Homilia Jubileu da Solidariedade

16-11-2025
Foto de Duarte Gomes
Foto de Duarte Gomes

JUBILEU DA SOLIDARIEDADE

XXXIII Domingo do Tempo Comum (C)

Sé do Funchal, 16 de novembro de 2025

"Quando o amor abrasa"

1. "Há-de vir o dia do Senhor, ardente como uma fornalha" (Malq 3,20). Não tenhamos dúvidas, irmãos, que esse dia, anunciado pelo Profeta, será o dia do amor. Sim: o amor que se ergue como um sinal poderoso no meio do amontoado da nossa sociedade, o amor que arde como uma fornalha, será ele a julgar-nos, a ter a última palavra.

Em cada dia que passa, somos acordados e convocados por um conjunto enorme de dados, de informações, de apelos. De tal forma que, muitas vezes, nos custa distinguir o verdadeiro do falso, aquilo que exige a nossa atenção de quanto nem sequer deve merecer um segundo do nosso tempo. Temos dificuldade em perceber o que nos constrói, que nos faz mais, que nos torna mais humanos.

Mas, do meio de todas estas realidades, tantas vezes negativas, que invadem o nosso quotidiano, sobressaem claramente atitudes, vontades, acções que, esquecendo o egoísmo natural do ser humano, nos indicam o caminho por onde prosseguir, a estrada a percorrer pessoal e socialmente: esse é o caminho do amor.

Claro que necessitamos de distinguir o que é de verdade amor de todas aquelas outras realidades a que facilmente chamamos amor mas que não passam de egoísmos disfarçados (e, por isso, mais perigosos) — e nós, seres humanos, somos particularmente hábeis nessa arte de disfarçar egoísmo em amor.

Mas sim: o amor existe. Ele é sempre reflexo da presença de Deus, porque "Deus é amor" (1Jo 4,8). Por muito que, para cada um de nós, o amor seja surpreendente e indevido (surpreendente, porque traz sempre consigo um excesso, um quê de inesperado que nos envolve; indevido, porque é expressão de gratuidade, presença de uma vontade que se esquece de si para nos acompanhar e transformar; indevido, porque não o podemos jamais reivindicar) por muito surpreendente e indevido que seja, o amor existe, está presente no mundo, no nosso mundo.

Ele é, antes de mais, o amor de Deus: "É nisto que consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e nos enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados" (1Jo 4,10). O amor de Deus que atravessa lugares e tempos e se torna próximo, presente, atuante por meio do seu Espírito criador, renovador e santificador.

É este mesmo amor de Deus que, depois, se torna presente em tantos gestos, atitudes, vontades. É o amor dos casais e dos pais. É o amor dos irmãos e familiares. É a amizade e a simples gentileza. Mas é, igualmente, o modo como desempenhamos as nossas tarefas profissionais ou nos empenhamos na construção do nosso viver social.

É verdade: o amor existe e aí está, presente, atuante, a dar vida e a comunicar-se, a espalhar-se e a difundir-se, sempre de mãos dadas com a justiça. Ele aí se encontra, quase antecipando a palavra definitiva: a fazer comunhão, a permitir a colaboração, a entreajuda e a transformar este nosso mundo — e como o nosso mundo está diferente porque o amor está presente e actua nele!

2. É este amor que julga e condena: não o pode evitar. Ele estabelece a diferença entre pecado e bondade. O amor é o critério que permite fazer a distinção entre o belo e o feio, o bom e o mau, o bem do próximo e o egoísmo, a virtude e o pecado.

O amor e a sua presença no nosso mundo, ainda que por vezes nos custe encontrá-lo (esta procura é já fruto da sua presença) mostra que é, de verdade, possível fazer distinção. E distinção objectiva. Mostra que nem tudo tem o mesmo valor, que é necessário conjugar a boa intenção a uma acção objectivamente boa — quer dizer: que não basta ter boas intenções, mesmo quando as obras são más; ou que não bastam boas obras, ainda que produzidas por íntimos perversos.

Quer dizer: o amor faz distinguir, discernir, ver com clareza. O amor é luz que ilumina, e iluminando julga, e julgando faz desaparecer a escuridão. E, por isso, condena: condena o mal, o pecado, o egoísmo, o feio. Condena-os ao desaparecimento, como nos dizia, há pouco, o Profeta Malaquias: "Há-de vir o dia do Senhor, ardente como uma fornalha; e serão como a palha todos os soberbos e malfeitores".

3. Por isso, seja-me permitido, nesta celebração jubilar das Instituições de Solidariedade presentes na nossa Região, recordar alguns dos princípios essenciais da acção sócio-caritativa, tal como foram enunciados pelo Papa Bento XVI na sua Encíclica "Deus é amor". Dizia ele:

a) "A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela política. Mas toca à Igreja, e profundamente, empenhar-se pela justiça, trabalhando para a abertura da inteligência e da vontade às exigências do bem" (DCE 28).

b) "O amor será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa. Não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem" (DCE 28);

c) "A Igreja é uma das forças vivas [da sociedade]: nela pulsa a dinâmica do amor suscitado pelo Espírito de Cristo. Este amor não oferece aos homens apenas uma ajuda material, mas também refrigério e cuidado para a alma — uma ajuda muitas vezes mais necessária que o apoio material" (DCE 28).

d) "O dever imediato de trabalhar por uma ordem justa na sociedade é próprio dos fiéis leigos. Estes, como cidadãos do Estado, são chamados a participar pessoalmente na vida pública" (DCE 29).

e) "A Igreja nunca poderá ser dispensada da prática da caridade enquanto actividade organizada dos crentes, como aliás nunca haverá uma situação onde não seja precisa a caridade de cada um dos indivíduos cristãos, porque o homem, além da justiça, tem e terá sempre necessidade do amor" (DCE 29).

f) "A caridade cristã é, em primeiro lugar, a resposta àquilo que, numa determinada situação, constitui a necessidade imediata: os famintos devem ser saciados, os nus vestidos, os doentes tratados para se curarem, os presos visitados, etc" (DCE 31)

g) "A actividade caritativa cristã deve ser independente de partidos e ideologias. Não é um meio para mudar o mundo de maneira ideológica, nem está ao serviço de estratégias mundanas, mas é actualização aqui e agora daquele amor de que o homem sempre tem necessidade" (DCE 31).

h) "Além disso, a caridade não deve ser um meio em função daquilo que hoje é indicado como proselitismo. O amor é gratuito; não é realizado para alcançar outros fins. Isto, porém, não significa que a acção caritativa deva, por assim dizer, deixar Deus e Cristo de lado. Sempre está em jogo o homem todo" (DCE 31).

No final do evangelho que escutámos, Jesus dizia que "Pela perseverança salvareis as vossas almas" (Lc 21,19). Sejamos nós capazes de perseverar e de caminhar nesta senda do amor, e de encaminhar muitos outros para ela e nela. Connosco caminha o próprio Deus, conduzindo-nos a todos até àquele lugar onde O poderemos contemplar face a face, gozar e viver dele — a eternidade feliz!

+ Nuno, Bispo do Funchal