Homilia na Imaculada Conceição

08-12-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Solenidade da Imaculada Conceição

Funchal, 8 de Dezembro 2018

Maria, resplandecente de beleza e santidade

Em comunhão com toda a Igreja, celebramos o admirável mistério da Imaculada Conceição, que está intimamente ligado à Sua maternidade divina. Preservada de toda a mancha do pecado, Maria é a excelsa Mãe do Verbo de Deus, a toda bela e toda pura, medianeira de todas as graças e modelo de santidade para o povo cristão. O Concílio Vaticano II diz-nos que "A Mãe de Jesus foi adornada por Deus com dons dignos de uma tão excelsa missão...enriquecida desde o primeiro instante da sua conceição com os esplendores duma santidade singular" (Lumen Gentium, 56).

De coração agradecido, cantamos com alegria e gratidão ao Senhor, pelas maravilhas realizadas na Mãe Imaculada e, por Ela, em cada um de nós: "Cantai ao Senhor um cântico novo: o Senhor fez maravilhas" (Sl 97).

Mãe e Padroeira de Portugal

O povo luso, desde a sua fundação, dedicou um profundo e filial amor à Virgem Maria. Depois da independência, em 1143, D. Afonso Henriques consagrou Portugal a Nossa Senhora e quis que fosse celebrado um pontifical de ação de graças, em Lisboa, em honra de Nossa Senhora da Conceição.

Portugal foi agraciado, ao longo da sua história, pela presença maternal de Nossa Senhora, invocada como padroeira. Recordo a figura insigne do Santo Condestável, D. Nuno Álvares Pereira e o seu grande amor à Virgem Maria, a quem recorria com fé e confiança, nas dificuldades. Tendo adquirido, em Inglaterra, a imagem da Imaculada Conceição, ofereceu-a à igreja de Nossa Senhora do Castelo de Vila Viçosa, por ele fundada, no séc. XIV, e que veio a tornar-se num importantíssimo santuário da Padroeira.

Mais tarde, de particular significado foi o gesto de gratidão de D. João IV ao coroar a Imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa como Rainha de Portugal, em 25 de Março de 1646. A partir desse momento, todos os intelectuais da Universidade de Coimbra faziam um solene juramento de "defender sempre e em toda a parte que a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, foi concebida sem a mancha do pecado original".

Ainda hoje, esta filial devoção se manifesta claramente na identidade nacional, espiritual e cultural de Portugal, como terra de Santa Maria.

O surpreendente amor de Deus

A liturgia desta solenidade convida-nos à intimidade com o Coração da Mãe Imaculada, preservada de toda a culpa, em atenção aos merecimentos futuros do mistério Pascal de seu filho Jesus Cristo.

Na primeira leitura, através do simbolismo do Livro do Génesis, temos a promessa do triunfo do bem sobre o mal, quando Adão e Eva desobedeceram a Deus. O mistério da rutura do amor ferido será reatado por Maria Imaculada, a nova Eva, transbordante da graça de Deus. "Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela "(Gen 3,19). A harmonia universal renasce, assim, na palavra do amor misericordioso de Deus, que perdoa e salva a humanidade, liberta toda a criação.

Na segunda leitura, diz-se que no novo Adão, Cristo, "Deus abençoou-nos com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo" Ef 1,3). Maria foi totalmente fiel e viveu sempre em caridade na presença de Deus e no amor aos outros. Ela é o mais belo fruto da Páscoa do Senhor, o verdadeiro e belo "louvor de glória", como escutámos nessa leitura de S. Paulo aos Efésios.

Maria, a aurora transbordante de Luz

No texto do Evangelho de S. Lucas, por sua vez, somos introduzidos na atmosfera sobrenatural e transcendente da visita de Deus à nossa terra, através da anunciação do anjo Gabriel à Virgem Nossa Senhora. Maria, a jovem de Nazaré, é a protagonista da maravilhosa e surpreendente história do amor do Pai pela humanidade: "Avé, cheia de graça, o Senhor está contigo [...] O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o santo que vai nascer será chamado Filho de Deus" (Lc 1,35).

