Homilia no 89º aniversário da morte da serva de Deus Madre Virgínia Brites da Paixão

21-01-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

no 89ºaniversário da morte de

Madre Virgínia Brites da Paixão

Igreja do Colégio - Funchal, 21 de Janeiro 2018

Um belo testemunho de Vida Consagrada

No âmbito do 89º aniversário da morte da Madre Virgínia, ocorrido no passado dia 17 de janeiro, tenho muita alegria em presidir a esta a celebração eucarística. Fazemos memória agradecida das maravilhas que Deus realizou na santa religiosa clarissa e precioso legado espiritual místico que nos deixou. Neste momento, procede-se ao estudo dos documentos, estando o seu processo canónico ainda na fase diocesana. Esperamos, durante este ano, para glória de Deus, fazer a conclusão do mesmo.

O canto da humildade

De facto, no mês de janeiro temos três eventos muito importantes na vida da querida Madre Virgínia, embora em datas diferentes: o batismo; a aprovação canónica dos estatutos da Confraria do Imaculado Coração de Maria; e a santa morte, em odor de santidade, na casa de seus pais, no Lombo dos Aguiares. Aplica-se à humilde religiosa, que viveu pobre e escondida, na profundidade do admirável Amor de Deus, a palavra do salmista: "Deus orienta os humildes na justiça e dá-lhes a conhecer os seus caminhos" (Sl 24).

Nesta Eucaristia, rezamos também pela querida Irmã Otília Rodrigues Fontoura, religiosa clarissa, de saudosa memória, lembrando o 10º aniversário da sua morte, no passado 26 de novembro de 2017. Sabemos com que empenho, carinho e sacrifício trabalhou, no Processo de Canonização da Madre Virgínia, apesar da sua doença grave, até à semana da sua morte. Também, foi autora de outras obras de investigação sobre a realidade religiosa, na diocese do Funchal. Por todas as graças recebidas, agradecemos e louvamos o Senhor e que Ele a tenha na sua glória.

Misericórdia sem fim

A liturgia da palavra deste domingo põe em relevo o anúncio e escuta da palavra criadora de Deus, que gera mudança de vida, quando obedecemos à sua voz e confiamos na Sua misericórdia.

No excerto que escutámos do profeta Jonas, é relevante a manifestação da misericórdia do Senhor, na cidade pagã de Nínive. Deus está sempre pronto a perdoar, quando o pecador se arrepende: "Quando Deus viu as suas obras e como se convertiam do mau caminho, desistiu do castigo com que os ameaçara" (Jonas 3, 10). Deus não falha! A conversão torna possível a visão do amor compassivo de Deus e da sua imensa bondade.

S. Paulo chama-nos a atenção para a fragilidade da vida, que embora seja bela e um grande dom de Deus, está marcada pela finitude: "o cenário deste mundo é breve" (1 Cor 7, 31). Não nos apeguemos às coisas passageiras do mundo. Vivamos sabiamente, segundo o Espírito Santo.

Chamados para seguir e permanecer com Ele

Em ressonância ao texto evangélico captamos o convite ao seguimento de Jesus e à permanência com Ele, à semelhança dos primeiros discípulos. São Marcos diz-nos que os pescadores "deixaram tudo e seguiram Jesus" (Mc 1, 18). No chamamento de especial consagração, o discípulo está consciente de seguir a pessoa de Jesus e não apenas uma norma de vida. Os desafios são muitos. Mas o encanto da primeira hora do chamamento, apesar das perseguições e sofrimentos, permanece firme com a graça, a presença e o amor incondicional do Senhor.

A Madre Virgínia da Paixão é uma destas pessoas privilegiadas, que na aurora da vida, respondeu prontamente ao Senhor, com um sim generoso e dinâmico. Aos dezasseis anos, entrou no mosteiro das Irmãs Clarissas de Nossa Senhora das Mercês, no Funchal, e ali viveu santamente até ao encerramento do mosteiro, quando foi obrigada a abandoná-lo pelas leis republicanas, em 1910. Apesar dos grandes sofrimentos e dificuldades, por que passou fora da clausura, a Madre não deixou de ser fiel a Deus, aos votos e à Regra de Santa Clara, que havia professado com tanto amor e alegria.

