Domingo de Ramos

25-03-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal

Domingo de Ramos - 33º Dia Mundial da Juventude

Sé do Funchal, 25 de Março 2018

Com Maria, um sim generoso e feliz!

Hoje, Domingo de Ramos, a Igreja faz memória da entrada festiva de Jesus em Jerusalém e dá início à Semana Santa, em que se celebra o Mistério Pascal da Sua paixão, morte e ressurreição. Jesus é o Messias-Rei, manso e humilde de coração, que vem ao encontro do Seu povo e de cada um de nós. Apesar do ódio dos seus inimigos, Jesus aceita ser reconhecido como Messias e aceita a homenagem que lhe é prestada: "Hossana! Bendito o que vem em nome do Senhor" (Is 50,9), grita a multidão com alegria e entusiasmo crescente.

Celebra-se também, hoje, o Dia Mundial da Juventude, uma iniciativa do Papa São João Paulo II, que já se realiza pelo 33º ano consecutivo. Seguindo a prática dos seus antecessores, o Papa Francisco ofereceu à Igreja e aos jovens em particular, uma Mensagem para este dia: " Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus" (Lc 1,30), como preparação para o Sínodo dos Bispos dedicado aos jovens (Outubro 2018) e para a Jornada Mundial da Juventude a realizar no Panamá, em Janeiro 2019.

Associando-se a estes acontecimentos, a Diocese do Funchal escolheu para lema do programa pastoral deste ano: "Igreja jovem com os jovens", lembrando as palavras de São João Paulo II, quando dizia "A Igreja será jovem, quando os jovens forem Igreja". É assim um ano que nos convida a uma atenção especial aos jovens e seus problemas, à sua formação e maior integração nas comunidades e movimentos eclesiais.

Cristo, o servo sofredor

A liturgia da Palavra de Domingo de Ramos está cheia de elementos que nos deixam perplexos, perante o mistério de Deus-Amor. De facto, depois da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, recorda-se a injusta e violenta condenação à morte. Os louvores da multidão, os cânticos e os ramos de oliveira transformaram este momento solene num projeto de alegria e de esperança para o acontecimento do Calvário. Surpreendente mistério do Servo Sofredor que, por amor, Se entregou voluntariamente à morte.

Na carta aos Filipenses, o Apóstolo São Paulo sublinha a dinâmica da humilhação e da exaltação, que alcança em Cristo o seu ponto culminante. Apesar de ser Filho de Deus foi humilhado e aprendeu a obedecer no sofrimento. Este caminho de contradição e despojamento será claramente o caminho do cristão que deseje seguir os passos do Mestre: "Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes" (Filip 2,10). O amor vence o ódio, o pecado e a morte, e projeta-nos com Cristo na glória do Pai.

Jesus continua a vir ao nosso encontro, a tomar parte na nossa vida e na vida da sociedade, oferecendo-se por inteiro a toda a Humanidade: "Eu vim para que tenham Vida e Vida em abundância (Jo 10,10). Não tenhamos medo de receber e de aclamar Jesus Cristo, como Senhor da nossa vida e da nossa história. Ao levarmos para casa os ramos benzidos, recordemos o amor eterno de Deus por nós e o convite que nos dirige à profunda união com o Seu Filho, no mistério da Cruz e da Glória, como caminho de felicidade.

A Paixão de Cristo, caminho de amor

No evangelho de São Marcos, a narrativa da Paixão é precedida pela referência à unção de Betânia. A contrastar com a conspiração de morte dos seus inimigos, contemplamos o gesto inesperado de Maria: banhada em lágrimas, derrama perfume sobre os pés de Jesus, uma unção que ficou a ecoar, através do anúncio do Evangelho, como um gesto silencioso de imensa ternura.

No texto da Paixão, que escutámos, Jesus aproxima-se em silêncio, tranquila e conscientemente do mistério do sofrimento e da morte. A prisão de Jesus surpreende pela sua serenidade. Nos seus sofrimentos podemos ler também os nossos sofrimentos e os da humanidade inteira: a traição de Judas; o abandono dos discípulos; os julgamentos nos tribunais e, por fim, a flagelação e a morte violenta na Cruz. Pena de morte para um inocente, que fez da vida uma doação constante ao Pai e à Humanidade. "Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?" (Mc 14,34).