Com a Encarnação do Verbo de Deus, com o nascimento de Jesus, uma nova Luz brilhou em toda a terra e iluminou a humanidade pecadora. No "Sim" de Maria reconhecemos o nosso sim e o da Igreja peregrina. Como sabemos, Maria é a Mãe da Igreja e, neste Ano Missionário lembramos, particularmente, que Ela é modelo da Missão.

Pensando nos jovens, convido-os a agarrar a vida, fixando cada um o seu olhar nos olhos puros de Maria. Como disse o Papa Francisco, "nos seus olhos cada jovem pode voltar a descobrir a beleza do discernimento, e no seu coração pode experimentar a ternura da intimidade e a coragem do testemunho e da missão".

Durante o sínodo dos Bispos no passado mês de Outubro, em Roma, o Papa Francisco dirigiu-se aos jovens, sublinhando a importância da presença de Maria, "a mulher da escuta e da memória", na vida dos crentes. Depois de invocar o Espírito Santo para os trabalhos sinodais, o Santo Padre afirmou: "a jovem Maria de Nazaré está atenta à vida, na escuta da Palavra do Senhor e responde com alegria e generosidade, colocando-se logo ao serviço de sua prima Isabel". Na verdade, com Maria aprendemos a descobrir ou redescobrir a beleza do amor e a alegria da fé, aprendemos a escutar a voz de Deus que nos ama, chama e envia em missão.

Em caminhada de Advento com a Virgem do Parto

A solenidade da Imaculada Conceição integra-se no tempo litúrgico do Advento. É um tempo singular para caminhar com Maria, a Esposa do Espírito Santo, a Virgem da Espera, ao encontro do Senhor que vem, na próxima solenidade do Natal.

Na nossa Diocese do Funchal, a partir de 15/16 de dezembro, iniciaremos as tradicionais missas do Parto, novenário de preparação para o nascimento do Menino Jesus. Celebradas muito cedo, antes da aurora e associadas ao culto da Imaculada Conceição, são altamente participadas com grande entusiasmo e alegria do povo cristão da Madeira e do Porto Santo e também pelos nossos emigrantes. Nesta época do ano, um rico património musical litúrgico, de carácter popular, enriquece essas nossas celebrações eucarísticas. Estando agora a decorrer as comemorações dos 600 anos do descobrimento da Madeira e do Porto Santo, não posso deixar de recordar a influência espiritual dos sacerdotes franciscanos na vivência litúrgica do Natal do Senhor, e a implantação das nossas tradições natalícias.

A Imaculada, invocada com ternura filial, está sempre presente, como vós tão bem conheceis, no belo e expressivo cântico "Virgem do Parto, ó Maria, Senhora da Conceição..."

Mãe Imaculada, rogai por nós

Desde já convido todos os queridos diocesanos a prepararem-se para o Natal do Senhor, vivendo na fé e oração todo o dinamismo espiritual deste tempo do Advento, tal como a Igreja nos propõe. Que a nossa oração se abra ao amor fraterno e abrace, muito particularmente os pobres, as crianças, os idosos e todos aqueles que, nesta data, sentem mais profundamente a solidão. Não tenhais receio de "perder tempo" com aqueles que sofrem e precisam de uma palavra de amor, de carinho e compreensão, de partilha e ajuda fraterna.

Olhai para Maria-Mãe! Deixai que ela, a Mãe Imaculada, entre nas vossas famílias, nas escolas, trabalhos, hospitais, lares de idosos. A sua presença materna será para todos fonte de paz, de suavidade, calor e amor maternal.

Que Maria nos ajude a preparar o Natal do Senhor: a aprofundar o seu verdadeiro significado e valor, como mistério da Encarnação do Filho de Deus; a manter e valorizar o "presépio" nas nossas casas, como expressão desse mistério; a viver, com muita fé e alegria e transmitir aos outros o verdadeiro sentido e fundamento da festa do Natal. Sejamos discípulos missionários, segundo o lema do nosso plano pastoral: "Ser cristão, viver em missão".

Maria, Mãe Imaculada, intercedei por nós!

Funchal, 8 de Dezembro de 2018

†António Carrilho, Bispo do Funchal

Nota: Nesta homilia foi também anunciada a finalidade da "renúncia do Advento" - parte para o Fundo Social diocesano e parte para a "ajuda de emergência de apoio às crianças da Síria através da Associação "Ajuda à Igreja que Sofre". O próprio Papa tem lançado este projeto de ajuda.