Homilia no Dia Mundial da Paz

01-01-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal

Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus

51º Dia Mundial da Paz - 1 de Janeiro 2018

Com Maria, anunciar e viver a Boa Nova da Paz!

Sob a luz que lhe advém da face do Senhor, a Igreja celebra a maternidade divina de Maria, a Santa Mãe de Deus, "resplandecente de beleza e santidade". Maria-Mãe intercede por nós, continuamente, diante de Deus; ela acompanha os seus filhos e filhas, apontando caminhos luminosos de esperança e de paz.

Desde o pontificado e por decisão do Papa Paulo VI, o primeiro dia do ano também ficou assinalado como "Dia Mundial da Paz": "O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz".

Neste primeiro dia de Janeiro, 51º Dia Mundial da Paz, estamos a iniciar o Ano Novo 2018, que colocamos nas mãos do Pai. Na disponibilidade da entrega da vida ao Senhor e aos outros, com profundo júbilo, juntamos os nossos cânticos de louvor aos dos anjos do céu, pedindo a paz para a Humanidade: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados" (Lc 2, 14).

À comunidade diocesana da Madeira e do Porto Santo, aos turistas que visitam a nossa terra, nesta quadra natalícia, faço votos de continuação de Boas Festas e Ano Novo abençoado na Alegria e na Paz.

Abençoados na Paz

Ainda em ambiência de Natal, a liturgia oferece-nos a luz, a bênção e a paz, que nos vêm do mistério admirável da Encarnação do Verbo.

O texto do Livro dos Números, na primeira leitura, preanuncia as bênçãos de 0Deus sobre o seu povo: "O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável" (Nm 6,24). A palavra "bênção", em hebraico, significa exaltar, agradecer, felicitar, saudar.No tempo da Nova Aliança, o Pai envia-nos o Filho, Ele mesmo, plenitude de bênção e de paz, para todos nós, como afirma S. Paulo aos Gálatas: "Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: «Abá! Pai!» (Gal 4). Esta bênção comunica luz e paz e significa integridade, prosperidade e vida realizada em plenitude.

Que grande graça! Somos filhos muito amados do Pai. Por isso, nunca estamos sós, apesar das dificuldades, sofrimentos e perseguições, porque Deus protege sempre os seus filhos e filhas. Ele chamou-nos das trevas para a sua luz admirável, como nos diz S. Pedro. Urge, portanto, como cristãos responsáveis, viver a graça do batismo, na escuta e fidelidade ao Espírito Santo, que foi derramado nos nossos corações.

A luz que brilha no presépio

No texto de S. Lucas, que escutamos resplandece a humildade, a obediência, a pobreza e o amor. São os sinais que identificam o Menino do presépio de Belém. "Os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura" (Lc 2,12).

Os pastores, apesar da sua ignorância, foram os primeiros evangelizadores. É a evangelização dos pobres pelos pobres. Eles apressaram-se a levar a Boa Nova da paz e da alegria aos outros, causando profunda admiração e júbilo, naqueles que os escutavam. Aqui nada é ostensivo, não há protagonismos. O mistério de Deus revela-se na pobreza, na simplicidade, no silêncio. O reino de Deus é despojado de todo o poder e revela-se aos pequeninos, aos pobres. Maria, porém, acolhia o admirável mistério do amor, no silêncio do seu Coração de Mãe, e permanecia em agradecida e jubilosa contemplação.

O evangelista S. Lucas diz-nos que, ao fim de oito dias, o Menino foi circuncidado e "deram-Lhe o nome de Jesus" (v. 21). O nome tinha uma grande importância na bíblia e revelava a própria identidade e missão da pessoa. A identidade e filiação divina de Jesus explicam a grandeza da sua missão salvadora: Ele é enviado pelo Pai, como nosso Salvador.

Mensageiros da Paz

Neste Dia Mundial da Paz, somos chamados a viver e a ser mensageiros da Paz. Desde sempre o ser humano sonhou com a paz: "Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro da paz" (Is 52,7). Todos os povos anseiam a paz e o equilíbrio harmónico entre pessoas e meio ambiente.

O Papa Francisco preocupado com a violência e as guerras, com as graves calamidades mundiais e suas tristes consequências, escreveu a tradicional mensagem para o Dia Mundial da Paz, com o tema "Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz". Sua santidade fez um pertinente pedido à comunidade internacional e aos chefes dos Governos, no sentido de tomarem atitudes concretas e fraternas, numa estratégia de "acolher, proteger, promover e integrar" esses irmãos e irmãs.

Numerosos têm sido os esforços das nações para defender a paz, com acordos e tratados internacionais. Conhecemos personagens notáveis a quem foram atribuídos o prémio Nobel da Paz. Na Igreja católica, lembro a Madre Teresa de Calcutá, bem conhecida como a santa dos pobres. Mas, cada um de nós, é chamado a ser instrumento de paz, na vida do dia-a-dia, na relação com os outros, a construir a paz nas famílias, na Igreja e nas nações.

Os construtores da paz, diz o Papa na sua mensagem, saberão "vislumbrar também a criatividade, a tenacidade e o espírito de sacrifício de inúmeras pessoas, famílias e comunidades que, em todas as partes do mundo, abrem a porta e o coração a migrantes e refugiados, inclusive onde não abundam os recursos". Lembrou também a figura incontornável de Santa Francisca Xavier Cabrini, que consagrou a sua vida ao serviço dos migrantes.

Sementes de Paz

Aos jovens cristãos, cheios de força e de esperança, que trazem no coração sonhos de fraternidade, de amor e paz, faço este pedido: anunciai o amor e a paz que os Anjos cantaram em Belém. Não se deixem dominar pela indiferença, nem pelo desencanto. Contagiem outros com a vossa alegria jovem, no vosso meio, na escola, no trabalho e na família. Por onde quer que passem lancem sementes de paz e de amor solidário.

Rezemos pela paz e testemunhemos, com a nossa vida, a paz que os Anjos proclamaram na noite de Natal. Que o abraço de Paz, nas nossas celebrações eucarísticas, não seja mais um rito vazio, mas um gesto consciente da presença do Príncipe da Paz, que nos convoca para a intimidade do seu amor, fonte de paz e de convivência fraterna.

A Jesus e à santa Mãe de Deus, Senhora da Paz, peço que o espírito do Natal, tecido de luz, ternura e paz, habite sempre o nosso coração, durante todos os dias do ano, que hoje começa. Como recomendava S. Francisco de Assis, "a Paz que anunciais com os lábios, conservai-a ainda mais abundante nos nossos corações".

Feliz e abençoado Ano Novo de Paz para todos, na reconciliação e na comunhão fraterna. De todo o coração vos desejo, recordando, em prece, a fórmula de bênção, escutada na primeira leitura: "O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz" (Nm 6,25-26).

Que o Senhor nos ilumine com a luz do seu Rosto e nos dê a sua Paz!

Santa Maria, Mãe de Deus e Rainha da Paz, rogai por nós!

Funchal, 1 de Janeiro 2018

†António Carrilho, Bispo do Funchal