Homilia Missa da Ceia da Senhor

QUINTA-FEIRA SANTA
Missa da Ceia do Senhor
Sé do Funchal, 2 de Abril de 2026
A decisão do Amor "até ao fim"
1. "Ele que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim". A celebração que agora nos é dado viver, bem a podíamos chamar a "celebração do amor até ao fim".
Sabemos como os estudiosos da Sagrada Escritura se interrogam sobre o que significa este "amou-os até ao fim" (eis telos égapésen autou). Com efeito, ele pode significar "até ao final da sua vida", afirmando que toda a existência de Jesus foi conduzida pelo amor aos seus discípulos que estavam no mundo e que, por isso, também a sua morte é obra de amor — obra de um amor que não cansa nem se cansa, poderíamos nós dizer; obra de um amor que, mesmo abandonado pelos seus, sem qualquer retribuição humana, persiste em ir até ao fim da sua existência; obra do amor que está seguro de vencer a morte e que, por isso, não desiste, mesmo quando é vítima da maior injustiça.
Mas "até ao fim" pode, igualmente, significar "até ao maior grau em que é pensável viver o amor"; até ao grau mais alto do amor. Em Jesus descobrimos o "amor maior" — aquele amor que, por isso mesmo, servirá doravante de ponto de referência para todo o amor humano. Porque sendo amor do Homem verdadeiro é, também, amor do Deus verdadeiro.
2. Como quer que seja — e as duas acepções podem ser consideradas em conjunto porque, de facto, não se contradizem — aquela afirmação de S. João ("amou-os até ao fim") apresenta o amor como a categoria de interpretação de toda a Paixão do Senhor. Ali, nos acontecimentos da Paixão, encontramos o amor vivido, o amor testemunhado, o amor que salva.
"Amor até ao fim" é, portanto, a Última Ceia, com o gesto quase sacramental do Lava-pés e a instituição do sacramento eucarístico; amor até ao fim são as palavras que Jesus dirige aos seus no Getsémani, como testamento, discurso de despedida; amor até ao fim são todos os sofrimentos destes dias: os escárnios, os açoites, aquela coroa de espinhos; amor até ao fim é o perdão de Pedro e da sua traição; amor até ao fim é o caminho para a cruz por entre a multidão que vive, sem disso estar consciente, o momento central da história do universo; amor até ao fim são os sofrimentos do Crucificado, a entrega do discípulo a sua mãe e a entrega da mãe ao discípulo; amor até ao fim é a "entrega do Espírito" ao Pai e aos homens; amor até ao fim é a própria morte e a ressurreição gloriosa.
Todos esses momentos finais da sua existência terrena são vividos por Jesus no amor e por amor — e, mostrando desse modo em que consiste o amor, são vividos para nos dar a possibilidade de, também nós (existências marcadas pelo desamor), aprendermos com Ele a amar e a tomarmos a decisão do amor, do amor até ao fim. Jesus não nos dá uma definição de amor; não o descreve como um professor ensina o aluno; Ele ama de um modo radical, incondicional e final. E isso basta.
Na verdade, em Jesus o amor está na raiz de todo o seu ser. Jamais surpreendemos em Jesus qualquer atitude que não encontre a sua razão de ser no amor. Nele, tudo é obediência ao Pai, acolhimento filial da sua vontade, disponibilidade para o pôr em prática. Porque "Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito" (Jo 3,16). Tudo em Jesus é esquecimento de si; tudo nele é motivado pela salvação daqueles que encontra no seu caminho, a quem se dirige ou que o procuram.
Em Jesus, o amor não coloca quaisquer condições. Jesus não faz depender as suas atitudes da correspondência dos discípulos ou do amor das multidões. Em Jesus não existem "ses" nem "mas". Jesus toma a iniciativa de amar todos quantos vê, mesmo aqueles que não se encontram ali presentes mas para quem é pedida a salvação; Jesus ama simplesmente, e o seu amor transborda, vence, transforma quantos o acolhem.
Em Jesus, o amor é princípio e fim. Esse modo de viver não é um simples meio, um instrumento para obter a realização de um desejo, para chegar a um objectivo. É, se quisermos, "o caminho, a verdade e a vida": o amor é o ambiente que Jesus respira, aquilo que O anima; o dinamismo transformador e salvador da humanidade, da história. Em Jesus, o amor liberta porque é radicalmente livre. Por isso, o mandamento novo que o Senhor deixou aos seus consiste simplesmente no amor: no amor a Deus e no amor ao próximo.
É o amor que se manifesta na cruz, até ao final, o "amor maior" ("Ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos seus amigos"). Jesus dá a sua vida na cruz ("Ninguém me tira a vida; sou eu que a dou livremente"). A sua morte de cruz não é uma fatalidade a ser evitada a todo o custo; é uma decisão de amor, livre, um querer amar sempre, sem desfalecer, na certeza da vitória do amor. Por isso é uma decisão abraçada com amor: como poderia Deus dar a vida ao homem se não sofresse a morte, a consequência maior do pecado? Só desse modo a vida divina poderia ser oferecida ao homem mortal e a morte poderia ser derrotada, transformada em vida. Esse é o amor maior, aquele que está para além de quanto poderíamos nós pensar, imaginar e (muito menos) desejar ou exigir, reivindicar como salário, pagamento de qualquer mérito: como poderia alguém exigir que Deus morresse em seu nome, por si?
3. Apenas algo poderia ser pensado de maior que este acontecimento da Paixão, em que Deus manifesta o seu amor por cada um de nós e por todos: que esse amor permanecesse até ao fim dos tempos, como presença, atitude, decisão eficaz de alimentar, de dar a vida ao mundo inteiro — mostrando, desse modo, que "amor até ao fim" é, também, o amor com que ali, naquele momento da cruz, Jesus assume e faz seus os sofrimentos, as dores, a morte de toda a humanidade desde o seu início ao seu final. E mesmo esse "maior" acima do qual nada mais pode ser pensado (e que, por isso, traz consigo o sinal divino), mesmo esse maior Ele no-lo dispensa como Pão partido, Eucaristia, alimento.
De verdade, que é a Eucaristia, o sacramento instituído pelo Senhor antes de padecer, para que a sua morte fosse entendida não como derrota mas como alimento, libertação, doação, entrega até ao fim que resume em si o mundo, o cosmo, a história; que é a Eucaristia senão este mesmo amor, tornado concreto, visível, saboreável, amável?
"Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim". Deixemo-nos, irmãos, vencer, alimentar, conduzir pela Eucaristia, presença do Senhor no meio de nós, para que derrotando o nosso pecado com o amor que Ele nos oferece e ensina, também nós nos deixemos transformar, converter, vivificar, alimentar por Ele.
+ Nuno, Bispo do Funchal