Durante esta semana, convido-vos a olhar, a meditar e a contemplar a Paixão de Cristo. Que cada um de nós possa penetrar mais profundamente no mistério admirável do amor de Deus e expressar a nossa confissão de fé, à semelhança do centurião: "Na verdade, este homem era Filho de Deus" (v.39). Na celebração da Eucaristia, atualiza-se o mistério Pascal e nele recebemos todos os frutos da Paixão do Senhor.

33º Dia Mundial da Juventude

Neste Dia Mundial da Juventude, quero saudar, com muita amizade, todos os queridos jovens da Madeira e Porto Santo. A Igreja ama-vos e pensa em vós, nos vossos sonhos, preocupações, medos e desafios, num mundo em profundas mutações a vários níveis. A Igreja conta convosco! Levais no coração a força e a esperança, que atravessam o tecido social da história, sobretudo o Amor de Jesus, que dá sentido e gosto à vida.

Ao ritmo do cântico do Magnificat, o Papa Francisco convidou os Jovens a preparar o encontro Mundial da Juventude, a realizar no Panamá, em Janeiro de 2019. E neste ano de 2018, o Santo Padre prepara os jovens para esse grande momento, convidando-os a caminhar pela mão de Maria, cheia de graça e beleza, como mulher inspiradora e modelo para as suas vidas

O risco da solidão digital

Um dos graves problemas do nosso tempo é a falta de amor, que gera solidões incontornáveis. Esta situação agrava-se com o uso imoderado das novas tecnologias, que reduz, muitas vezes, a relação pessoal a encontros virtuais.

O próprio Papa fala deste risco do isolamento e solidão digital, que as novas tecnologias podem suscitar, apelando aos jovens: "Não deixeis, queridos jovens, que os fulgores da juventude se apaguem na escuridão duma sala fechada, onde a única janela para olhar o mundo seja o computador e do smartphone". Os filhos, as crianças e os jovens, precisam mais de carinho e de um abraço amigo do que da oferta do último grito da moderna tecnologia.

Na sua mensagem, o Papa refere-se às inseguranças afetivas, à falta de amor e aos medos dos jovens, como fator paralisante que os impede de escutar a voz de Deus e de responder à própria vocação, com alegria, determinação e entusiasmo.

Com Maria, um "Sim" generoso e feliz

O Papa sublinha o testemunho e a vida exemplar da jovem Maria de Nazaré, convidando a olhar para ela como modelo juvenil, que respondeu a Deus com um "amor solícito, dinâmico, concreto. Um amor cheio de audácia e todo projetado para o dom de si mesma". E acrescenta: "À jovem Maria [de Nazaré] foi confiada uma tarefa importante, precisamente porque era jovem. [...] Desejo que, na Igreja, vos sejam confiadas responsabilidades importantes, que se tenha a coragem de vos deixar espaço; e vós, preparai-vos para assumir estas responsabilidades".

Quando Deus chama, não se exige um "curriculum excelente", cheio de méritos e sucessos, mas apenas o acolhimento da Sua graça, dom gratuito e superabundante, presente em todos os momentos da vida. Na anunciação, Maria ficou inquieta e perplexa, diante da imensidão do mistério, que a envolve. Faz perguntas, como os jovens, e responde com um "Sim" generoso, dialogante, incondicional.

Queridos Jovens, a Igreja precisa de vós, da vossa força e dinamismo! Numa Igreja em saída, percorrei com Jesus e Maria a estrada da generosidade e da entrega total aos outros por amor, aceitando os desafios da vida, da Igreja e da sociedade, com entusiasmo e alegria. "Da certeza de que a graça de Deus está connosco, provém a força para ter coragem no presente: coragem para levar por diante aquilo que Deus nos pede aqui e agora, em cada âmbito da nossa vida; coragem para abraçar a vocação que Deus nos mostra; coragem para viver a nossa fé sem a esconder e atenuar".

Queridos Jovens, abri o coração a Jesus Cristo e a Maria-Mãe. Eles estão sempre prontos e atentos para dialogar com todos. Não tenhais medo de dizer "Sim" ao Senhor, que vos ama e pode chamar para a Sua vinha. Assim termina o Papa a Mensagem para este dia: "Vós, jovens, tendes força, atravessais uma fase da vida, em que certamente não faltam as energias. Usai essa força e essas energias para melhorar o mundo, começando pelas realidades mais próximas de vós".

Ó Maria, Mãe de Cristo e nossa Mãe, Senhora do "Sim", rogai por nós!

Funchal 25 de Março de 2018

†António Carrilho, Bispo do Funchal