Homilia na homenagem a D. António

14-04-2019

Homilia da Eucaristia de 11 de Abril de 2019

Homenagem a D. António Carrilho

"Eu sou o Bom Pastor e dou a vida pelas minhas ovelhas" (Jo 10,11)

Irmãos e amigos

Com muita alegria vos saúdo a todos quantos vos encontrais, aqui na Sé do Funchal: Senhor Bispo D. Nuno Brás; Senhor Bispo Emérito D. Teodoro de Faria, meu antecessor; Excelentíssimas Autoridades regionais e locais, governamentais, sociais, políticas e académicas; caríssimo Presbitério diocesano, membros do cabido e todos os sacerdotes que, em espírito de verdadeira comunhão eclesial, assumiram e assumem com o seu bispo o dinamismo e serviço pastoral, que nos é confiado pelo próprio ministério; membros dos Institutos de Vida Consagrada, religiosos/ religiosas de vida ativa e contemplativa e membros dos Institutos Seculares; responsáveis e membros dos movimentos, obras e associações da Igreja, bem como todos os leigos presentes na nossa sociedade e corresponsáveis na sua ação evangelizadora; os meus familiares e amigos vindos do continente, querendo associar-se a este momento celebrativo de ação de graças. Saúdo todos os presentes e em vós toda a Diocese, a quem me sinto profundamente ligado pela missão dos últimos doze anos de Bispo no meio de vós.

Agradeço ao Senhor D. Nuno Brás ter-me convidado a presidir nesta concelebração eucarística e pronunciar a homilia, prescindindo dos seus direitos próprios. Agradeço-lhe, igualmente, ter autorizado que, nesta quinta-feira da quaresma, marcada pelo dinamismo espiritual específico deste tempo, pudéssemos celebrar a liturgia duma missa votiva sobre a Igreja, adequada ao momento que estamos a viver, escolhendo eu próprio textos, que sempre pautaram os meus critérios de compreensão e anúncio do mistério da Igreja e de orientação fundamental na pedagogia pastoral.

A imagem do Bom Pastor

A imagem do pastor, recordada na primeira leitura (Ez 34, 11-16), coloca Deus no meio do seu povo, como o pastor junto do rebanho. O próprio Deus virá apascentar as suas ovelhas, congregá-las, tratar delas, fortalecê-las, procurá-las, ir ao seu encontro. E tendo presentes certas situações de menor atenção e cuidado por parte dos chefes de Israel, Deus virá "apascentar com justiça". Virá, de modo especial em Jesus Cristo, como Ele afirmou: "Eu sou o Bom Pastor...Dou a vida pelas minhas ovelhas". Deu a vida e ensinou os seus discípulos, a começar pelos Apóstolos/Bispos e sacerdotes, os cristãos em geral, a preocuparem-se com todos os homens e mulheres, dando respostas evangélicas aos seus anseios e necessidades, alimentando as suas fomes e saciando as suas sedes.

Eu quis ser, quero ser, Bispo-Pastor de todos e para todos, dando atenção não apenas aos aspetos religiosos, mas às diversas dimensões da vida humana: espiritual e educativa , cultural, social e assistencial, neste caso com o apoio solidário de instituições apropriadas ou propostas para situações concretas, como foi o caso da aluvião de 20 de Fevereiro de 2010, dos incêndios e da queda da árvore do Monte, que trouxeram grande sofrimento e até a morte a tanta gente.

Ação social e caritativa

Como lembrava S. João Paulo II, "o Homem é a medida da Igreja": o Homem todo e todos os homens e mulheres. Não conseguimos, certamente, concretizar os nossos sonhos e projetos, nem tal seria possível, dadas as limitações e dificuldades existentes a vários níveis, mas, na verdade, foi um princípio sempre presente no horizonte da ação pastoral diocesana.

É natural que os aspetos ligados à ação social e caritativa se tornem mais visíveis e sejam mais facilmente reconhecidos e apreciados pela opinião pública e por pessoas menos ligadas à Igreja ou menos conhecedoras da sua natureza evangelizadora. É verdade, no entanto, que as obras de amor-caridade são importantes e indispensáveis ao testemunho da vida e presença da Igreja na sociedade; não podemos esquecer que o Evangelho é interpelação e convite à conversão, pela força duma consciência reta e de um coração novo, capaz de amar, em verdadeiro serviço fraterno, segundo o mandamento de Jesus: "Nisto conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros como Eu vos amei".

Santidade e unidade

O texto do Evangelho de S. João (15,1-8), aqui proclamado, é claro e constituiu sempre uma preocupação espiritual e pastoral. É a mensagem da parábola da videira: "Quem permanece em Mim e Eu nele dá fruto abundante". Viver em Cristo é a grande exigência duma espiritualidade cristã: unidos à cepa, unidos a Ele, daremos frutos de boas obras de "marca cristã"; separados d'Ele, tal não é possível, do mesmo modo e na mesma medida.

Santidade de vida e unidade nas nossas relações são duas exigências e sinais da vida dos discípulos de Jesus. A formação da consciência moral e ética é pressuposto da vida cristã e, por isso, pressuposto e projeto de toda a ação pastoral. Ninguém, pois, se poderá admirar de que esta formação seja um objetivo e preocupação do anúncio evangelizador da Igreja.

Esta é a proposta de Jesus, é a proposta da Igreja. Tal, porém, não impede nem pode impedir o testemunho de uma Igreja aberta a todos, solidária e cooperadora, respeitando as consciências das pessoas e a autonomia das diversas instituições, a bem de todos, segundo os princípios humanistas do Evangelho. Haverá, assim, autonomia de cada instituição, segundo a sua própria natureza, e cooperação em ordem ao maior bem da sociedade.

