Homilia no 504º aniversário da criação da Diocese

12-06-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal

no 504º aniversário da criação da Diocese

Sé do Funchal, 12 de Junho de 2018

Diocese, Igreja em missão!

Criada em 12 de Junho de 1514 pelo Papa Leão X, a nossa Diocese comemora, hoje, 504 anos da sua existência. Aqui nos reunimos, pois, na Sé do Funchal, para celebrar a Sagrada Eucaristia, que é sempre louvor e ação de graças, pelos dons e benefícios recebidos, na história das nossas vidas; e é também momento de súplica, elevando a Deus as nossas preces a favor de todo o povo de Deus da Diocese, para que não falte a ninguém a luz e a força da fé, em suas necessidades.

Uma celebração jubilar

Há quatro anos, tendo presente a data significativa especial dos 500 anos, fizemos uma celebração jubilar, bem festiva e solene, preparada ao longo de três anos, com programas pastorais próprios e articulados, e realizada numa dimensão espiritual e missionária de grande riqueza, mas também numa dimensão cultural abrangente de várias áreas e com a colaboração de muitas instituições da nossa sociedade.

Assim, no que se refere à comunhão eclesial e espírito missionário foram importantes a participação do Sr. Núncio Apostólico em Portugal, na celebração de abertura das comemorações, no Pentecostes de 2011, e a presença do Sr. Cardeal Filoni, como legado do Papa Francisco, na grande celebração de encerramento da Semana Jubilar (8-15 de Junho), no estádio dos Barreiros.

Quanto aos eventos culturais, além de conferências, concertos e diversas outras iniciativas, tivemos, a culminar, o grande Congresso Internacional "Diocese do Funchal, primeira Diocese Global", com a valiosa publicação das respetivas atas, e a inauguração de um Monumento, marcado pelo espírito missionário das Descobertas e da atividade missionária da Diocese, associando as nossas paróquias e os testemunhos da fé dos nossos emigrantes.

Nos 600 anos das descobertas

É bom, no entanto, não ficarmos pelas grandes datas e celebrações, mas mantermos viva a memória dos acontecimentos eclesiais mais relevantes da história da nossa Igreja Diocesana, até pelo alcance do seu significado. E, por isso, aqui nos encontramos hoje, sem grande solenidade exterior, mas alimentando o sentido da gratidão e ação de graças a Deus, pelos dons recebidos ao longo destes 504 anos. Direi mesmo, ao longo de 600 anos, se remontamos a toda a ação evangelizadora da Igreja - Evangelho que recebemos e Evangelho que transmitimos, desde os tempos das descobertas da Madeira e Porto Santo, o que fez da Diocese do Funchal a maior Diocese do Mundo e Arquidiocese, durante alguns anos, dadas as responsabilidades que lhe foram atribuídas relativamente a todas as terras descobertas e a descobrir. Fomos, por isso, uma Diocese aberta ao mundo e empenhada na missão!

As leituras acabadas de proclamar ajudam-nos, por sua vez, a reavivar o sentido do mistério da Igreja, o que é ser Igreja e as suas implicações na nossa vida de cristãos. É importante ter uma noção correta de Igreja, que não é uma simples associação ou instituição cultural, assistencial ou educativa, ainda que integre também todos esses aspetos e outros, pois à Igreja diz respeito tudo o que se refere à vida das pessoas, na dimensão específica da proposta dos valores cristãos evangélicos. É importante, por isso, dar a conhecer e a assumir cada cristão as suas responsabilidades, quanto aos comportamentos ou modos de viver e à participação na vida e ação da Igreja e da Sociedade.

A organização ou estrutura que a Igreja foi adquirindo ao longo da história não pode deixar de estar ao serviço daquilo que foi, que é, a missão recebida de Cristo, Mestre e Pastor do Povo de Deus, não podendo deixar obscurecer o fundamental, mas procurando encontrar os caminhos de renovação, que melhor correspondam às necessidades e anseios mais profundos das pessoas, anseios de paz e felicidade.

