Homilia na Festa do Corpo de Deus

SOLENIDADE DO CORPO DE DEUS

Sé do Funchal, 11 de Junho de 2020 (A)

"Recorda-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer durante quarenta anos no deserto. [...] Atribulou-te e fez-te passar fome, mas deu-te a comer o maná [...], para te fazer compreender que o homem não vive só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor" (Dt 8,2.3).

1. Moisés falava ao povo de Israel, prestes a entrar na Terra Prometida. Tinha consciência de que não iria entrar na Terra, mas quis deixar ao povo que se preparava para abandonar definitivamente o deserto, as últimas recomendações, que hoje constituem o Livro do Deuteronómio. Podemos resumi-las deste modo: olhando para a tua história, para os acontecimentos da tua vida, reconhece, Israel, que foi Deus e não tu quem construiu e conquistou: tudo é graça; tudo é dom de Deus, ainda que seja também resultado do teu trabalho. Por isso, sê fiel a Deus e à sua Aliança.

Ou, como já anteriormente tinha afirmado: "Quando o Senhor, teu Deus, te fizer entrar na terra que prometeu a teus pais (Abraão, Isaac e Jacob), nas cidades grandes e boas que não edificaste, nas casas cheias de tudo o que é bom - casas que não encheste; poços abertos que não cavaste; vinhas e olivais que não plantaste [...], não te esqueças do Senhor, que te fez sair da terra do Egipto, da casa da escravidão" (Dt 6,10-12).

2. A fome de Deus é algo que marca todo e qualquer ser humano. É o motor da história. É, afinal, a marca de que todos fomos criados por Deus. Todo o ser humano tem fome de infinito. Todo o ser humano percebe dentro de si um irreprimível desejo de eternidade, uma vontade de ver a Deus, de contemplar o seu rosto. Pobre do homem que não sentir essa fome: reduz-se a si mesmo ao presente; torna-se incapaz de olhar mais longe que o momento que passa.

Mas, a Israel, Deus tinha concedido algo mais que a fome. A Israel, o Senhor tinha-se mostrado, tinha-se revelado nos acontecimentos da história: na escravidão do Egipto, Deus tinha agido para libertar o povo da opressão; diante do Mar Vermelho, com o exército do Faraó em sua perseguição, Deus tinha aberto um caminho através das águas; no deserto, "feriu o rochedo, as águas correm e as torrentes transbordam" (Sl 78,20); "ordenou às nuvens do alto e abriu as portas do céu; para os alimentar fez chover o maná, deu-lhes o pão do céu" (Sl 78,24); "sobre eles fez chover carne como pó, aves numerosas como areia do mar" (Sl 78,27) - recorda o Salmo 78.

A fome de Deus que Israel foi aprendendo no deserto - nessa terra do nada ("imenso e temível deserto, entre serpentes venenosas e escorpiões, terreno árido e sem águas") - a fome que Israel foi aprendendo durante os 40 longos anos de deserto e a que agora era convidado consiste no convite a perceber que, no presente, a acção divina retoma, sempre com maior vigor, as maravilhas realizadas nos tempos passados. Como afirmaria mais tarde o Profeta Jeremias: "Eis que dias virão - oráculo do Senhor - em que já não se dirá: 'Vive o Senhor [é um Deus vivo, Aquele], que fez subir os israelitas da terra do Egipto! Mas sim: 'Vive o Senhor [é um Deus vivo Aquele] que fez subir os israelitas da terra do norte e de todas as regiões, para onde os tinha dispersado" (Jer 16,14-15).

Em viver hoje as maravilhas que Deus realiza por nós e que abrem diante de nós um horizonte de vida - e de vida eterna - eis em que consiste viver da "palavra que sai da boca de Deus". E dessas maravilhas continuamos, também nós, hoje, a ter fome. E Deus continua, hoje, a saciar-nos.

