Homilia no Dia da Região

01-07-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

no Dia da Região Autónoma da Madeira e Comunidades Madeirenses

Sé do Funchal, 01 de Julgo de 2018

Louvor e gratidão, nos 600 anos das ilhas do Arquipélago

Com grande alegria, aqui estou, a presidir à solene celebração eucarística deste Dia da Região Autónoma da Madeira e Comunidades Madeirenses. Convosco comungo da mesma ação de graças, pela bondade do Senhor manifestada a favor de cada um dos seus filhos e filhas, residentes e emigrantes. Como Bispo desta Igreja diocesana do Funchal, a todos saúdo afetuosamente e, para todos vós e vossas famílias, imploro as maiores bênçãos de Deus, nosso Pai.

A nova lei do Amor

A mensagem das leituras, que escutámos, converge para a beleza e dinamismo do amor de Deus, presente na história da humanidade. Somos convidados a abrir o coração à profundidade e grandeza da caridade divina, sempre presente na vida de cada um de nós e de toda a família humana, na diversidade das suas realidades.

Na rica simbologia do livro do Apocalipse, na primeira leitura, a nova Jerusalém, descida do céu, representa a Igreja, que surge como uma noiva bela, consagrada e banhada na luz de Deus, para estabelecer uma verdadeira aliança com a humanidade e renovar todas as coisas em Cristo: "Eis a morada de Deus com os homens. Deus habitará com os homens: eles serão o seu povo e o próprio Deus, no meio deles, será o seu Deus" (Ap 21, 3). É Deus que, em Cristo, renova todas as coisas e realiza, pelo Seu Espírito, a união da nova humanidade transformada.

São Paulo, na segunda leitura, sublinha o dever da comunhão convivial e fraterna, ao recordar aos cristãos de Corinto a obrigação de ajudarem os seus irmãos necessitados, os pobres, referindo e apelando para o testemunho da grande generosidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que deu a Sua vida por nós: "Nas circunstâncias presentes, aliviai com a vossa abundância a sua indigência para que, um dia, eles aliviem a vossa indigência com a sua abundância" (2ª Cor 8, 14). A Igreja, sacramento universal de salvação, reconhece a sublime vocação do homem e da mulher e aponta caminhos de convivência social pautados pela caridade de Cristo, pelo sentido da igualdade e fraternidade humana.

Permanecer no amor de Cristo

O texto do Evangelho de São João (15,9-17), por sua vez, coloca-nos no quadro da última ceia, como parte do discurso de despedida de Jesus, antes da sua morte. A chave de leitura do texto é "permanecer". O verdadeiro discípulo deve permanecer em Jesus, na Sua Palavra e no Seu Amor: "Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor". Uma relação íntima e plena com Jesus é fundamental para viver a entrega e o dinamismo da nova lei do amor: "É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei". (...) "O que vos mando é que vos ameis uns aos outros".

O amor há de ser, pois, a chave de todo o relacionamento e até o desenvolvimento humano, em ordem à construção da paz e da justiça, à defesa da criação e da verdadeira harmonia e concórdia entre os povos.

Ilhas Missionárias

Nos 600 anos de louvor e gratidão, que assinalam a descoberta das Ilhas do Porto Santo e da Madeira, em 1418 e 1419, respetivamente, fazemos memória agradecida das múltiplas bênçãos derramadas por Deus sobre o nosso povo, desde as origens desta Igreja particular.

De facto, na epopeia dos descobrimentos portugueses, no séc. XV, os navegadores lusos tinham como objetivo fundamental "dilatar a fé e o império". Nas expedições marítimas faziam-se acompanhar pelos frades franciscanos e Jesuítas "para fazer cristandade", como se dizia na época. Quando as naus de Zarco aportaram, na baía de Machico, no dia 2 de Julho de 1419, que à data era a festa da Visitação de Nossa Senhora à prima Santa Isabel, traziam a bordo dois franciscanos, que rezaram logo a primeira missa para "glória de Nosso Senhor". A Capela do Senhor dos Milagres é memorial deste notável evento religioso insular.

Procurando sair das contingências geográficas e dificuldades inerentes, o nosso povo madeirense lançou-se na aventura da emigração, levando consigo muitas das nossas tradições sociais, culturais e religiosas. Como cristãos, assumiram o seu compromisso batismal, na vivência da fé e no dinamismo evangelizador e missionário. Foram eles, e não apenas os sacerdotes e os religiosos, que ajudaram a abrir os horizontes da missão, levando o fulgor do Evangelho a outros povos. Ainda hoje permanecem bem vivas, nos nossos emigrantes, as tradições[MiS1] religiosas das festas, em especial dos padroeiros, e a grande devoção do Santíssimo Sacramento.

