Homilia no Dia de Natal

25-12-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Missa do Dia de Natal - O Verbo fez-se Carne

Funchal, 25 de Dezembro de 2018

A Palavra fez-se carne e veio habitar entre nós

Imersos na Luz do Verbo de Deus, somos convidados a contemplar o inefável amor do Pai, revelado no Filho Amado, que veio trazer-nos a salvação e habitar entre nós. Mistério de humildade e de ternura, a Encarnação do Verbo é a maior obra de Deus!

Ontem à noite, contemplamos o nascimento do Menino Deus, numa grande pobreza e humildade, na gruta de Belém. Sua Mãe "envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria" (Lc 2,7). Hoje, na missa do dia de Natal, a Igreja convida-nos a escutar a Palavra Omnipotente, que desce de junto do Pai, num profundo silêncio, como nos diz a Bíblia: "Quando um silêncio profundo envolvia todas as coisas... a tua Palavra omnipotente desceu do céu" (Sb 18,14). Como é profunda a riqueza, o amor e a sabedoria do nosso Deus?!

Com alegria pelo nascimento do Menino Deus, que veio viver a nossa vida e está presente no meio de nós, a todos saúdo jubilosamente: Boas Festas. Feliz Natal.Louvemos o Senhor que fez brilhar sobre nós a sua Luz: Cantai ao Senhor um cântico novo pelas maravilhas que Ele operou"!

O Rosto da Palavra

A liturgia convida-nos a deixar-se maravilhar, a mergulhar na Palavra que se fez homem. Na plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu Filho: "O Verbo fez-se Carne e habitou entre nós"(Jo 1,14)! Em Jesus Cristo, é possível ver e tocar Deus. O Rosto da Palavra é visível no Menino de Belém. A salvação é dom da Santíssima Trindade, mistério e abismo de amor e unidade, de comunhão no Pai, no Filho e no Espírito Santo.

Na bela visão profética de Isaías, somos surpreendidos por gritos de alegria e de cânticos jubilosos, porque o Deus fiel e amigo vem libertar e consolar o seu povo de Israel. "Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa nova, que proclama a salvação" (Is 52,7). O universo inteiro é contagiado pelo júbilo inaudito de felicidade incontida e realizada pelo Senhor. O profeta messiânico diz com determinação, que a libertação triunfal do cativeiro é a maior prova do amor de Deus e da sua sabedoria eterna, em favor do povo da Aliança.

Na Carta aos Hebreus, entramos na plenitude da revelação, com o envio ao mundo do Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e de Verdade: "Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho (Hebr 1,2). Deus falou de muitos modos aos profetas, mas, por fim, falou-nos por Seu Filho, esplendor da verdade e da glória do Pai. Na Santíssima humanidade de Cristo, o Menino de Belém, temos acesso a Deus. Com a Sua Palavra poderosa, criou o mundo, espelho que revela a bondade e sabedoria eternas de Deus. "A Palavra divina é uma criança que literalmente significa "incapaz de falar", disse o Papa.

A origem divina, a transcendência do Verbo da Vida, é claramente manifesta pelo Pai, quando enviou o Seu Filho Primogénito ao mundo: "Adorem-n'O todos os Anjos de Deus". A Majestade criadora do Verbo está presente, desde toda a eternidade em todas as coisas.

A Palavra fez-se Carne e habitou entre nós

O Prólogo de S. João é um belíssimo hino cristológico, uma síntese de admirável vigor e beleza teológica, que nos fala da transcendência do Verbo da Vida e da sua influência luminosa na criação do mundo e na história. "O Verbo era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem" (Jo 1,9). Com um único olhar, o Apóstolo resume toda a história da Salvação e os grandes temas que aparecerão no seu Evangelho. Em Cristo acontece a plenitude da revelação e a superabundância do amor divino.

Deus revela-se, através do Filho Amado, aos homens e mulheres de boa vontade. A chave de leitura da altíssima dignidade humana, encontra a sua plenitude na Encarnação do Verbo, diz-nos o Concílio Vaticano II.

Apesar da habitual presença de Deus, no coração da família humana, as infidelidades e traições, ao longo dos séculos, no tempo de Jesus e nos nossos dias, nunca poderão apagar totalmente a Luz do Verbo. Deus fez a sua tenda entre nós, expressando a sua morada histórica, no mundo. Altíssimo mistério de amor! Inefável caridade divina! Nele, poderemos experimentar a graça, a verdade, a luz e a vida, superando infinitamente outras presenças ou proximidade de Deus.

A Encarnação do Verbo, dom da Santíssima Trindade

Ao contemplar o abismo do amor do Pai e a revelação da Sua intimidade divina, pelo Seu Verbo, somos interpelados a responder com uma vida de fé autêntica, procurando viver em harmonia humana e ecológica: "Tudo foi feito por meio d'Ele e sem Ele nada se fez"(1Jo,3)

A Palavra encarnou no Coração da Mãe Imaculada e continua a encarnar e a nascer nos nossos altares, na Eucaristia. Comunguemos o Pão da Vida e, hoje, também nós podemos receber o Verbo, como Maria.

No tempo das novas e tecnologias, cada vez mais sofisticadas, a cultura do ruído e do excesso de palavras superabundam, tantas vezes vazias ou demolidoras. Urge fazer silêncio para escutar a Palavra, Jesus Cristo, o único Salvador do mundo. Que as nossas palavras sejam criadoras de relações humanas fraternas, cheias de verdadeira sabedoria e de caridade divina.

O Papa Francisco, na sua habitual Mensagem das quartas-feiras, pediu aos os cristãos a urgência de viver com autenticidade a festa do Natal. "Se o Natal for apenas uma bonita festa tradicional, onde nós estamos no Centro e não Ele, será uma ocasião perdida. Por favor, não mundanizemos o Natal! Não coloquemos de lado a pessoa festejada, como então, quando veio para a sua casa, mas os seus não a receberam".

Maria, Mãe do Verbo de Deus

Olhemos para Maria, Mãe do Verbo. Ela é a mulher de grandes silêncios, porque consciente da caridade inefável, da Trindade viva, que a habitava. Por isso é invocada pelos nossos irmãos Orientais como Vaso puríssimo da Palavra. Fiel a Deus e à Família de Nazaré, Maria pode ensinar-nos como conciliar o silêncio, com a Palavra e o cumprimento do dever.

Renovo os meus cumprimentos de Feliz Natal, na alegria e na intimidade com o Deus Menino. Boas Festas! O Verbo fez-se Carne e habitou entre nós!

Entremos na tenda do Verbo de Deus pelo silêncio e pela oração.

Boas Festas no Deus Menino! Feliz Natal! Que Deus Menino encha da Paz do Natal as vossas famílias!

Funchal, 25 de Dezembro de 2018

†António Carrilho, Bispo do Funchal