Sendo muitos, formamos um só corpo

Assim, na primeira leitura, que escolhemos da Solenidade do Pentecostes, temos o testemunho de São Paulo aos Coríntios (1 Cor12,3-7,12-13), que aponta para uma Igreja como "Corpo de Cristo": "Todos nós fomos batizados num só Espírito para formarmos um só Corpo". Há diversidade de dons espirituais, de ministérios e atividades, mas o Espírito é o mesmo, o Senhor é o mesmo, e tudo há-de convergir para o bem comum, para fazer comunidade! "Assim como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim também sucede com Cristo".

Ao pensarmos nos 504 anos da criação da Diocese, lembramos os missionários que semearam a Palavra do Evangelho, que fomentaram a fé, a esperança e a caridade, criando comunidades que se alimentavam com os sacramentos e algumas tradições de referência, como as festas dos Padroeiros, a preparação para o Natal (Missas do Parto) e outras, especialmente dedicadas a Nossa Senhora.

A criação da Diocese, em 12 de Junho de 2014, pelo Papa Leão X, no tempo de D. Manuel I, veio integrar numa organização conjunta, as comunidades cristãs ou paróquias existentes, e veio permitir novas respostas e apoios pastorais, como aconteceu mais tarde, em 1961, com a criação de 50 novas paróquias, pelo meu antecessor D. David de Sousa. É assim: sendo muitos, formamos um só corpo; somos diferentes, mas todos somos chamados à participação e corresponsabilidade, segundo os dons recebidos! Todos chamados ao serviço da fé e do amor fraterno, todos pela causa do encontro de Deus com os homens e dos homens com Deus!

Em fidelidade e coerência

E o texto do Evangelho, próprio da 7liturgia de hoje, é claro quanto ao comportamento, ao modo de viver dos discípulos de Jesus: "Vós sois o sal da terra (...), vós sois a luz do mundo". O nosso esforço constante de conversão há-de conduzir-nos a por em prática os ensinamentos de Jesus, de tal modo que a vida de cada um de nós constitua uma presença positiva na Igreja e na Sociedade, nas suas diversas instituições, a começar pelas famílias e aquelas a que estamos mais diretamente ligados. Ser luz, que ajuda a ver e abrir caminhos de bem, caminhos de fé, de esperança, de paz e felicidade; ser sal, vida que tem sabor e testemunha esse gosto e esse sabor, vida sã, saudável, não corrompida. Enfim, um testemunho de fidelidade e coerência.

Como dizia Santo António de Lisboa, "A linguagem é viva, quando falam as obras"; e como dizia o Evangelho há pouco proclamado: "Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus".

Igreja jovem com os jovens

Irmãos: celebrar hoje, aqui, 504 anos da criação da nossa Diocese (Madeira e Porto Santo) leva-nos também a pensar no futuro, na responsabilidade e missão de transmitirmos a fé às novas gerações. É um imperativo da nossa consciência missionária, evangelizadora. Bem o tem dito e repetido o nosso Papa Francisco, nomeadamente em relação aos jovens, ao apontar como tema para o próximo Sínodo dos Bispos (Roma, Outubro 2018): "Os jovens, a fé e o discernimento vocacional". É uma reflexão a fazer, é um caminho a prosseguir com audácia e generosidade, é uma responsabilidade de todos os batizados, que não podem deixar de se sentir em missão no mundo.

E pensando na nossa Diocese, é o lema que nos propomos para o programa pastoral deste ano: "Diocese, Igreja jovem com os jovens", pois dizia S. João Paulo II: "A Igreja será jovem, quando os jovens forem Igreja".

À Senhora do Monte e S. Tiago, nossos Padroeiros, confiamos todas as necessidades e projetos, a bem de cada um de nós, da Igreja Diocesana, suas paróquias e movimentos, e de toda a Sociedade.

Funchal, 12 de Junho de 2018

†António Carrilho, Bispo do Funchal