Rosto missionário da Igreja

Numa Igreja de forte tradição evangelizadora, como a nossa Diocese do Funchal, é importante recordar o desafio lançado, agora, a toda a Igreja pelo Papa Francisco, para se renovar e reforçar a consciência "do dever missionário", com a proposta de se celebrar um "Mês Missionário Extraordinário", em Outubro de 2019, para assinalar os cem anos da Carta Apostólica "Maximum Illud" do Papa Bento XV, de 30 de Novembro de 1919, sobre a atividade missionária da Igreja.

Todos os agentes pastorais são convidados a viver esse mês extraordinário, com o aprofundamento da fé no encontro com Jesus Cristo, na oração pessoal e comunitária, na Palavra e na Eucaristia. São convidados a intensificar a sua formação bíblica, catequética, espiritual e teológica sobre a missão; a exercer a caridade missionária, ajudando materialmente o trabalho de evangelização nas Igrejas mais carenciadas; a aprofundar o conhecimento do testemunho dos mártires e confessores da fé, nas diversas Igrejas do mundo.

E a Conferência Episcopal portuguesa, a fim de despertar novo entusiasmo pela missão, alargou a experiência proposta de um mês para um Ano Missionário, de Outubro 2018 a Outubro de 2019, publicando uma Nota Pastoral intitulada "Todos, tudo e Sempre em Missão". O apelo evangelizador é dirigido ao coração de todos os crentes: bispos, sacerdotes, diáconos, consagrados e consagradas, adultos, jovens, adolescentes, crianças. Para a Igreja, a família é o espaço privilegiado para o desenvolvimento dos verdadeiros valores de cidadania e da vivência de uma fé esclarecida e comprometida.

Os cristãos estão obrigados, em consciência e por exigência da própria fé, a serem cidadãos edificadores de um mundo novo, conhecendo os próprios deveres, direitos e responsabilidades sociais, e participando, com generoso empenho, no desenvolvimento de uma sociedade nova ao serviço do Homem integral.

É desejo do episcopado "que a missão universal ganhe corpo em todos os âmbitos da pastoral e da vida cristã, que nos animem a ter a coragem de alcançar todas as periferias, que precisam da luz do Evangelho". No entanto, para que a missão seja fecunda, num mundo que perdeu muito da sua identidade religiosa e se distancia da Igreja, em diversas circunstâncias e contextos, importa que cada batizado viva, com entusiasmo, a riqueza da sua fé e dê claro testemunho da alegria de ser cristão.

Com Maria, anunciar a alegria do Evangelho

Maria, Mãe de Jesus e Mãe da Igreja, é a grande missionária, que nos acompanha na difusão do Evangelho da alegria e da esperança. É tempo de sermos responsáveis pela graça do nosso batismo e alargar horizontes de evangelização, como nos recomenda o Concílio Vaticano II: "cada uma das Igrejas leva em si a solicitude por todas as outras". Não podemos pensar apenas "em benefício de uma diocese, mas na salvação de todo o mundo".

Os cristãos devem, pois, conjugar esforços para a difusão e anúncio do Evangelho, a realizar numa ação conjunta dos diversos serviços pastorais, com a necessária atenção às novas realidades e num dinamismo missionário criativo, a imprimir em toda a atividade diocesana. Que a beleza e a luz do Evangelho possam chegar às múltiplas periferias geográficas e existenciais, como tantas vezes o Papa Francisco tem recomendado, em especial na Exortação Apostólica "A Alegria do Evangelho".

Irmãos, para cada um de nós, celebrar o Dia da Região e das Comunidades Madeirenses é, assim, sentir-se chamado a dar o seu melhor, em todos os campos da vida eclesial, social, económica, política e cultural, para que a sociedade de hoje e do amanhã seja a expressão do trabalho, dedicação e generosidade de todos.

À Senhora do Monte, nossa Padroeira, pedimos que continue a abençoar e a conduzir, pelos caminhos da esperança, os destinos desta Região Autónoma. Que todos vivam em paz e fraternidade, empenhados no desenvolvimento global e na construção do bem comum.

Santa Mãe de Deus, Senhora do Monte, nossa padroeira, rogai por nós!

Funchal, 1 de Julho de 2018

†António Carrilho, Bispo do Funchal