Homilia no Porto Santo

01-11-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Solenidade de Todos os Santos

Porto Santo, 01 de Novembro 2018

Fixar o olhar no horizonte da esperança

Na solenidade litúrgica de Todos os Santos, a Igreja convida-nos a contemplar o admirável mistério do amor de Deus, que os santos viveram heroicamente, fazendo resplandecer o amor do Pai na sua vida de batizados.

Integrada no âmbito das celebrações dos 600 anos do descobrimento das Ilhas do Porto Santo e da Madeira, além do programa comemorativo da região, temos a alegria de louvar e agradecer ao Senhor todas as graças e maravilhas realizadas nas nossas comunidades insulares. Unidos à Igreja peregrina e celeste, como irmãos da mesma família de Deus, cantamos jubilosamente: "A bênção e a glória, a sabedoria e a ação de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos" (Ap 7,12).

Na plenitude da glória - a esperança cristã

A liturgia do dia 1 de novembro é um convite e proposta para uma vida de felicidade com Deus e com os outros, não só na glória eterna, mas no agora eterno da nossa peregrinação neste mundo. Numa época em que a cultura do efémero, o sofrimento e a tristeza nos impedem de contemplar a Beleza do Invisível, somos chamados a fixar o nosso olhar no Espelho da Eternidade, no horizonte da esperança e no oceano do amor de Deus.

O texto do Apocalipse, na sua paradoxal pedagogia, sublinha a eficácia do mistério pascal de Cristo e a participação dos eleitos na Vida do Senhor Ressuscitado. Cristo surge como o Bom Pastor e com grande delicadeza anuncia que terminaram as lágrimas e o sofrimento. Associados ao culto celeste, os santos louvam o Senhor, dia e noite, numa liturgia ininterrupta: "Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão" (Ap 7, 9). Não se trata apenas dos santos canonizados, nem de pessoas que realizaram obras extraordinárias ou possuíram carismas excecionais. Os santos viveram heroicamente as suas virtudes, numa expressão profunda de caridade para com Deus e os irmãos, por vezes em momentos de grande exigência, até ao martírio por causa da fé, ou na simplicidade da vida quotidiana.

S. João, o Discípulo Amado, aponta-nos o caminho da esperança cristã, que se fundamenta na alegria e coragem da fé, que brotam do insondável amor de Deus por cada um de nós. Cristo pela Sua Paixão, Morte e Ressurreição reatou a nossa amizade com o Pai, ferida pelo pedado. A nobreza e altíssima dignidade humana ressalta da própria natureza do homem e da mulher, mas tem para os crentes a sua origem mais profunda na filiação divina: "Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus" (1Jo 3, 1).

As Bem-aventuranças - um programa singular de felicidade

As Bem-aventuranças proferidas por Jesus no sermão da Montanha, são consideradas a Carta Magna do Evangelho. Surgem como declaração solene, em que o Reino anunciado por Jesus se apresenta como a Boa Nova, a boa notícia para os mais pobres em particular. Jesus apresenta orientações claras em ordem à conversão e à mudança de vida dos seus discípulos. Só as aceitam aqueles que estão em profunda sintonia com Ele.

Surpreendente e paradoxal programa de felicidade, que ultrapassa as fronteiras dos séculos, porque possui o selo da Luz divina e da eternidade. Uma mensagem de felicidade e sabedoria tão atual, que pode aplicar-se a toda a nossa vida familiar, social, religiosa e política.

No sermão das Bem-Aventuranças, Jesus aponta um caminho de felicidade pautado pelos valores sobrenaturais. Jesus chama felizes aos puros de coração, aos pobres, aos misericordiosos, aos humildes, incluindo a sabedoria das lágrimas dos que choram. Percorrer este caminho conduz à plenitude da alegria e da paz: "Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa" (Mt 5,12). Todos os cristãos são chamados a viver as Bem-aventuranças, sabendo que também através das tribulações e perseguições por causa de Jesus, terão um encontro feliz com Ele no Reino celeste. Só o Filho Unigénito do Pai, um homem inteiramente livre e feliz, podia falar com tal autoridade, convicção e lucidez.

Celebração histórica - 600 anos da descoberta do Porto Santo

A nossa ilha do Porto Santo está em festa! Fazemos hoje memória jubilosa dos 600 anos da chegada dos portugueses a esta terra e damos graças pelas maravilhas que Deus realizou, na multissecular história do nosso povo. Para o Infante D. Henrique, que era mestre da Ordem de Cristo, concretizou-se o desejo de "dilatar o Reino e fazer cristandade", para serviço e glória de Nosso Senhor.

