-se de nos exercitarmos no que toca à comida para nos tornarmos resilientes e sermos capazes de nos abstermos do pecado que nos oferece o pequeno e efémero prazer, para termos em vista o respeito pelo outro, por Deus, pela criação e por nós mesmos. Trata-se, afinal, de assumirmos que, na nossa vida, não somos conduzidos por aquilo que nos apetece mas por quanto percebemos ser nosso bem e bem para o mundo. A paixão e o prazer, o gosto e o bem-estar não constituem, afinal, o nosso objetivo de vida. Somos muito mais que isso; somos para muito mais que isso!

3. "Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles", intima-nos o Senhor Jesus. Sabemos como o mesmo Senhor, noutra passagem, mandou aos discípulos que fossem luz do mundo, "para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem o Pai que está nos Céus" (Mt 5,16).

É muito ténue a linha que separa estas duas atitudes: aquele que pratica o bem para ser elogiado pelos outros, e aquele que pratica o bem para que o Pai seja louvado pelos outros. É a intenção do coração — segredo que apenas Deus e o próprio conhecem — que faz a diferença. Mas como é enorme essa diferença!

"Já receberam a sua recompensa", diz Jesus daqueles que fazem boas obras para serem elogiados pelos homens. Também aqui, neste mundo de espetáculos e de aparências em que vivemos, necessitamos de jejuar. O louvor, a glória, hão-de apenas ser dirigidos ao Pai. É a Ele e a Ele somente que cabe dar a recompensa.

Como nos convida o Papa Leão XIV: "A Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano".

Cheios de confiança, comecemos este percurso de 40 dias até à Páscoa do Senhor, a Páscoa da Salvação!

+Nuno, Bispo do Funchal