Homilia Dia do Doente

DIA MUNDIAL DO DOENTE
Irmãs Hospitaleiras, 11 de fevereiro de 2026
"Ser próximo não depende da proximidade física ou social, mas da decisão de amar"
(Papa Leão XIV)
1. A proximidade de Maria
"Não têm vinho". Neste dia em que o Papa Leão nos convida a uma atitude de proximidade para com os doentes, não podemos deixar de contemplar a atitude de proximidade de Maria. Ela faz-se próxima seja com os noivos e demais convidados à festa, com Jesus, e com cada um de nós, os cristãos para quem João escreveu a narração destes sinais que Jesus realizou (Jo 20,31).
Maria, "a Mãe de Jesus", está atenta a tudo quanto se passa. Mesmo no meio da festa. Ela apresenta-se como aquela que dá conta de uma falta, e que não hesita em fazê-lo presente a Jesus. Maria é a mulher que está atenta à realidade à sua volta e às necessidades dos discípulos.
A Mãe de Jesus faz-se, também, próxima do próprio Senhor. Jesus é totalmente conduzido pela vontade do Pai. Ainda não chegou a Hora da sua manifestação e, por isso, recusa, inicialmente, "antecipar" essa Hora: não se trata de manter o suspense mas de respeito absoluto pela vontade do Pai. A sua resposta: "Que temos nós com isso?", longe de ser rude ou dura, manifesta apenas a total disponibilidade do Senhor para com a vontade paterna e para com o ritmo da revelação. Contudo, a proximidade de Maria — a sua eventual reação, a sua atitude, o seu olhar, o seu silêncio (ou as eventuais palavras que possa ter pronunciado) — fazem com que Jesus aceda a realizar o milagre e, desse modo, ofereça o primeiro sinal da realidade que Ele e os seus haveriam de viver plenamente na Páscoa.
Maria é também próxima de todos nós. De facto, sem ela (e ela é a "Mulher", quer dizer: ela personifica a Igreja, personifica-nos a todos nós) sem Maria, não teríamos a narração do milagre e de tudo quanto ele nos diz acerca da nova Aliança, do vinho novo, da nossa envolvência como discípulos na Páscoa do Senhor.
2. A proximidade voluntária
Esta proximidade — que é, afinal, espelho e presença da proximidade do Senhor Jesus, como fica bem manifesto na parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) que o Papa toma como ponto de partida para a sua mensagem do Dia Mundial do Doente — esta proximidade não se contenta, de facto, em procurar "aquele que me é próximo", mas preocupa-se antes sobre o "como posso eu fazer-me próximo de alguém" que necessita da minha ajuda. Por isso, Maria toma a iniciativa de alertar o Senhor: "Não têm vinho". Como afirma o Papa: "O Senhor não nos quis ensinar quem era o próximo daquele homem [doutor da Lei], mas a quem ele devia tornar-se próximo". E acrescenta: "Ninguém é próximo de outro enquanto não se aproxima voluntariamente dele".
Não é voluntarismo; é antes o dinamismo do amor. Na verdade, como também afirma o Papa Leão, "O amor não é passivo mas vai ao encontro do outro; ser próximo não depende da proximidade física ou social, mas da decisão de amar".
"O amor depende da decisão de amar". Ou seja: amar é uma decisão. Muito mais que um sentimento, que um momento fugaz de prazer ou uma longínqua percepção de felicidade passageira, o amor é uma decisão que traz sempre consigo o eco daquela primeira decisão divina: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança" (Gen 1,26) — e, assim, que nos traz o eco do próprio Deus.
O sentimento, o prazer, a percepção dum momento de felicidade podem surgir como ocasião do amor; mas este, para ser verdadeiro, será sempre uma decisão. O amor é um querer bem ao outro — e essa atitude está para além daquilo que sinto, daquilo que acho, daquilo até que me convém: é uma decisão que me implica na minha relação com aquele de quem me torno próximo: uma decisão em que este último tem a primazia. De facto, o outro tem a primazia no amor: é ele, a sua realidade, qualquer que ela seja, que provoca naquele que ama a decisão de amar.
3. Aquele que sofre, aquele que está doente, como o posso ignorar?
"O cristão, continua o Santo Padre, faz-se próximo daquele que sofre, seguindo o exemplo de Cristo, o verdadeiro samaritano divino, que se aproximou da humanidade ferida". E acrescenta: "Não são meros gestos de filantropia, mas sinais nos quais se pode perceber que a participação pessoal nos sofrimentos do outro implica dar-se a si mesmo, supõe ir mais além de satisfazer necessidades, para chegar ao ponto da nossa pessoa ser parte do dom".
É o dom do encontro com aquele que sofre, e que nasce do nosso vínculo com Jesus Cristo: unidos a Cristo cabeça, sofremos com o sofrimento daqueles que são os seus membros. "A dor que nos comove não é uma dor alheia, é a dor de um membro do nosso próprio corpo, ao qual a nossa Cabeça nos manda acudir para o bem de todos", diz o Papa.
E terminava Leão XIV: "Desejo vivamente que nunca falte no nosso estilo de vida cristão esta dimensão fraterna, "samaritana", inclusiva, corajosa, comprometida e solidária, que tem a sua raiz mais íntima na nossa união com Deus, na fé em Jesus Cristo. Inflamados por esse amor divino, poderemos realmente entregar-nos em favor de todos os que sofrem, especialmente dos nossos irmãos doentes, idosos e aflitos".
Com o Papa, dirijamo-nos agora à Virgem Maria, Senhora de Lourdes, com quem aprendemos esta atitude de proximidade, de amor:
"Doce Mãe, não
vos afasteis,
vossos olhos de mim não aparteis.
Vinde comigo por todo o caminho,
e nunca me deixeis sozinho.
Já que me protegeis tanto
como uma verdadeira Mãe,
fazei com que me abençoem o Pai,
o Filho e o Espírito Santo".
+ Nuno, Bispo do Funchal
