Homilia Dia de Natal

25-12-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Noite de Natal

Funchal, 24 de Dezembro de 2018

"Glória a Deus nas alturas

e paz na terra aos homens por Ele amados"

Nesta santíssima Noite de Natal, penetrada pela Luz e belos cânticos ao Menino Deus, tenho a grande alegria de celebrar convosco, aqui na Catedral do Funchal, qual nova gruta de Belém, a nossa fé em Jesus, Filho Unigénito do Pai! Com jubilosa gratidão louvemos o nosso Deus e Senhor, lembrando as palavras do salmista: "Cantai ao Senhor, terra inteira, cantai ao Senhor, bendizei o Seu nome" (Sl 95).

A grande Luz que ilumina a história

A história da salvação está iluminada pela Luz do Espírito Santo, que atua na vida e na história da humanidade. Ao longo de séculos, Deus preparou o seu povo para a Encarnação do Seu Filho Amado.

Isaías aponta, em perspetiva messiânica, num belíssimo texto poético, uma poderosa intervenção de Deus na vida do povo de Israel: "O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que andavam na sombra da morte, uma luz começou a brilhar". O "Menino" que nasceu é o Salvador do mundo: "tem o poder sobre os ombros e será chamado «Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz "(Is 9,6). O profeta fala-nos de um reinado de ordem espiritual, assinalado pelo dom da paz e da fraternidade universal. Esta visão de Isaías ultrapassa aquele momento histórico do seu tempo e aponta caminhos de felicidade futura, claramente iluminada por Cristo, Luz do mundo. Revelação e promessa do indiscritível amor do Pai que se manifesta num menino, "cujo poder será engrandecido numa paz sem fim sobre o trono de David e sobre o seu reino".

Na Carta a Tito é claramente manifesto o enorme amor do Pai, ao enviar ao mundo o Seu Filho Unigénito para o salvar. Cristo ofereceu a sua vida por nós, resgatou-nos com o seu Sangue, para nos libertar do pecado, "resgatar de toda a iniquidade". Por isso, somos chamados a despertar, a viver em constante vigilância, como nos recomenda o Apóstolo Paulo. Com a graça do Batismo, que nos capacita para toda a boa obra, somos chamados a "Viver no tempo presente, com temperança, justiça e piedade "(Tito 2,12).

A maior das alegrias: o nascimento de Jesus

Na pena deliciosa de Lucas nasce uma das mais belas páginas do Evangelho, com o relato do nascimento do Filho de Deus. De facto, numa situação dolorosa de rejeição, no contexto histórico concreto de um recenseamento romano, Maria e José tiveram de recorrer a uma gruta, face à eminência do parto, para pernoitar. Como todos os pobres do mundo, Jesus, o Senhor Deus Altíssimo, nasce em condições de precariedade e é colocado numa manjedoura de animais. A humildade é o peso superabundante do amor! É o preço da Encarnação do Verbo. Em Jesus Menino, Deus fez-se dependente, pequenino, carecido de todos os cuidados e, para o nosso espanto, também do nosso amor. No presépio de Belém brilha a única Luz que pode iluminar e salvar o mundo! "Anuncio-vos uma grande alegria: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor (Lc 2,11). Aproximemo-nos e adoremos o Deus Menino!

A beleza e a força de tão admirável mistério, só pode ser revelado pelo próprio Deus. No grande silêncio da noite, uma Luz imensa e cânticos de Anjos, inundam as campinas de Belém: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados" (v.14). Jesus é o Deus connosco, o Emanuel!

O verdadeiro espírito do Natal

No ambiente natalício, o amor e a alegria circulam mais e abrem os horizontes da Esperança e da Paz. As famílias e os amigos encontram-se para conviver e celebrar o nascimento do Deus Menino. Até as luzes que ornamentam, embelezam e iluminam as nossas casas e ruas, recordam-nos aquela outra Luz, que brilhou intensamente em Belém, há dois mil anos: Cristo, Luz do mundo! Essa é a verdadeira identidade do Natal.

Entremos na claridade da gruta de Belém e deixemo-nos iluminar pela beleza e intensidade da Luz divina. Jesus está para sempre connosco! Façamos festa porque Deus veio habitar na nossa terra e fez a sua tenda entre nós! Dentro de momentos, Jesus volta a encarnar e a nascer nos nossos altares, a nova manjedoura de Belém. O presépio e a Eucaristia estão intimamente unidos.

Presépio vivo e saudação natalícia

Reinventemos e recriemos o nosso presépio "ao vivo", onde todos se sintam bem, como irmãos da mesma família, para que o Divino Menino nasça verdadeiramente nos nossos corações.

O Papa pede-nos que olhemos para o primeiro Natal da história: "será Natal se, como José, dermos espaço ao silêncio; se, como Maria, dissermos a Deus "aqui estou"; se, como Jesus, estamos próximos daqueles que estão sozinhos; se, como os pastores, deixarmos nossos recintos para estar com Jesus. Será Natal, se encontrarmos a luz na pobre gruta de Belém".

Nesta noite santa, lembremos e rezemos por todos os pobres, os doentes, os desempregados, os refugiados, os que são obrigados a viver o Natal longe da família e dos amigos. Iluminai este mundo de trevas com a luz dos vossos gestos de amor solidário, de atenção e escuta aos mais desprezados, aos mais pobres e humildes da terra. Que os nossos irmãos e irmãs carenciados sintam o calor e a ternura do Menino de Belém e de Maria, Sua Mãe!

Boas Festas. Feliz Natal. Que o Menino Deus a todos abençoe na Paz!

Funchal, 24 de Dezembro de 2018

†António Carrilho, Bispo do Funchal