Homilia Ordenações Sacerdotais

Ordenações sacerdotais
Sé do Funchal, 10 de janeiro de 2026
"Servidores da vocação dos cristãos"
1. As leituras que acabaram de ser proclamadas procuravam centrar o nosso coração nesse infinito mistério de piedade que é a encarnação do Verbo na nossa carne mortal. Jamais nos cansaremos de o meditar, tão central é o nascimento do Senhor para a nossa salvação e para a salvação do mundo inteiro.
Por seu lado, na IIª Leitura, S. Paulo chamava-nos a atenção para três aspectos da vocação cristã — consequências da encarnação do Verbo — que também eu gostaria aqui de sublinhar.
Iniciando a carta aos seus bem conhecidos cristãos de Éfeso, o Apóstolo recordava-lhes, em primeiro lugar, a vocação comum e própria de todos, a vocação baptismal; depois, pedia para eles um espírito de sabedoria e de revelação que os tornasse capazes de conhecer a Deus; finalmente, pedia para os efésios a "iluminação do coração" que os capacitasse a ter sempre diante de si a esperança a que tinham sido chamados, os tesouros de glória da herança que lhes fora preparada.
a) A vocação cristã. S. Paulo começa por sublinhar que a vida cristã é, em primeiro lugar, o fruto de uma escolha por parte de Deus, uma vocação. Vai mesmo mais longe: diz que todos os cristãos foram, antes da criação do mundo, predestinados para serem santos, irrepreensíveis na caridade, vivendo constantemente na presença de Deus. Deus quis-nos, pensou-nos, amou-nos desde toda a eternidade!
E o Apóstolo continuava, apontando para a medida mais alta, pois que a vida cristã é resposta àquele dom tão excelente. Com efeito, o cristianismo não iniciou com o possível; não começou com o pouco. O seu ponto de partida foi antes o máximo a que alguém pode, um dia, almejar: o seu início foi e é a santidade do Deus que se faz homem, que se faz carne. E essa santidade é também proposta a quantos vivem por Cristo, com Cristo e em Cristo. Por nós, jamais seríamos capazes de a viver; a ela jamais poderíamos, sequer, aspirar. Mas sabemos que o Espírito de santidade — que é o Espírito de Jesus — é capaz de fazer das pedras filhos de Abraão!
b) O conhecimento de Deus. Para tal conhecimento, diz S. Paulo, é necessário um espírito de sabedoria e de revelação. Conhecer a Deus não significa uma capacidade de O analisar de todos os ângulos, como um cientista conhece o objecto do seu estudo. Deus não é um objecto: é uma Pessoa. E, portanto, é Alguém que apenas se faz conhecer no encontro, no diálogo — precisamente: na revelação. E se todo e qualquer ser humano está sempre além do que possamos alguma vez saber dele, quanto não sucederá com a própria Pessoa de Deus que, por definição, é Alguém cujo conhecimento jamais esgotaremos — e, ao mesmo tempo, Alguém que sempre nos atrai, nos envolve e se nos oferece!
c) Os tesouros de glória da herança que nos está preparada. Ao ressuscitar e ao enviar o seu Espírito sobre os discípulos, Jesus abriu diante do mundo inteiro um novo horizonte de vida. Deus entregou-se aos seus. Ele é o maior tesouro a que alguém pode, alguma vez aspirar. Viver com Deus, viver na sua presença, não apenas por um fortuito momento de felicidade — já isso seria tanto! — mas para a eternidade: eis o tesouro que tudo merece; que torna os homens capazes de esquecer a própria vida.
Tudo isto, afinal, não passam de consequências desta realidade central da história da humanidade: há 2025 anos Deus fez-Se carne, fez Homem — mas consequências que são, também, o modo de conhecer e de expressar Deus hoje.
2. Eis, queridos ordinandos e queridos irmãos no sacerdócio, o resumo das vossas e das nossas tarefas pastorais. A missão central de um padre ou de um bispo outra não é senão a de ajudar aqueles que lhes são confiados a viverem plenamente esta vocação maior, dada pelo próprio Deus a cada cristão seu irmão, ajudando-o a retirar todas as consequências dos dons baptismais que recebeu.
Somos servos da vocação de cada cristão, procurando que a cada um, quem quer que ele seja, não falte nenhum dos dons da graça para poder chegar à santidade. É deste modo que servimos a Cristo e aos irmãos. Tudo o que fazemos e somos é por causa dos cristãos que nos estão confiados e da sua vocação primeira e definitiva à santidade.
Um padre não se pertence: pertence a Cristo e pertence aos irmãos. Como afirmava o próprio S. Paulo: "Embora livre em relação a todos, fiz-me servo de todos, para ganhar o maior número. Fiz-me judeu com os judeus, para ganhar os judeus; com os que estão sujeitos à Lei, comportei-me como se estivesse sujeito à Lei - embora não estivesse sob a Lei - para ganhar os que estão sujeitos à Lei; com os que vivem sem a Lei, fiz-me como um sem Lei - embora eu não viva sem a lei de Deus porque tenho a lei de Cristo - para ganhar os que vivem sem a Lei. Fiz-me fraco com os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo. E tudo faço por causa do Evangelho, para dele me tornar participante" (1Cor 9,19-23).
É para isso que, no momento da nossa ordenação, o próprio Senhor nos reveste dos dons sacramentais necessários para esta tão grande missão.
Caros ordinandos,
não tenhais nunca dúvidas a este respeito: Deus, que vos escolheu para serdes a sua presença no meio do seu povo e de toda a sociedade humana, jamais vos faltará.
Pedimos ao Senhor que, afastando de vós toda a tentação de orgulho e auto-suficiência — tentações em que facilmente podem cair aqueles para quem todos olham como referência da vida da fé — pedimos ao Senhor que abra as portas do vosso coração, e vos torne completamente disponíveis para os dons da sua graça e para o serviço da vocação dos cristãos.
+ Nuno, Bispo do Funchal
