Homilia nos Fiéis Defuntos

02-11-2020

COMEMORAÇÃO DOS FIÉIS DEFUNTOS
Cemitério de S. Martinho, 2 de novembro de 2020

“Se ele não esperasse que os que tinham morrido haviam de ressuscitar, teria sido em vão e supérfluo orar pelos mortos” (2Mac 12,44).


Como escutámos na Iª Leitura, Judas Macabeu fez uma colecta entre os seus homens para pedir que em Jerusalém rezassem pelos que tinham morrido numa batalha, a fim de que Deus lhes perdoasse os pecados. E o autor do Livro dos Macabeus afirma que, ao agir deste modo, Judas praticou “uma acção muito digna e nobre, inspirada na esperança da ressurreição”.
Também a nós o que hoje aqui nos reúne em oração pelos defuntos — pelos nossos, por quantos aqui, neste lugar se encontram sepultados e pelos do mundo inteiro — não é uma simples homenagem de recordação. Não estamos apenas a recordar os seus feitos ou a sua importância na nossa vida, ou para a vida da nossa sociedade e do mundo.


Estamos aqui reunidos para rezar a Deus, como comunidade cristã, para que o Senhor acolha a estes nossos irmãos no seu Reino de vida, perdoando os pecados que tiverem cometido. E, deste modo, a nossa oração é, também ela, profissão de fé na ressurreição de Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, profissão de fé na verdade da comunhão dos santos.
Rezamos porque acreditamos que a nossa oração é proveitosa para aqueles que são defuntos — quer dizer: para aqueles que, tendo deixado de exercer as suas funções neste nosso mundo, continuam a peregrinar em direção à vida plena que é Deus.


Rezamos porque acreditamos que, sendo membros do mesmo corpo de Cristo ressuscitado, o bem que praticamos redunda em bem para todos, vivos ou defuntos. Rezamos porque acreditamos na comunhão dos santos. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica, citando S. Tomás: “Uma vez que todos os crentes formam um só corpo, o bem de uns é comunicado aos outros […]. E assim deve-se acreditar que existe uma comunhão de bens na Igreja” (S. Tomás, Symb., 10; CIC 947).
Mas, ao mesmo tempo, a nossa oração é igualmente a afirmação da esperança que nos anima, e que é uma certeza, colocada por Deus nos nossos corações: “A esperança é a virtude teologal pela qual desejamos o Reino dos Céus e a vida eterna como nossa felicidade, pondo toda a confiança nas promessas de Cristo, e apoiando-nos não nas nossas forças mas no socorro da graça do Espírito Santo”, diz também o Catecismo da Igreja Católica (CIC 1817).


Certamente que todo e qualquer ser humano procura a felicidade. Esta procura, podemos dizer, é o motor de toda a vida, de toda a nossa existência. Pensamos nós: algures, no tempo ou no espaço, ou fora deles, existe a felicidade. E não apenas aqueles instantes de felicidade que agora, neste momento, nos é dado viver, mas uma felicidade verdadeira, quer dizer: eterna e plena. Onde se encontra este “algures” que procuramos desesperadamente, este paraíso de felicidade que buscamos com todas as nossas forças?


Olhando para o nosso mundo, encontramos muitas promessas de felicidade. A publicidade que nos bombardeia constantemente oferece a felicidade, em troca de uma compra mais ou menos custosa — mas sabemos bem, por experiência, como se trata de uma pequena felicidade passageira!


Muitas ideologias e muitos vendedores de ideias nos prometem a felicidade, em troca de nos deixarmos subjugar e formatar pelos seus ideais — mas sabemos (a história do século XX mostrou-nos) como estes sistemas de ideias foram apenas criadores de regimes que quase aniquilaram o ser humano!


O desporto promete a felicidade para o corpo; as chamadas meditações espirituais prometem a felicidade para o espírito; os vendedores de drogas prometem a felicidade dos instantes em que dura a ilusão de um mundo inexistente — mas sabemos como essas felicidades acabam por diminuir e derrotar o ser humano! E poderíamos continuar, enunciando todas as promessas de uma felicidade ilusória, passageira e barata que encontramos hoje a cada esquina deste nosso mundo…


Outros, depois de tanto procurarem e de tanto se desiludirem com a procura, quase desistiram de serem felizes: vivem resignados ao momento passageiro, às pequenas felicidades (um cigarro aqui, uma anedota ali, um momento bem passado acolá), arrancadas a ferros, irremediavelmente procuradas e repetidas, mas incapazes de corresponder verdadeiramente aos anseios que habitam o ser humano!
Ontem, no entanto, ao celebrarmos os Santos, a sua vida e a sua glória, deparávamo-nos com uma felicidade diferente. Eles gritavam-nos e mostravam-nos que a felicidade a encontraram em Jesus ressuscitado: uma felicidade plena, perfeita, verdadeira, que respeita e eleva o ser humano, e que não desaparece nem apodrece, que não se pode comprar, nem fingir; uma felicidade para sempre!


Olhando para os santos, para aqueles homens e mulheres que viveram uma vida concreta como a nossa (tão concreta como as dificuldades, sofrimentos e tormentas por que passaram na sua esmagadora maioria) ficamos, também nós, cheios de entusiasmo para nos colocarmos no seu caminho. A sua felicidade — a felicidade que os santos, desde a Virgem Maria ao jovem beato Carlo Acutis, beatificado há apenas alguns dias, a felicidade que eles nos propõem é vida vivida, cheia, entusiasmante, que transborda e nos atrai.


Como a encontraram eles? Encontraram-na deixando-se encontrar por Cristo. Encontraram a felicidade deixando que Cristo lhes desse a vida. Encontraram-na porque foram capazes de olhar mais longe e de viver mais longe: com os pés na terra, mas com o coração em Cristo ressuscitado. Com o coração na vida partilhada com Deus. Com o coração no Céu.


Começaram a viver assim, felizes, bem-aventurados, ainda nesta terra, mas certos de uma bem-aventurança plena na vida que, após a morte, Deus lhes abria diante dos olhos e do coração. Ao partirem, deixaram-nos o testemunho de que é possível, nos faz bem, é feliz e faz felizes todos aqueles que com eles viveram e contactaram. Não é uma felicidade passageira, não nos esmaga, não nos destrói ou diminui. Pelo contrário: aqueles que a vivem torna-os grandes, infinitos, porque é assim a vida de Deus que eles tiveram a coragem de viver.
Hoje, aqui estamos nós, não como quem acorda de um sonho para a triste realidade da morte, mas como quem percebe que é possível: é possível para nós e para aqueles que aqui descansam das suas tarefas mas peregrinam connosco, membros do mesmo Corpo, até ao encontro pleno com Cristo.


É possível porque Jesus Cristo venceu a morte, e nos ganhou a vida eterna: “Disse-lhe Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim nunca morrerá»”, como acabámos de escutar no Evangelho.


Esta é a felicidade que pedimos para nós e para todos os defuntos. Podemos esperá-la como certeza porque escutámos e acolhemos o anúncio da ressurreição do Senhor e ela nos aparece como verdadeira; podemos esperá-la como certeza porque os santos nos mostraram a sua verdade, podemos esperá-la como verdadeira porque ela preenche em nós, plenamente, o anseio de felicidade que trazemos connosco.


E, desse modo, a morte, longe de arruinar o nosso ser, torna-se antes um pórtico para uma vida nova, mesmo que, tantas vezes, seja difícil e doloroso passar por ele.


+ Nuno, Bispo do Funchal