Homilia Dia Mundial da Paz'26

DIA MUNDIAL DA PAZ
Sé do Funchal, 1 de janeiro de 2026
1. Uma vez mais celebramos o Dia Mundial da Paz. Ele quer ser uma jornada de oração pela paz, um pedido insistente e universal ao Criador para que mova os corações dos homens e neles faça nascer sentimentos, vontades de paz que se sobreponham à vontade de guerra que ameaça a própria existência humana.
A realidade da guerra entra-nos diariamente pela casa dentro, envergonhando a todos. A guerra é uma vergonha. É a confissão, exposta aos olhos de todos, do pecado que marca o nosso viver, e nos impede gestos de fraternidade e de amor para com o nosso próximo.
A guerra envergonha a todos porque mostra a incapacidade desta humanidade do século XXI, tão capaz de encontrar soluções técnicas e científicas para o seu viver, mas tão incapaz de exterminar do seu seio as situações de guerra, de ódio entre pessoas e povos. E, infelizmente, não são apenas aquelas situações (na Ucrânia ou em Gaza) que têm ultimamente feito a abertura dos telejornais: são também aqueles outros conflitos que grassam em África e na Ásia ou na América Latina, que passam ao lado dos fazedores de notícias e a que poucos ligam neste nosso mundo ocidental.
2. À primeira vista, a paz parece uma tarefa impossível, sobre-humana. E, de facto, assim é, se contarmos apenas com as nossas forças, com a nossa capacidade para a construir. Queiram ou não alguns, o pecado marca-nos dum modo tal que, por nós, sozinhos, jamais seremos capazes de o vencer.
Contudo — como recorda o Papa Leão XIV na sua mensagem para a Jornada de hoje — a paz já existe. Diz o Santo Padre: "A paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e vence-a. A paz tem o sopro da eternidade: enquanto ao mal se ordena «basta!», à paz suplicamos «para sempre». O Ressuscitado introduziu-nos neste horizonte".
2. Para ser acolhida como dom do Ressuscitado — Ele que sempre iniciava os encontros com os discípulos com a saudação: "A paz esteja convosco" — para ser acolhida como dom, dizíamos, a paz exige-nos que consideremos o nosso próximo não como um concorrente a ser derrotado, mas como um irmão que connosco partilha a natureza humana.
Com efeito, quando nos percebemos participantes de uma mesma humanidade, fruto do mesmo amor criador e criativo de Deus, as diferenças apresentam-se como realidades menores, frente à realidade maior do amor paterno que a todos une, que confere sentido à existência de todos, que dota a vida humana de uma dignidade inigualável.
A consideração da fraternidade — que traz consigo a consideração necessária da paternidade divina e o reconhecimento da sua Presença ao nosso lado — não pode deixar de conduzir ao acolhimento da paz e à sua expansão pelo mundo inteiro como "paz desarmada". Como afirmava ainda o Papa: "Antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho. Mesmo que seja contestada dentro e fora de nós, como uma pequena chama ameaçada pela tempestade, guardemo-la sem esquecer os nomes e as histórias daqueles que a testemunharam".
3. Neste sentido, a paz é, também, uma verdadeira tarefa para todos. Porque urge espalhar, semear no coração desta humanidade dividida pelo ódio, o amor paterno de Deus. É a "bondade desarmante" a que se refere também o Papa Leão: bondade humilde mas perseverante, que se faz presença e caminho, que orienta e determina as nossas escolhas.
O próprio Papa nos convida: "Em todo o mundo, é desejável que cada comunidade se torne uma casa de paz, onde se aprende a neutralizar a hostilidade através do diálogo, onde se pratica a justiça e se conserva o perdão. Hoje, mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia, através de uma criatividade pastoral atenta e generativa".
E acrescenta também o Papa, referindo-se agora às realidades políticas internacionais: "É o caminho desarmante da diplomacia, da mediação, do direito internacional".
E, no passado dia 26, o Papa Leão afirmava também: "Nas condições de incerteza e sofrimento do mundo atual, a alegria pareceria impossível. Quem hoje acredita na paz e escolheu o caminho desarmado de Jesus e dos mártires é frequentemente ridicularizado, excluído do debate público e, não raro, acusado de favorecer adversários e inimigos. O cristão, porém, não tem inimigos, mas irmãos e irmãs, que continuam a sê-lo mesmo quando não estão de acordo".
Correspondamos ao apelo do Santo Padre quando dizia: "Rezemos agora a Maria e contemplemo-la, bendita entre todas as mulheres que servem a vida, contrapondo o cuidado à prepotência, a fé à desconfiança. Que Maria nos leve a entrar na sua própria alegria, uma alegria que dissolve todo o medo e toda a ameaça, como a neve derrete ao sol".
+ Nuno, Bispo do Funchal
