Homilia na Festa do Monte

17-08-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Festa de Nossa Senhora do Monte,

Padroeira da cidade do Funchal e de toda a Diocese

Monte - Funchal, 15 de Agosto 2018

Com Maria, descobrir e viver o projeto de Deus

Neste dia em que toda a Igreja se alegra com a Assunção da Virgem Maria ao Céu, aqui a invocamos como Senhora do Monte, nossa padroeira, implorando a sua proteção e intercessão maternal junto de Deus.

Foi com a confiança de filhos que subimos ao Monte, para lhe manifestarmos o nosso louvor e a nossa gratidão pelas graças recebidas. O que nos vai no coração exprime-se num gesto, num olhar, numa oração, numa promessa. O que as palavras não podem dizer, exprime-o o coração. Deus conhece o coração de cada um, sabe as luzes e sombras que o habitam, e a todos convida a unirem-se a Maria Mãe e seu Filho Jesus, na busca da paz e da verdadeira alegria, como resposta às necessidades e anseios de cada um.

Como nos diz um dos textos do Concílio Vaticano II, a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo atual, «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração (...) Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história».

Unidos na dor e na esperança

A nossa vinda ao Monte é, na verdade, uma peregrinação e é próprio de quem peregrina estar sempre em saída, disposto a acolher e a enfrentar os acontecimentos, mesmo quando têm a marca da dor e do sofrimento, como aquele que, no ano passado, neste mesmo dia de festa, fez treze vítimas mortais e muitos feridos. É grande a dor das famílias que perderam os seus familiares. O respeito pela dor dos outros e a proximidade junto dos que sofrem são para nós a marca do Evangelho que vivemos. É sobretudo uma maneira de seguir Jesus que nos une especialmente à Sua paixão e morte e nos abre à esperança da Ressurreição.

Nós não podemos refazer a história, a evitar os seus momentos dolorosos, mas toda a realidade exige sempre da nossa parte uma atitude que, em vez de ser de mera resignação ou de revolta, pode e deve ser de compromisso com a vida e abertura à esperança. A Ressurreição de Jesus e a Assunção de Nossa Senhora ao Céu, que hoje celebramos, convidam-nos a viver como peregrinos desta esperança. Lembremos simplesmente a entreajuda e partilha de sentimentos, que se gerou no meio da dor e do sofrimento.

A luz da fé permanece para nós como fonte de paz e de coragem para se assumirem os acontecimentos de cada dia. Por isso, rezamos hoje por todos os que partiram de forma tão trágica há um ano, pelos feridos e também pelos seus familiares e todos aqueles que, presentes no Largo da Fonte, guardam a memória de tão triste acontecimento. Durante a procissão, teremos oportunidade de nos determos, naquele lugar, para um momento de silêncio e de oração por todas as vítimas. Aí colocaremos alguns ramos de flores, como expressão da nossa lembrança e homenagem, comunhão e esperança na vida eterna.

Do amor-caridade nasce a alegria

Como acabámos de escutar no texto do Evangelho de São Lucas (1,39-56), assim que Maria acolheu com a obediência da fé a Boa Nova da sua maternidade, logo se pôs a caminho, apressadamente, para comunicá-la aos que lhe eram mais próximos, Zacarias e Isabel. Após ter recebido com alegria a hospitalidade divina, vai agora partilhá-la, com a pressa de quem ama e não pode calar a Palavra que recebeu no seu coração. Esta saudação foi também acolhida, prontamente, por sua prima Isabel e, desde esse momento, não só o seu coração mas até a sua própria casa se tornou a hospedaria de Cristo.

Do encontro nasce a alegria, tanto dos filhos - Jesus e João Batista, como das mães - Maria e Isabel. Como diz o Papa Francisco, quem se encontra com Jesus e O segue, acolhe "a alegria no Espírito Santo" (Rom. 14, 17), porque, "do amor caridade, segue-se necessariamente a alegria. Pois quem ama sempre se alegra na união com o amado [...] Daí que a consequência da caridade seja a alegria" (Exort. Alegrai-vos e exultai, 122).

