Homilia na Quarta-feira de Cinzas

15-02-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Missa de Quarta-feira de Cinzas

Sé do Funchal, 14 de Fevereiro 2018

É este o tempo favorável, despertar é o caminho!

Com a luz do Espírito Santo e em perspetiva do mistério pascal, iniciamos hoje, quarta-feira de cinzas, o tempo da Quaresma. Como nos diz a liturgia, "é este o tempo favorável, é este o dia da salvação" (2 Cor 6,2),

A Quaresma é uma caminhada espiritual de quarenta dias, que a Igreja nos propõe, para prepararmos dignamente a Páscoa do Senhor. Tempo de conversão, de graça, de silenciosa escuta da Palavra e de mudança de vida, em ordem a uma verdadeira purificação interior do pecado e luta contra todo o mal.

Durante o percurso quaresmal, feito de renúncia a favor dos mais desfavorecidos e animados pelo amor de Deus, que nos envia ao encontro dos outros, sabemos que não estamos sós, porque "a alegria do Senhor é a nossa fortaleza".

A simbologia das cinzas

A simbologia das cinzas, que nos são colocadas na cabeça, recorda-nos a fragilidade humana e a finitude dos bens temporais. Este sinal exterior de penitência e de humildade é também o convite a contemplar o horizonte aberto do infinito de Deus, para além do tempo presente.

Chamados para o encontro de plenitude com o Pai, não podemos continuar distraídos, perante as realidades e tentações, que nos desviam do essencial. Colocar-se cada um em clima de deserto, de silêncio e de paz, faz-nos saborear a beleza e a bondade divinas que nos habitam.

Esta caminhada, porém, não deve confinar-se ao tempo quaresmal, mas há de permanecer ao longo de toda a nossa vida, frente ao mistério da eternidade de Deus. Romano Guardini, notável teólogo e filósofo italiano, afirma: "A nossa vida inteira deveria ser vizinha da eternidade. Deveria haver sempre em nós o recolhimento, que se abre ao Eterno e está atento a quanto nos diz. Mas a vida é tão buliçosa, que não deixa ouvir a voz da eternidade". Despertar é o caminho!

A alegria da conversão

A liturgia da Palavra convida-nos a uma constante mudança de vida e indica-nos o caminho da verdadeira conversão.

Na primeira leitura escutámos o profeta Joel, que nos lança fortes apelos à conversão sincera e profunda, marcados pelo sentido da compaixão e misericórdia de Deus: "Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes, convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e rico em misericórdia" (Joel 2,13). Todos somos envolvidos pelo amor compassivo do Senhor, em ordem a uma autêntica purificação e renovação de vida.

S. Paulo, na 2ª carta aos Coríntios, desarma-nos e coloca-nos diante do mistério da loucura do amor de Cristo, Redentor da humanidade. "Feito pecado" por amor de nós, entregou a vida e aceitou a morte de Cruz. "Ele amou-me e entregou-Se por mim", recorda-nos o Apóstolo. Ninguém Lhe tira a vida, é Ele quem a dá, amando e ensinando a amar.

A força transformadora do Amor

No percurso quaresmal, somos transformados interiormente pela força do amor de Deus e caminhamos confiantes ao encontro do Senhor Ressuscitado.

O texto de S. Mateus, que escutámos no Evangelho, faz parte do Sermão da Montanha. Jesus apresenta-nos o caminho da mudança radical e autêntica, o verdadeiro espírito que há de animar os seus discípulos: "Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus" (Mt 6,1).

A ostentação e a vaidade desfiguram as boas obras. Jesus convida a viver em intimidade com o Pai na prática da penitência: esmola, oração, jejum. São estes, aliás, os "remédios" tradicionais e que o Papa Francisco indica à Igreja, na Mensagem para esta Quaresma, convidando os seus membros a empreender com ardor o caminho quaresmal, apoiados na esmola, no jejum e na oração".

Quanto à esmola, trata-se de cada um partilhar os seus dons materiais e espirituais com aqueles que necessitam, como gestos de amor solidário e de misericórdia para com os mais pobres, doentes e frágeis. O protagonismo, o querer dar nas vistas ao praticar as boas obras é um farisaísmo que Jesus condena. "Cada esmola é uma ocasião de tomar parte na Providência de Deus para com os seus filhos; e, se hoje Ele Se serve de mim para ajudar um irmão, como deixará amanhã de prover também às minhas necessidades, Ele que nunca Se deixa vencer em generosidade?"

