Missa e Te Deum

31-12-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Missa e Te Deum - 2018

Funchal, 31 de Dezembro 2018

"A boa política está ao serviço da paz"

Chegámos ao final de mais um ano com as bênçãos do Senhor e a presença solícita e materna de Maria, a Santa Mãe de Deus. Cheios de profunda gratidão e de júbilo elevamos ao Senhor o nosso cântico de Louvor por todos os dons e benefícios recebidos ao longo do ano, que hoje termina: Te Deum Laudamus! Nós vos louvamos, ó Deus!

Em jubilosa gratidão ao Pai

Num olhar retrospetivo, fazemos memória jubilosa e agradecida ao Senhor pelas inúmeras graças concedidas à Sua Igreja e à humanidade, durante o ano 2018. Em primeiro lugar, agradecemos o dom da vida e da fé, a família e os amigos, que nos ajudaram e iluminaram o nosso caminho com o seu apoio e gestos de bondade, tantas vezes discretos e silenciosos.

A nível eclesial, lembro o Sínodo dos Bispos sobre os jovens, a fé e o discernimento vocacional. O Papa Francisco lançou às novas gerações o desafio apaixonante: "Cristo é eternamente jovem". N'Ele, podeis reconhecer "as vozes dos jovens, seus gritos de exultação, lamentos e silêncios". Tendo em conta o entusiasmo dos jovens, o Santo Padre alertou para a vivência da fé e da entrega da vida ao serviço do Evangelho, referindo-se também, com muita esperança, à Jornada Mundial da Juventude, no Panamá, no final de Janeiro.

Na Igreja em Portugal, para uma maior consciência da sua missão evangelizadora, em comunhão com o Santo Padre, a Conferência Episcopal Portuguesa lançou o projeto de um "Ano Missionário", com uma nota pastoral intitulada "Todos, Tudo e Sempre em Missão". Deste modo, pretende-se dar um novo impulso à animação missionária de toda a vida e ação pastoral das comunidades cristãs. É também o convite a reacender a paixão por Cristo, de modo a consciencializar sobretudo os jovens para a sua maior participação no anúncio do Evangelho. Em diversas ocasiões, o Papa tem afirmado que "a ação missionária é o paradigma de toda a obra da Igreja".

Na nossa Diocese do Funchal, apontando também para uma maior dinâmica missionária eclesial, iniciámos o Ano Pastoral com o lema: "Ser cristão, viver em missão". De salientar, ainda, que um grande motivo de louvor e ação de Graças foi a Ordenação de dois jovens diáconos, em ordem ao sacerdócio, ontem mesmo, solenidade da Sagrada Família.

Celebrar uma história gloriosa - Memória e Identidade insular

Nos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo, agradecemos a Deus a sua história valorosa, feita de luz e sombras. Apoiada na fé e determinação de um povo, apesar das dificuldades da insularidade, as nossas ilhas abriram-se ao desenvolvimento cultural e social e participaram generosamente no dinamismo evangelizador e missionário da Igreja.

A nossa identidade insular foi tecida, ao longo dos séculos, com um rico património ecológico, cultural, artístico e religioso, com grande projeção de futuro. Esta memória histórica é reescrita, em diversas situações celebrativas da vida ou da religiosidade popular, com particular atenção para as genuínas tradições natalícias, no mês da "festa", como se dizia, então, na Madeira.

Amados e abençoados por Deus

A Palavra de Deus, que escutamos, introduz-nos na Luz do Verbo de Deus e na sua eficácia redentora, que nos aponta caminhos de bênção e de felicidade.

A fórmula de bênção do Livro dos Números, que ouvimos na primeira leitura, é a mais importante de todas as bênçãos da Sagrada Escritura. "O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz" (Nm 6,25). Usada no santuário, na reunião da assembleia, normalmente era feita pelo sacerdote, mediador entre Deus e o povo, no fim da liturgia diária. Ainda hoje se usa a fórmula de bênção no final da Eucaristia, ação sagrada por excelência. Ser abençoado pelo Senhor é viver consciente da Sua presença e receber a plenitude de todos os bens e da Sua paz.

