Madre Virgínia Brites da Paixão

17-01-2019

Homilia de D. António Carrilho, nos 90 anos

da morte da Madre Virgínia Brites da Paixão

(17 de Janeiro de 1929 -2019)

Igreja de Santo António, 17 de Janeiro 2019

A alegria do encontro com o Pai!

Com grande alegria, presido à solene Celebração Eucarística, na Igreja paroquial de Santo António, nos 90 anos da morte da querida Madre Virgínia, última Abadessa do Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês e filha desta Diocese do Funchal. Em comunhão eclesial, damos graças ao Senhor pelas maravilhas que operou na humilde religiosa da Ordem de Santa Clara.

Na madrugada do dia 17 de Janeiro de 1929, aos 66 anos de idade, falecia santamente, na casa de seus pais, em Santo António, a "santa freirinha", como lhe chamava carinhosamente o nosso povo. As suas últimas palavras expressam claramente o seu viver em profunda intimidade com Deus e o desejo ardente de uma vida de plenitude, no abraço de eternidade: "Vamos para o céu. Vamos para o céu"!

A imprensa da época referiu-se à sua morte, enaltecendo a beleza da sua vida santa: "A alma da virtuosíssima senhora desprendeu-se da terra com o mesmo ar festivo com que tomou o hábito, numa límpida manhã de glória para Deus e admiração para a humanidade" (Correio da Madeira, 26 de Janeiro de 1929).

O seu funeral, com grande participação do povo, muitos sacerdotes, numerosas crianças, vestidas de branco, com coroas de flores, mais parecia um cortejo triunfal que se dirigia para a Jerusalém celeste. Nele se integraram as Irmãs Clarissas, expulsas do seu Mosteiro, que à data se encontravam em Câmara de Lobos. O seu humilde caixão foi transportado pelos Irmãos de S. João de Deus, da Casa de Saúde do Trapiche.

Na clausura aberta do mundo

Depois da exclaustração forçada pelas leis republicanas, em 1910, a Madre Virgínia, embora já não se encontrasse no sossego e silêncio do seu querido Mosteiro, descia a íngreme ladeira do Lombo dos Aguiares, para orar, na Igreja de Santo António. Nada a demovia do encontro diário com o Senhor. Ali permanecia, sem pressas, de joelhos, em silenciosa adoração, diante do sacrário, louvando e intercedendo por todas as necessidades da Igreja e do mundo. Este templo foi testemunha ocular de admiráveis graças místicas, como podemos confirmar pela magnífica pintura do Imaculado Coração de Maria, na abóboda da Igreja, da autoria do mestre Luís Bernes.

À semelhança de Santa Teresinha do Menino Jesus, a quem estava unida por fortes laços espirituais, embora nunca se tivessem conhecido nesta vida, se aplica a famosa frase: "Quero passar o meu céu a fazer bem sobre a terra". E assim tem sido, na verdade. Quantas pessoas têm beneficiado da poderosa intercessão da Madre Virgínia junto de Deus!

Apesar de estar fora do seu Mosteiro, continuou a viver na clausura aberta do mundo, em fidelidade criativa ao carisma que abraçara pela Profissão Religiosa, com os votos de pobreza, obediência e castidade.

O desafio de seguir Jesus em liberdade

A Palavra do Senhor que escutamos, coloca-nos no exigente caminho da fidelidade e do seguimento, numa vida de incondicional entrega ao Senhor, conforme inspiração do Espírito Santo. "Se queres perfeito" (Mt 19,21).

O autor da Carta aos Hebreus exorta a comunidade dos crentes a permanecer fiel e a reavivar a fé em Deus, quando desaparece o horizonte da esperança e surge o cansaço e a tristeza. Esta mensagem é, também, para nós. Não raras vezes, depois do entusiasmo e alegria da primeira "hora", na imensa seara do Senhor, perante os contratempos e dificuldades da vida, cansamo-nos e somos invadidos pela tristeza, solidão e desalento. Urge escutar e descobrir a novidade do amor de Deus, sempre presente, criativo e fiel: "Hoje, se escutardes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações" (Hebr 3,8).