Vários escritores da História Insulana, com particular destaque para Gaspar Frutuoso, investigador, teólogo e humanista, dizem-nos que os descobridores após violenta tempestade marítima, depois de haverem perdido "a esperança da vida", encontraram um porto seguro para fugir às intempéries. Foram surpreendidos pela presença de frades franciscanos da Província das Canárias, que ali haviam naufragado. Por isso, "chamaram àquele lugar Porto dos Frades, por acharem nele uns Religiosos de S. Francisco quase mortos, que tinham escapado entre muitos dos náufragos de um navio que ali se perdera" (Cabral do Nascimento, 1949, 82). Podemos, assim, afirmar que, tal como a Madeira, o Porto Santo nasceu franciscano.

Nas expedições marítimas portuguesas, os frades franciscanos acompanhavam os marinheiros e cumpriam com fidelidade, ao chegarem às terras descobertas, este ritual: celebrar a missa e aspergir o local, consagrando-o a Nosso Senhor. O carisma da Ordem dos Frades Menores moldou e configurou a alma das gentes do Porto Santo e da Madeira: fraternidade universal, amor às criaturas, profunda devoção ao Santíssimo Sacramento e ao Espírito Santo. De especial referência é a solenidade do Natal de Jesus, "a festa", que continua a ser celebrada com grande alegria e precedida pelas tradicionais "Missas do Parto".

O dinamismo missionário insular

A expansão marítima portuguesa com a chegada ao Porto Santo e à Madeira e seu povoamento, no séc. XV, integra-se na epopeia dos Descobrimentos do povo luso, que "por mares nunca dantes navegados" chegaram a estas ilhas, verdadeiras "pérolas" do oceano. Pela sua beleza ecológica enaltecem os louvores de Deus Criador.

O ilustre escritor madeirense, P. Fernando Augusto da Silva, afirma que tal gesta grandiosa constitui "um dos acontecimentos mais brilhantes e assinalados da nossa história. Deve ficar indelevelmente gravado em letras de ouro nas páginas dos anais madeirenses e essa expansão territorial andava sempre ligada à ação eminentemente civilizadora da propagação da fé, que os nossos incansáveis missionários iam heroicamente difundindo por toda a parte" (Diocese do Funchal, Sinopse Cronológica, 1945, 9-10).

De facto, o povo das Ilhas Atlânticas, ao longo da sua história, esteve profundamente marcado pela inquietação e dinamismo missionário de levar a fé cristã a outras paragens do mundo. A insularidade não isolou as suas gentes; pelo contrário, o Porto Santo e a Madeira tornaram-se, ainda que de modo diferente, espaços abertos à universalidade e encontro de culturas. Religiosos, sacerdotes e leigos partiram com determinação e audácia e partilharam, juntamente com o anúncio do Evangelho, as nossas tradições religiosas, sociais e culturais.

Lembramos aqui, com particular orgulho e apreço, a figura de Frei Estêvão Pedro de Alencastre, nascido nesta terra a 3 de Novembro de 1876, que emigrou com os seus pais para o Havai, procurando fugir à miséria causada pelas secas, fome e doenças, que atingiram o Porto Santo, ao longo do século XIX. Lá se distinguiu na vida religiosa (Padres do Sagrado Coração de Jesus), tendo sido sagrado Bispo no Havai a 24 de Agosto de 1924. O sinal visível da sua casa torna presente, entre nós, a memória desta grande figura de missionário, que continua viva no coração de muitos.

Os descobrimentos projetaram Portugal, sem dúvida, para lugar de grande relevo na história da humanidade e constituem um elemento decisivo da identidade nacional e da atividade missionária da Igreja.

A santidade - o seguimento radical de Jesus

Neste dia de Todos os Santos, a Igreja reafirma que a santidade é para todos e para todos os tempos. O Papa Francisco, na Exortação Apostólica sobre a chamada à santidade no mundo atual, sublinha a sua importância na vida de cada cristão, dizendo: "O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa" (Gaudete et Exultate, 1).

Uma vida santa e digna, pautada pelo Evangelho, potencia os nossos valores e eleva a dignidade humana à sua plenitude no projeto de Deus. Com a santidade vivida e testemunhada, criaram-se novos modelos culturais e respostas adequadas aos desafios das civilizações, através dos séculos.

A Maria-Mãe, Senhora da Piedade, a Cheia de Graça, entregamos o povo do Porto Santo e da Madeira e seus emigrantes, pedindo a bênção do Senhor para as suas famílias, para as suas vidas e para os seus trabalhos.

Porto Santo, 01 de Novembro de 2018

+ António Carrilho, Bispo do Funchal