Sobre a oração, sabemos que,no Antigo testamento, os judeus piedosos rezavam três vezes ao dia e, muitas vezes, até com a preocupação de dar nas vistas, ganhar prestígio e apreço dos demais. No tempo da Nova Aliança, a oração aponta para uma relação íntima e profunda com o Pai: "entra no teu quarto e fecha a porta", entrana intimidade do teu coração, diz Jesus, expressando a proximidade e a confiança com que os filhos de Deus se devem relacionar com o Pai. Na oração do Pai Nosso, Jesus ensina-nos o segredo da verdadeira oração filial, como Ele fazia. O Papa lembra que, "dedicando mais tempo à oração, possibilitamos ao nosso coração descobrir as mentiras secretas, com que nos enganamos a nós mesmos, para procurar finalmente a consolação em Deus".

Nas nossas comunidades paroquiais e religiosas, uma oração tradicional própria das sextas-feiras da Quaresma, é fazer a "Via-Sacra". Acompanhar Jesus em contemplação até à Cruz ajuda-nos, sem dúvida, a aprofundar o mistério de Cristo, que Se entregou à morte por nosso amor.

Quanto aojejum,constaque os judeus jejuavam e Jesus também jejuou. O jejum, porém, não pode ser interpretado apenas sob o ponto de vista de renúncia aos alimentos, e domínio sobre nós mesmos, mas também como abstenção de vícios e pecados. O Papa Francisco afirma que "o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento". Por isso propôs o próximo dia 23 de Fevereiro, primeira sexta-feira da quaresma, para uma Jornada Mundial de oração e de jejum pela Paz no mundo.

Domingo da Palavra

Fonte inspiradora da nossa oração e de toda a vida cristã é a Palavra de Deus, que sempre há-de merecer a nossa maior atenção. Foi neste sentido que o Papa Francisco no termo do Ano da Misericórdia, na Carta Apostólica Misericordia et Misera, lançou a proposta de se estabelecer, em cada Diocese, um Domingo do Ano litúrgico especialmente dedicado à Palavra de Deus, "em prol da difusão, conhecimento e aprofundamento da Sagrada Escritura". É o Domingo da Palavra, que para a nossa Diocese, de acordo com o parecer do Conselho Presbiteral, será o I Domingo da Quaresma; neste ano, o próximo Domingo.

Como é importante a Palavra de Deus na nossa vida cristã! Assim dizia o Papa na Audiência Geral do passado dia 31 de janeiro: "A Palavra de Deus faz um caminho dentro de nós. Escutamos com os ouvidos, passa pelo coração, não permanece nos ouvidos, deve ir ao coração e do coração passa às mãos, às boas obras. Este é o percurso que faz a Palavra de Deus: dos ouvidos ao coração e às mãos. Aprendamos estas coisas".

Renúncia Quaresmal 2018

Que este tempo quaresmal fique marcado pela alegria da renúncia interior e exterior a todo o mal, para irmos ao encontro dos que sofrem, dos que têm fome e sede de alimentos ou de amor, que precisam de uma palavra de conforto, de coragem e de esperança.

Auscultando algumas instâncias da Diocese, a nossa renúncia quaresmal deste ano será destinada, em partes iguais, para o Fundo Social Diocesano, cujos objetivos são bem conhecidos, e também, aderindo-se à proposta da Fundação Ajuda a Igreja que Sofre (AIS), que está a celebrar o seu septuagésimo aniversário, para um projeto de apoio à edificação e restauro das casas saqueadas aos cristãos perseguidos no Iraque. É o projeto "Iraque, o regresso às raízes", considerado importante e até fundamental para a manutenção da comunidade cristã, na região bíblica da Planície de Nínive e Mossul, donde tiveram de fugir cerca de 95 mil cristãos, em especial por ocasião do chamado holocausto de agosto de 2014.

«Os cristãos do Iraque não renunciaram à sua fé e com a nossa ajuda querem regressar às suas casas! Mas é preciso, antes de tudo o mais, restaurar as casas que foram danificadas ou mesmo completamente destruídas» - é o apelo que nos deixa a Fundação AIS.

As ofertas desta renúncia quaresmal serão recolhidas em todas as igrejas e capelas, conforme é costume, nos ofertórios das missas de Sábado e Domingo de Ramos, ou seja, nos próximos dias 24 e 25 de Março. Como sempre a participação é muito livre, segundo as possibilidades e a consciência pessoal dos fiéis, na certeza de que Deus não deixará sem recompensa qualquer gesto de atenção e partilha fraterna.

Com Maria, junto à Cruz

Na vigília Pascal acenderemos o círio, símbolo da vida nova no Senhor Ressuscitado. Que a nossa vida seja um testemunho da Luz de Cristo, que ilumina os de perto e os de longe e dissipa as trevas da noite e do pecado. Pedimos à Mãe de Jesus, Senhora da Piedade, a primeira a fazer a Via-Sacra, caminhando com seu Filho até ao Calvário, nos ajude a permanecer humildes, vigilantes e silenciosos, junto à Cruz, para aprendermos, como ela, o mistério do amor e da entrega generosa da vida.

Funchal, 14 de Fevereiro de 2018

†António Carrilho, Bispo do Funchal