Unidade dos Cristãos

01-02-2019

Palavras de D. António Carrilho, na celebração ecuménica
pela unidade dos cristãos - 2019


Igreja de Santa Clara - Funchal, 25 Janeiro 2019


"Procurarás a justiça, nada além da justiça" (Deut 16,18-20)
Neste nosso encontro ecuménico, no último dia da Semana de Oração pela
Unidade dos Cristãos, saúdo com sincero afeto os representantes das diversas
Igrejas e suas comunidades, presentes na Madeira e no Porto Santo. Unidos pelo
Espírito do Senhor, que nos congrega como irmãos da mesma família, no caminho
para a unidade, fazemos ressonância das palavras de Jesus: "Que todos sejam um
como Cristo e o Pai!" (Jo17,21).


Juntos, rezamos pela unidade e damos graças a Deus pelos esforços já realizados
pelas diversas confissões religiosos, como sinal de união, celebrando o mesmo
Deus, Uno e Trino, Fonte de Vida e de comunhão. Grandes têm sido os esforços
conjuntos, no sentido de promover a cultura do encontro, do diálogo, da defesa da
vida, da construção da paz e da fraternidade universal. Na comunhão da mesma
fé em Deus, conjugamos esforços para abrir caminhos novos de Esperança,
caminhos abertos ao diálogo, ao amor solidário e à misericórdia, para sarar as
feridas que provocam males irreparáveis no coração da humanidade, como as
injustiças e as guerras.


O Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos assumiu, neste
ano de 2019, como tema da semana de oração pela Unidade dos Cristãos o texto
bíblico, escolhido por comunidades da Indonésia: "Procurarás a justiça, nada
além da justiça" (Deuteronómio 16,18-20). De facto, sem justiça, não há paz, nem
solidariedade, nem desenvolvimento. Pelo contrário, aumenta a opressão dos
pobres e dos mais fracos. "Quando rezamos juntos, quando anunciamos o
Evangelho e servimos os pobres e os necessitados, nos reencontramos no
caminho, e o próprio caminho progride para a meta da visível unidade", diz o
papa Francisco.


Na verdade, são as injustiças, as ideologias políticas ou religiosas e o arbitrário
abuso do poder, que maiores danos causam à família humana e ao próprio
ambiente. Como cristãos somos convidados a escutar o sopro do Espírito e a
evangelizar o nosso coração, para que triunfe em nós a mansidão, a humildade e
o amor. Só assim seremos autênticos promotores de paz e harmonia entre os
povos.


Thomas Merton, monge trapista, prestigiado escritor, conferencista empenhado
no diálogo ecuménico e inter-religioso, mantinha-se atento aos graves problemas
do nosso mundo, nomeadamente o racismo e a pobreza. No seu legado espiritual
colhemos palavras admiráveis sobre a verdadeira dimensão mística, conciliando
contemplação, diálogo e compaixão: "O amor é o nosso verdadeiro destino. O
orgulho faz-nos artificiais". Numa das suas cartas à Serva de Deus Dorothy Day,
a 16 de Junho de 1962, expressa claramente a gratuidade da entrega da vida aos
mais pobres e carenciados: "O nosso trabalho consiste em amar os outros sem nos
determos a pensar na utilidade dessa ação. Isso não é assunto nosso".
A unidade nasce da conversão


O Concílio Vaticano II lembra-nos que sem a mudança do coração, não há diálogo
ecuménico: "Não há verdadeiro ecumenismo sem conversão interior. Lembremse todos os cristãos de que tanto melhor promoverão e até realizarão a união dos
cristãos quanto mais se esforçarem por levar uma vida mais pura, de acordo com
o Evangelho (Unitatis Redintegratio,7). Unidos pelo vínculo batismal, na partilha
da Palavra e no amor de Cristo, assumimos o compromisso de estudar, rezar e
promover atos concretos de aproximação entre as diversas Igrejas.


Numa sociedade pluralista, o diálogo inter-religioso estende-se também aos "não
crentes", como tem vindo a acontecer numa série de encontros internacionais em
que se debate cultura, ciência, arte e fé e se procuram pontos de convergência e
de fraternidade.


Num mundo fraturado por desigualdades e divisões, pedimos a Deus abençoe a
nossa oração e esforços de comunhão ecuménica: "O Senhor é minha luz e
salvação" (Sl 21,7). Juntos pela unidade, pela paz e pela justiça, vivamos o grande
dom e riqueza da união e harmonia universal, que tem a sua origem e a sua fonte,
na Luz do mistério da Santíssima Trindade.


Funchal, 25 de Janeiro 2019
†António Carrilho,
Administrador Apostólico