Homilia Missa Crismal'26

02-04-2026

QUINTA FEIRA SANTA — MISSA CRISMAL

Sé do Funchal, 02 de Abril de 2026

1. "Cumpriu-se hoje mesmo a passagem da Escritura que acabais de ouvir": com esta afirmação, Jesus apresenta-se aos seus conterrâneos — eles que o conheciam desde a infância, mas que se mostraram incapazes de O reconhecer como Messias.

Jesus apresenta-se clara e definitivamente, para que O possam reconhecer como Aquele sobre quem repousa o Espírito Santo. Apresenta-se para que também os seus possam entrar no dinamismo da Nova Aliança. É assim a misericórdia do Senhor: vem ao nosso encontro, revela-se, propondo-se à nossa liberdade para que esta se decida a entrar no caminho da salvação.

Não é apenas a passagem de Isaías, acabada de ser proclamada, que se cumpre em Jesus: nele, é toda a Escritura que plenamente se realiza (Mt 5,17). Jesus é Aquele de quem todo o Antigo Testamento fala, a quem a Antiga Aliança aguarda "mais que a sentinela espera pela aurora" (Sl 130,6); Aquele que, agora, na "plenitude dos tempos", o próprio Pai atesta e apresenta como salvador e redentor.

Não é nunca demais olhar para Jesus. Não é nunca demais contemplar nele a realização da Promessa, a sobreabundância do Espírito, a presença da glória divina, ainda que resplandecendo na humilhação e concretude da carne humana. E nunca é demais procurar em Jesus o centro do nosso viver e, ao mesmo tempo, a meta do nosso peregrinar. Afinal, a vida cristã mais não é que procuramos reconhecer-nos, identificarmo-nos cada vez mais com Ele.

2. Foi o próprio Senhor quem ensinou os seus discípulos a entender-se desse modo, como um prolongamento da missão que Ele tinha recebido do Pai: "Quem vos escuta é a mim que escuta, e quem vos rejeita é a mim que rejeita; mas quem me rejeita, rejeita Aquele que me enviou" (Lc 10,16). Por isso, a Igreja tem consciência de que o seu tempo não tem outra verdadeira novidade que não aquela única e autêntica notícia que é Jesus, o Deus feito homem.

Da Galileia e da Judeia, a Igreja espalhou-se pelo mundo. Hoje está presente em todos os continentes; ultrapassou séculos, crises, vicissitudes. Apesar de constituída por pecadores, foi sempre capaz de acolher e expressar a santidade daquele que é a sua cabeça e razão de ser, não tanto por causa das suas capacidades mas por causa do Espírito Santo que a habita e que nela encontra a sua morada. Por isso, o Evangelho que a Igreja proclama é o Evangelho de Jesus; o anúncio que ela realiza hoje, ainda que através de diferentes instrumentos, é o mesmo que o da Igreja dos tempos apostólicos; a fé acreditada e proclamada hoje é a mesma que os Apóstolos ensinaram tal como receberam do Senhor: cresceu em aprofundamento, em consciência, em maturidade, mas é a mesma fé apostólica.

O cumprimento das Escrituras que admiramos em Jesus continua hoje no seu Corpo que é a Igreja. E desse cumprimento — desse "hoje divino" — devemos todos nós, Igreja funchalense, tomar também consciência. E, com ele, nos devemos igualmente maravilhar. Em nós e por nosso intermédio, instrumentos insuficientes e fracos, se realiza, no nosso tempo, o admirável mistério da salvação.

Nisto mesmo, aliás, consiste a liturgia da Igreja: mergulhar em cada dia no acontecimento da salvação, deixar que ele inunde os tempos e os lugares, as vidas, de forma a que todos se encham com a graça divina: graça a oferecer-se, a jorrar, a transbordar a partir daquele acontecimento único que é o próprio Jesus.

3. Como Igreja que peregrina nestas Ilhas do Atlântico, maravilhamo-nos por percebermos Deus a actuar hoje na nossa história, na vida concreta das nossas comunidades, das nossas famílias, dos nossos cristãos. Mas, como sacerdotes, ficamos ainda mais surpreendidos, ao percebermos como esse hoje divino nos tem a nós por instrumentos.

Escrevendo ao presbitério de Madrid, o Papa Leão, começava por reconhecer que, nos nossos dias, "o Evangelho encontra não apenas indiferença, mas também um panorama cultural diferente, no qual as palavras já não carregam o mesmo significado e onde a proclamação inicial já não pode ser tomada como certa". Mas logo acrescentava: "Contudo, esta descrição não capta na totalidade o que realmente está a acontecer. Estou convencido — e sei que muitos de vocês percebem isso no exercício diário do vosso ministério — que uma nova inquietação está a agitar o coração de muitas pessoas, especialmente dos jovens".

E logo o Santo Padre apresentava aos sacerdotes madrilenos o modelo de padre para este nosso tempo: "Certamente — dizia ele — não homens definidos por uma multidão de tarefas ou pela pressão de resultados, mas homens configurados a Cristo, capazes de sustentar o seu ministério por meio de uma relação viva com Ele, alimentada pela Eucaristia e expressa numa caridade pastoral marcada pela doação sincera de si. Não se trata de inventar novos modelos ou redefinir a identidade que recebemos, mas de repropôr, com renovada intensidade, o sacerdócio na sua essência mais autêntica — ser alter Christus — permitindo que Ele molde as nossas vidas, una os nossos corações e dê forma a um ministério vivido a partir da intimidade com Deus, da dedicação fiel à Igreja e do serviço concreto ao povo que nos foi confiado".

Ser e viver como "outro Cristo", com tudo o que isso implica: eis o que torna apaixonante o nosso ministério. Procurar que, quando nos encontra pela rua e nas igrejas, o povo de Deus ou qualquer transeunte perceba que está a encontrar Cristo! Tarefa imensa, que por nós seríamos incapazes de cumprir, mas que a graça sacramental não só nos permite como quase nos obriga!

Olhamos à nossa volta, e somos quotidianamente surpreendidos pelo hoje divino da salvação. Olhamos para nós e percebemos que é através das nossas mãos e do nosso ser que este "hoje" se torna presente, actuante, na Igreja e no mundo. Mesmo com todas as derrotas e vicissitudes; mesmo com todas as incapacidades; mesmo apesar do nosso pecado, não temos o direito de baixar os braços, de desistir de Deus e da missão que Ele nos confiou e confia.

"Cumpriu-se hoje mesmo a palavra da Escritura que acabais de escutar". De coração cheio e grato, continuemos a apascentar o povo que nos foi confiado, rezando com ele e por ele; continuemos a oferecer-lhe os dons sacramentais que conduzem à salvação; sejamos para ele guias da fé neste mundo de turbulenta indefinição. Abracemos, com renovada confiança e ardor, a missão de tornar presente a Cristo.

"Alter Christus": desafio enorme e apaixonante, que não nos admite outra resposta a não ser aquela que pronunciámos no dia da nossa ordenação: "Eis-me aqui, Senhor!".

+ Nuno, Bispo do Funchal