A Madeira, "peanha" dos pés de Nossa Senhora

A Madre Virgínia é testemunha exemplar e luminosa de fidelidade a Deus. Não podemos esquecer a sua incondicional obediência à Igreja, na pessoa do seu Bispo, à data, D. António Manuel Pereira Ribeiro, a quem pedia filialmente a aprovação do culto público ao Imaculado Coração de Maria.

É-nos grato recordar as palavras de Nossa Senhora à Madre Virgínia: "A Madeira é a peanha dos meus pés". Esta mensagem é uma honra para todos nós e uma grande responsabilidade para vivermos em maior fidelidade aos compromissos do nosso batismo.

A humilde religiosa, desde a mais tenra idade, havia sido agraciada pela experiência mística sobrenatural de Nossa Senhora e de Jesus. De salientar, a revelação do Imaculado Coração de Maria, quatro anos antes do pedido de Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima. Em sobrenatural escuta do Coração materno, a humilde clarissa foi escolhida para ser mensageira do seu culto público.

Imaculado Coração de Maria - tesouro do Coração de Jesus

Na leitura dos seus documentos, sobre os quais a Igreja se irá pronunciar, lembro a atualidade da devoção ao Imaculado Coração de Maria e as palavras de Jesus à Madre Virgínia: "O maior tesouro do meu coração é o Imaculado Coração de minha Mãe". Daqui se depreende a importância de uma autêntica espiritualidade mariana, na vida dos crentes e na vida da Igreja.

O Coração Imaculado de Maria é sacrário puríssimo da Santíssima Trindade e dele irradia a graça, a luz e a misericórdia para o mundo. No contexto histórico da época, estava a decorrer a primeira guerra mundial com os seus horrores e terríveis consequências: fome, doenças, sofrimentos e morte. É neste quadro doloroso, que Maria surge, não para reafirmar as tristezas, mas como refúgio, consolação e esperança dos seus filhos e filhas. Resplandecente de beleza e de ternura, vem recordar que não estamos sós. O seu Coração Imaculado está sempre voltado para todas as misérias humanas, como fonte de graça e de misericórdia divinas.

No limiar da eternidade

A Madre Virgínia viveu sempre com uma grande humildade, em fidelidade aos seus votos. A sua espiritualidade está pautada por um grande amor ao Santíssimo Sacramento, diante do qual passava horas em Adoração e pela devoção ao Imaculado Coração de Maria.

A religiosa clarissa, apesar da vida extraordinária que levava, não descurava os deveres e as pessoas, especialmente as mais débeis e necessitadas, tal como os seus fundadores, S. Francisco e Santa Clara. Tinha uma fina sensibilidade e atenção para com todas as pessoas, particularmente os pobres, os excluídos, os doentes e moribundos. Com o seu abraço orante a todos envolvia, na grande caridade divina e amor compassivo do Coração de Jesus e de Maria, com especial lembrança pelos sacerdotes.

Muito debilitada pela doença, na madrugada de 17 de janeiro de 1929, as sobrinhas ouviram-na dizer: "Vamos para o céu! Vamos para o céu! Vamos para o céu!" Pelas três horas da manhã, partiu serenamente para a casa do Pai. Já em vida, mas sobretudo depois da morte, a sua fama de santidade foi enorme. Grande número de pessoas começou a pedir a intercessão da "santa freirinha", solicitando graças materiais ou espirituais.

Que o Imaculado Coração de Maria, que a Madre Virgínia tanto amou, difundindo o seu culto público, abençoe a família humana. Que esta bênção se estenda à nossa diocese e faça de todos nós testemunhas proféticas do eterno AMOR de Deus.

Funchal, 21 de Janeiro de 2018

† António Carrilho, Bispo do Funchal