Homilia no Pentecostes

DOMINGO DE PENTECOSTES

Sé do Funchal, 9 de Junho de 2019

"Ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus" (At 2,11)

1. A diversidade de línguas é um drama que marca, desde sempre, a humanidade. Certamente: as línguas são, também, expressão da riqueza e da pluralidade de culturas; mas são, sobretudo, reflexo de uma barreira que todos sentimos: não conseguimos comunicar entre os diferentes povos. Aqueles de nós que já fizemos a experiência de viver em terra estrangeira, sabemos como é difícil viver sem conseguir falar a língua daqueles que vivem ao nosso lado. E nós madeirenses percebemos tudo isso quando algum turista vem ter connosco e nos pede ajuda numa língua que não dominamos. Mas também nós, entre nós, ainda que partilhando a mesma língua, nos é tantas vezes difícil comunicar!

É o drama de Babel (Gen 11,1-9): o drama de uma humanidade que se quer tornar deus para si mesma, que quer chegar ao céu por si e com as suas forças, e que obtém como resultado a confusão, a desordem a todos os níveis.

Mas naquele dia de Pentecostes, aquilo que parecia ser o sinal de divisão foi ultrapassado.

2. No judaísmo, a festa de Pentecostes ou das Semanas (shavuot) celebra o início da época das colheitas. Nela eram consagrados a Deus os primeiros frutos do ano agrícola. E celebra-se também a entrega que Deus fez a Moisés dos 10 mandamentos, no Monte Sinai, 50 dias depois da saída do Egipto. O Pentecostes constitui, com a Páscoa (Pessach) e com a Festa das Cabanas (Sucot), celebrada em Setembro, uma das três festas de peregrinação a Jerusalém, a Cidade Santa.

Por isso, naquele dia estavam em Jerusalém judeus vindos do mundo inteiro então conhecido. S. Lucas, o autor dos Actos dos Apóstolos, enumera a sua proveniência: "Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene, colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes". Diríamos nós: uma autêntica Babel, uma confusão de proveniências e de línguas - o mundo inteiro ali presente.

Para o grupo apostólico, a festa de Pentecostes celebrada naquele ano singular da morte e da ressurreição do Senhor Jesus trouxe consigo uma mudança radical: de um grupo reunido pelo medo, o grupo apostólico tornou-se numa Assembleia, Igreja viva; de um grupo encerrado numa casa, tornou-se num grupo de Apóstolos, quer dizer: num grupo de enviados que saem da sua zona de conforto para darem a todos testemunho de Jesus, se necessário com o testemunho da própria vida entregue até ao fim; de um grupo destinado, quando muito, a recordar a memória passada do amigo morto e ressuscitado, tornou-se a Igreja que proclama que Jesus não é questão do passado mas do presente, de cada "presente" (de cada tempo, lugar e cultura): é a Igreja, o corpo dos cristãos, Corpo de Cristo, cheio do Espírito do Senhor, do sopro da sua vida divina.

E animados pela transformação do Espírito, aqueles pobres pescadores da Galileia, analfabetos e ignorantes, partem pelo mundo, empurrados pelo Espírito Santo, a anunciar que a morte foi vencida, e que em Jesus ressuscitado também nós podemos vencê-la. A força não é sua. Não é seu o princípio que os transformou: é de Deus, chama-se Espírito Santo.

Mas em que língua falavam estes pobres pescadores da Galileia, discípulos de Jesus ressuscitado? "Ouvimo-los proclamar nas nossas línguas as maravilhas de Deus" (At 2,11). O Espírito Santo faz dos cristãos um só povo. Não transforma os discípulos analfabetos em poliglotas, mas fá-los antes falar aquela língua que todos os homens e mulheres entendem: a língua da fé, a língua que dá sentido à vida de todos, a língua do Deus criador e redentor, que a todos quer salvar, que a todos quer dar a partilhar da sua vida.

Longe de dividir, a fé une. Longe de ser ocasião de divisão e de morte, a fé torna-nos um com Cristo e em Cristo, porque de Jesus ressuscitado aprendemos a linguagem do amor que a todos une.

Quem alguma vez teve a graça de participar numa Jornada Mundial da Juventude experimentou, certamente, este milagre. Jovens (milhões de jovens) vindos do mundo inteiro - de todas as línguas, continentes, culturas - que se reunem e passam a falar a mesma língua, a língua da fé.

3. Caros irmãos que ides ser crismados: hoje como naquele Pentecostes, esta é a língua que o mesmo Jesus ressuscitado vos dá a graça de poder falar. Não é sonho, nem é impossível viver no amor e do amor. Será impossível viver daquilo a que o ser humano chama amor (esse sim, divide, como aconteceu em Babel); mas não é impossível viver no amor e do amor, real e verdadeiro, viver do amor de Deus. Só o amor vence de verdade. Só ele convence de verdade. É o amor quem nos dá a ousadia, a coragem, a força para sairmos do nosso conforto e sermos anunciadores e presença dum mundo novo.

Deixando que em nós, na nossa vida, fale o amor de Deus, falamos, de facto, uma língua compreensível por todos. A confusão das línguas, a não comunicação pode ser ultrapassada. Foi ultrapassada. É ultrapassada, sempre que nos deixamos vencer e convencer pelo amor de Deus. Esta é a vossa missão. Esta é a única missão de cada cristão, a missão da Igreja.

+ Nuno, Bispo do Funchal