3. Mas para nós, cristãos, o próprio Deus tomou a iniciativa de ir ainda mais longe: "Tomai e comei, isto é o meu Corpo... Tomai e bebei, este é o Cálice do meu Sangue. Fazei-o em memorial de mim". A Eucaristia, a presença do Senhor ressuscitado em nós e no nosso meio, torna Jesus presente no hoje da nossa vida, e torna-nos presentes a Jesus. Para Deus não existem barreiras do tempo e do espaço. Ele mostra-se, hoje, presente. Deus mostra-se, hoje, acontecimento da nossa história, da nossa vida.

Por isso, o cristão não é alguém que vive no passado. O cristão é alguém que vive no presente, sem recusar nenhum dos seus desafios e sem fechar os olhos a qualquer das suas oportunidades - o cristão é alguém que percebe o presente à luz do agir de Deus: o Senhor que salvou no tempo passado, continua hoje a agir, a iluminar e a rasgar, diante de nós, horizontes de vida eterna. O mesmo é dizer: a salvar.

É por isso que a Eucaristia é central nas nossas vidas de cristãos. Não se trata, simplesmente, da recordação vaga de uma última ceia, qual grupo de amigos que se reúnem para recordar, saudosos, alguém que morreu. Nem se trata (muito menos!) de uma simples refeição ritual, como acontece quando nos reunimos com a família para uma festa de anos ou para comemorar uma qualquer data importante.

A Eucaristia será tudo isso; mas é muitíssimo mais que isso. É o hoje de Deus que entra assim, de modo visível, nas nossas vidas, e que, insistentemente, nos oferece um novo vigor, nos impede de ficarmos parados, e nos dá um horizonte de vida eterna.

Diante dos nossos olhos, o próprio Deus se faz presente na nossa vida e na vida de quantos participam na celebração, para continuar presente no meio do mundo e connosco, abrindo-nos os horizontes - porque é diferente viver apenas para o momento, ou viver olhando o futuro e, mais ainda, olhando e saboreando já a vida eterna.

4. Como o povo de Israel, estamos, também nós, a sair de um deserto. Meses atrás, de um momento para o outro, a nossa cidade ficou deserta; muitas das actividades económicas pararam; as igrejas ficaram vazias; o próximo passou a ser alguém que nos poderia contagiar. Agora procuramos retomar a nossa vida nesta Ilha que o Senhor nos ofereceu.

Por isso, deixai que, em nome de Deus, ouse, também eu, fazer-vos três advertências: no tempo da prosperidade, não te esqueças de Deus; percebe que hoje Ele te oferece a salvação; cuida do teu próximo.

Como o povo de Israel, também nós nos esquecemos facilmente de Deus no tempo da prosperidade. Também deixamos de rezar. Também deixamos de alimentar a fé com o Pão do Céu. Também julgamos que, afinal, tudo foi obra das nossas mãos e do nosso saber. No tempo da prosperidade como naquele de sofrimento, não te esqueças de Deus que te salva.

Hoje, vive com Deus, deixa que Ele viva contigo. Vive, trabalha, transforma o mundo não à tua imagem mas à imagem de Deus. Deixa que Ele seja a luz que orienta os teus passos. Deixa que a meta que procuras atingir seja a eternidade (e não te contentes com outra). Deixa-te transformar por este Deus que te ama e que apenas pede que O ames, tu também. Deixa que Ele te ofereça a salvação.

Cuida do teu próximo. Não olhes apenas para ti e para o teu bem-estar. Olha por aquele que está aí, bem perto, que não tem pão para se alimentar ou para alimentar a sua família; que não tem sentido para a sua vida; que olha apenas para o momento presente. Cuida dele. Dá-lhe de comer; mostra-lhe que o ser humano não foi apenas criado para o dia de hoje mas traz antes consigo uma vocação de vida eterna.

Não são estas tarefas ou atitudes impossíveis ou ideais. São apenas o resultado normal de aceitarmos, na nossa vida, a companhia, a presença, daquele Jesus que nos continua a dizer: "Eu sou o Pão vivo descido do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente"!

+ Nuno, Bispo do Funchal