A Igreja, Corpo de Cristo

Na segunda leitura (1Cor 12, 3-13), São Paulo aponta para um aspeto importante e fundamental do mistério da Igreja. Na verdade, com frequência se fala da Igreja, como se tudo se concentrasse na pessoa do Bispo ou nos serviços administrativos duma Diocese. Ainda se encontra, por vezes, entre nós, esta ideia, que não é verdadeira, quando a pessoa do Bispo aparece simplesmente como o "chefe" da Igreja, ao lado dos líderes das mais diversas instituições.

A ideia de "Igreja/Corpo de Cristo", como definiu S. Paulo, implica, sem dúvida, a consciência da diversidade e unidade de todos os seus membros, em corresponsabilidade e profunda relação com Cristo - Cabeça deste Corpo. Batizados em Cristo formamos um só Corpo, na diversidade de dons e qualidades, capacidades, aptidões e ministérios; "em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum".

E é neste sentido da comunhão e corresponsabilidade que apontámos, nos projetos pastorais, para a criação de algumas estruturas de participação, de acordo com as possibilidades de cada comunidade, os chamados Conselhos Pastorais e Conselhos Económicos Paroquiais, além de outras Associações de Fiéis, que também exprimem a vitalidade das comunidades, em articulação e sob a orientação dos respetivos párocos; ao mesmo tempo que se desenvolveram atividades, planos pastorais anuais, relacionados com cada paróquia e arciprestado e a pastoral diocesana em geral.

Homenagem a toda a Diocese

É por isso que a "homenagem" que hoje me é prestada, mais do que a mim pessoalmente, quero que seja "homenagem" a todas as pessoas, de maior ou menor ligação à Igreja, que se empenharam, com generosidade, dedicação e competência, na concretização de muitos desses projetos, por todos nós delineados. Numa palavra é uma homenagem a toda a Igreja Diocesana.

Esta não é ocasião de fazer um resumo ou proceder a uma apreciação sobre os últimos anos, mas não posso deixar de referir e destacar certos acontecimentos que marcaram a vida diocesana e comunitária, por um lado de forma jubilar e grande dinamismo apostólico e por outro com razões de profundo sofrimento. Recordo as Visitas da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, em 2009-2010 (sete meses pelas paróquias e instituições) e em 2016 (três semanas na preparação do centenário das aparições); recordo também as comemorações jubilares dos 500 anos da Criação da Diocese (12 de Junho de 1514/2014), com a presença do Cardeal Filoni, legado Pontifício, e dos 500 anos da Dedicação da Sé do Funchal (18 de Outubro de 1517/2017); e ainda o acompanhamento dos Processos de Canonização da Irmã Maria do Monte (Hospitaleira); da Madre Virgínia Brites da Paixão (Clarissa) e da Irmã Mary Jane Wilson (fundadora das Irmãs Vitorianas), sendo esta declarada Venerável por Decreto Pontifício do dia 9 de Outubro de 2013.

Como não podemos esquecer a presença e ação solidária da Igreja, nas suas diversas instituições sociais e na ação de tantos cristãos, partilhando as alegrias e sofrimentos da população, em especial nos momentos marcados por maiores necessidades de apoio e carências.

Servidor da Esperança

Irmãos e Irmãs, há 12 anos, fiel ao chamamento que me foi dirigido pelo Papa Bento XVI e impulsionado pelo meu lema episcopal, "fiz-me ao largo". Deixei a Diocese do Porto, onde durante oito anos fui Bispo Auxiliar, e vim para o Funchal, como Bispo desta querida Diocese da Madeira e Porto Santo.

Trazia a recomendação do Santo Padre: trabalha de tal modo "que os fiéis a ti confiados sejam fortes na fé, alegres na esperança, solícitos na caridade e perseverem assíduos às mesas da Palavra e da Eucaristia".

Entretanto, na minha chegada ao Funchal, eu dizia: "Chegando à vossa terra queria sobretudo chegar ao vosso coração e tornar-me, como vosso Bispo, um servidor da esperança. Da esperança de Deus, da vossa esperança".

E ao escrever ao Papa Francisco, ao apresentar-lhe o pedido de renúncia por limite de idade (75 anos), eu afirmei: "Ao longo destes anos, aqui exerci o meu ministério, com empenho e alegria, vivendo momentos muito felizes, em grande proximidade com o nosso bom povo da Madeira e Porto Santo, e procurando assumir do mesmo modo, as exigências, dificuldades e sacrifícios, inerentes à missão".

Que me resta dizer-vos, agora, Irmãos e Irmãs? - Nesta hora de Eucaristia, lembrando em especial os nossos sacerdotes, amigos e colaboradores mais próximos, em profunda comunhão com toda a nossa Diocese e Região, eu dirijo a Cristo Sacerdote e Pastor, que me chamou ao Seu serviço e me consagrou com a plenitude do Sacramento da Ordem, o meu cântico de Louvor e de ação de Graças, pelas maravilhas que realizou, em toda a minha vida humana e pastoral.

Neste dia de bênção e de graça, unido a Maria-Mãe, Senhora do Monte, Senhora da Piedade, convosco canto jubilosamente: "A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador...O Senhor fez em Mim maravilhas, Santo é o seu nome".

Funchal, 11 de Abril de 2019

+António Carrilho

Bispo Emérito do Funchal