S. Mateus apresenta-nos, no encontro de Jesus com o jovem rico, uma das belíssimas páginas evangélicas, que mais influenciaram a história do cristianismo e a teologia da Vida Religiosa. Neste texto somos confrontados com o seguimento radical da pessoa de Jesus. O jovem rico, cumpridor dos mandamentos, com desejos de vida eterna, não teve força para deixar tudo e seguir Jesus, apesar da proposta dinâmica e da imensa liberdade que Jesus lhe oferecia. "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me. (Mt19,21). Urge entregar-se incondicionalmente ao Senhor que nos ama, nos chama e nos envia para a missão.

Pensando nos nossos queridos jovens, cheios de entusiasmo e generosidade, digo que não tenham medo de seguir o Senhor. Como o jovem do Evangelho, também Jesus vos olha com amor e vos convida a permanecer com Ele e a trabalhar na sua vinha, até à doação da própria vida.

Vida contemplativa, sinal e profecia

A Madre Virgínia, como todos sabeis, ao contrário do jovem rico, seguiu incondicionalmente Jesus. Entregou-se por inteiro, numa vida de total doação a Deus, em oração, silêncio e sacrifício. Mesmo longe do seu Mosteiro, permaneceu humildemente fiel, na casa paterna.

Num mundo marcado pela lógica do poder, da riqueza e do consumo, a vida monástica é sinal, memória e profecia do amor incondicional de Deus pela humanidade. Além de ser uma silenciosa interpelação aos que se dizem agnósticos, esta forma de consagração é rica em fecundidade apostólica. Mantém acesa a Luz da Esperança e da presença de Deus no mundo, qual sentinela da manhã. A Igreja continua a confirmar a importância desta vida, na construção dum mundo mais humano: "Quanta alegria e profecia grita ao mundo o silêncio dos claustros!" (Vultum Dei Quaerere, n. 5). O amor dos contemplativos abraça totalmente a Deus, amado sobre todas as coisas, os irmãos, as irmãs e toda a criação.

A Madre Virgínia deixou-nos um luminoso testemunho de vida que permanece bem atual e interpela a qualidade da vida cristã dos nossos dias. Neste momento, quero fazer referência à bondade de Deus que a cumulou de abundantes graças sobrenaturais destinadas à Igreja e ao mundo. A sua oração viva e humilde tocava o Coração de Deus e de Maria. Entre os numerosos testemunhos dos que beneficiaram da sua oração, sobressai a figura notável do Imperador Carlos de Áustria, exilado na Madeira juntamente com a sua família.

Imaculado Coração de Maria - o tesouro do Coração de Jesus

Como sabeis, a devoção ao Imaculado Coração de Maria, a espiritualidade dos primeiros sábados e o uso do Seu Escapulário, iniciou-se na Madeira, quatro anos antes da revelação aos pastorinhos, em Fátima, em 1917.

No dia 22 de Abril de 1913, a Madre Virgínia encontrava-se em oração, quando recebeu de Jesus uma surpreendente mensagem de amor: "O maior tesouro do meu Coração é o Imaculado Coração de Maria". Era desejo de Nossa Senhora derramar uma chuva de graças sobre todos os seus filhos e filhas. E Jesus continuou: "O meu divino Coração não descansa enquanto não vir aquele Imaculado Coração amado por todos os filhos de uma tão boa Mãe. As almas aflitas chamem pelo Coração de Maria e serão consoladas".

A Madre Virgínia foi a Mensageira do Imaculado Coração de Maria. Com palavras de ternura materna, Nossa Senhora deixou-nos o legado do seu imenso amor por todos os madeirenses e porto-santenses: "A Madeira é a peanha dos meus pés". A sua espiritualidade, profundamente mariana, também está marcada por um grande amor à Eucaristia e às almas do purgatório. Neste momento, está a decorrer a fase diocesana do Processo da Madre Virgínia.

As Irmãs Clarissas encontram-se na Madeira há mais de 500 anos, graças a Deus. Que a santa clarissa madeirense interceda, junto de Deus e do Imaculado Coração de Maria, pela nossa Diocese do Funchal, para que nunca faltem as vocações nos Mosteiros de Vida Contemplativa desta Igreja particular.

Funchal, 17 de Janeiro 2019

†António Carrilho,

Administrador Apostólico