Na segunda leitura, S. Paulo diz-nos que, na plenitude dos tempos, Deus enviou ao mundo o Seu Filho "nascido de uma mulher", para realizar a nossa adoção filial. É uma dádiva imensa, maravilhosa, que agradecemos a Deus e a Maria, a cheia de graça, que nos enche de alegria e das maiores bênçãos do Altíssimo. Jesus é a plenitude da Revelação, a Palavra viva do Pai para todos os seus filhos.

Deus revela-se na família

S. Lucas, o evangelista da infância de Jesus, no texto proclamado há pouco, relata-nos a alegria dos pastores que tiveram o privilégio de serem os primeiros a chegar à gruta de Belém, onde se encontravam José, Maria e o Menino, envolto em panos. No Menino do presépio reconheceram o Messias Salvador. A atitude dos pastores de anunciar alegremente a Boa Nova, contrasta com a de Maria, não menos significativa, que permanecia em silêncio, na contemplação do mistério inefável de Deus Menino.

Estando a decorrer o "Ano Missionário", a atividade evangelizadora da Igreja encontra, no mistério de Belém, o seu paradigma: contemplar e anunciar. "Quando O viram, começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino" (Lc 2,20). São as duas faces da fecundidade da missão.

O Evangelista afirma também que, ao fim de oito dias, Jesus foi circuncidado. A circuncisão era um rito cultural do Oriente antigo, usado por algumas civilizações, no qual se atribuía o nome ao menino: "deram-Lhe o nome de Jesus" (v.21). A criança ficava vinculada à comunidade, neste caso, ao povo de Israel, o povo da Aliança.Jesus quer dizer "Salvador".

Desafios para a construção da Paz

Celebra a Igreja, no primeiro dia do ano, desde o pontificado de Paulo VI, o Dia Mundial da Paz. A Mensagem do Papa Francisco para este ano, 52º Dia Mundial da Paz, intitulada A boa política está ao serviço da paz, relança a estreita relação entre a paz e a política e identifica as potencialidades que constroem a cidadania e fraternidade entre os povos.

A mensagem afirma e evidencia o desafio constante na construção da paz, um bem imenso para a dignidade humana: "Com efeito, e cito, a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições dum futuro digno e justo. Se for implementada no respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade das pessoas, a política pode tornar-se verdadeiramente uma forma eminente de caridade (Mensagem,2). Uma mensagem que merece ser lida integralmente, no estilo tão direto a que o Papa já nos habituou.

Ao celebrarmos o septuagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada após a II Guerra Mundial, lembro que todas as pessoas, particularmente os cristãos, são chamados a respeitar a dignidade humana, a construir a paz e a dizer não à violência e a todas as formas de destruição. O Papa chama a atenção para a fragilidade e ténue fronteira entre a paz e a guerra, citando o poeta Carlos Peguy, a respeito da esperança: a paz é "como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência". E podemos acrescentar, que as sementes de paz, mesmo em ambientes inóspitos, fazem florescer o amor, a esperança e a alegria.

A contrastar com a má política, o abuso de poder e das armas, que deixam terríveis marcas na história da humanidade, tirando a vida a milhões de pessoas, o Papa lembrou as "bem-aventuranças do político" do cardeal vietnamita, Van Thuan: "Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os seus interesses; que sabe escutar e não tem medo". Na verdade, a paz não é um mero equilíbrio de poderes e de medos entre forças adversas. É um dom do Espírito Santo, que nos faz viver em harmonia connosco próprios, com Deus, com os outros e com a natureza, tão ameaçada pelo egoísmo humano, com certos comportamentos inaceitáveis.

Caríssimos diocesanos da Madeira e Porto Santo, Cristo é o príncipe da Paz, Conselheiro Admirável, que veio habitar a nossa terra. Que Ele nos ensine e nos transforme em instrumentos de Paz e de Esperança.

Pedimos ao Pai que lance sobre nós um olhar de paz e inunde o mundo com a Luz de Cristo. Que Ele nos abençoe, volte o seu Rosto, os seus olhos, para nós e nos dê a Sua Paz. Feliz Ano de 2019, pleno de Alegria e Paz para todos.

Ó Maria, Rainha da Paz, rogai por nós.

Funchal, 31 de Dezembro 2018

†António Carrilho, Bispo do Funchal