Maria é bendita entre as mulheres, porque é bendito o fruto do seu ventre, Jesus. Ela é, diz Isabel, "a Mãe do meu Senhor". A mãe do Senhor é também nossa mãe, porque nos tornámos filhos graças ao seu Filho único. E porque somos filhos, podemos com razão fazer nosso o cântico de ação de graças e louvor da mãe de Jesus: "A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da sua serva". Pelo dom da fé, Deus realiza em nós grandes coisas, se aprendermos a humildade de Maria, que é sempre disposição para o serviço fraterno e para a entrega generosa da vida.

Maternidade de Maria e da Igreja

O livro do Apocalipse, que escutámos na primeira leitura, apresenta-nos uma visão grandiosa e dramática, que é uma profecia do amor de Deus pelos homens. O templo de Deus abre-se no céu e logo aparece a arca da Aliança. A arca, sinal da presença de Deus entre os homens, fica de certo modo em segundo plano face a um outro sinal: uma mulher aparece no céu, revestida com o sol e com a lua debaixo dos pés. Esta mulher está prestes a ser mãe e o seu filho é ameaçado de morte por um dragão cheio de grande força e poder. Ninguém pode deixar de perguntar: - Quem é esta mulher, que está para ser mãe? É Maria, a mãe de Jesus!

Enquanto mãe do Messias, Maria faz parte do tempo novo do seu Filho. O sol de que ela está revestida ou que ela reflete no seu rosto materno é o seu próprio Filho, Luz do mundo. O sofrimento a que ela está sujeita é o da cruz. Intimamente unida à cruz do Redentor, ela gera-o uma vez mais para o mundo através da firmeza da sua fé e da sua missão maternal.

Esta maternidade estende-se a toda a Igreja e destina-se a mostrar que também a Igreja é mãe, à imagem de Maria: como ela dá à luz um Filho que é o Salvador, também a Igreja tem por missão gerar Cristo em nós e, por nosso intermédio, no mundo em que vivemos.

Comunicar o dom da fé

O anúncio do Evangelho passa pelo testemunho de vida e pela missão de transmitir o dom da fé, tendo em atenção, hoje, em especial as novas gerações. O Papa Francisco convocou para o mês de Outubro próximo um Sínodo dos Bispos de todo o mundo sobre o tema "os jovens, a fé e o discernimento vocacional". Na carta aos jovens, destinada a apresentar o documento preparatório deste Sínodo, o Papa convida a fazer memória das palavras de Jesus aos seus discípulos, que lhe perguntavam: "Mestre, onde moras?". Ele respondia-lhes com um convite: "Vinde ver". Era, assim, lançado um apelo ao contacto, ao encontro, à descoberta do Mestre.

"Estou certo, diz o Papa aos jovens, que, mesmo se o barulho e a confusão parecem reinar no mundo, este apelo continua a ressoar na vossa alma para abri-la à alegria completa. Isso será possível na medida em que, com o acompanhamento de guias experimentados, sabereis iniciar um caminho de discernimento para descobrir o projeto de Deus para a vossa vida". Descobrir o projeto de Deus é receber d'Ele, através de Jesus, uma vida mais humana de proximidade e de encontro, de dom de si mesmo a Deus e aos outros.

Aprendamos, pois, com Maria a alegria deste encontro e disponibilidade. "Temos Mãe", dizia o Papa em Fátima. Aqui a invocamos, pois, na nossa terra, como Senhora do Monte, nossa Padroeira, e a ela confiamos todos os cuidados de Mãe para com estes seus filhos - residentes, emigrantes e visitantes. Que ela nos encha das bênçãos de seu Filho Jesus, nos livre de todo o mal e seja para nós a Rainha da paz e da alegria, do amor e da esperança.

Funchal, 15 de Agosto 2018

†António Carrilho, Bispo do Funchal