Homilia na Festa de Santo António

13-06-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na festa de Santo António

Funchal, 13 de Junho de 2018

Santo António, um jovem sonhador e apaixonado por Jesus!

Com grande esplendor e alegria, celebramos, no dia 13 de Junho, Santo António de Lisboa, o santo mais popular de toda a Igreja católica e mais conhecido em todo o mundo. O povo dedica-lhe profunda veneração e carinho e, com grande devoção e simplicidade, recorre, nos seus sofrimentos e dificuldades, á sua poderosa intercessão junto de Deus.

De origem nobre, António nasceu em Lisboa, em 1195, tendo sido batizado com o nome de Fernando de Bulhões. Desde muito jovem, sentiu o apelo de Deus, para uma vida de especial consagração e, aos quinze anos, ingressou na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Dotado de uma inteligência brilhante, dedicou-se com todo o empenho, primeiro em Lisboa e depois em Coimbra, ao estudo da Bíblia e dos Padres da Igreja, tendo adquirido uma admirável e invulgar sabedoria teológica.

Na luz da Sabedoria

A liturgia de hoje é um apelo a contemplar e a viver na verdadeira beleza e na clara luz da sabedoria de Deus, que, apesar de todas as controvérsias, brilha nas trevas deste mundo.

Integrada na literatura sapiencial judaica, a leitura que escutámos do livro de Ben-Sirá, convida-nos a mergulhar no mistério da sabedoria divina. Dela procede toda a luz e conhecimento, para vivermos a plenitude do amor de Deus, em todas as circunstâncias da vida. A Santo António, que se dedicou ao estudo bíblico- teológico e à oração, se aplicam as palavras do texto: "Aquele que medita na lei do Altíssimo, se for do agrado do Senhor omnipotente, será cheio do espírito de inteligência [...] Não desaparecerá a sua memória e o seu nome viverá de geração em geração. As nações proclamarão a sua sabedoria" (Eclo 39,8.14).

No Evangelho de São Mateus, Jesus, a Sabedoria eterna do Pai, surpreende os apóstolos com a novidade das suas palavras: "Vós sois o sal da terra...Vós sois a luz do mundo". O ensinamento de Jesus e a sua proposta de felicidade devem permear a vida do cristão e todo o tecido social: "Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus" (Mt 5, 16). A luz que desde o início da criação inundava a face da terra e o sal, que na cultura antiga oriental significava sabedoria, aliança, solidariedade e vida, devem resplandecer nos discípulos de Jesus. Iluminar e dar sabor à vida que levamos, torna-se um imperativo para todo o cristão, que permanece no amor de Jesus, a verdadeira Luz do mundo. "Os mandamentos do Senhor são claros e iluminam os olhos" (Sl 18B). A chegada do Reino inaugura um clima de sinceridade, de verdade, amor e esperança.

A força luminosa do testemunho

Foi na cidade universitária de Coimbra que o jovem religioso, Fernando, com a chegada das relíquias e ao escutar o testemunho dos cinco primeiros mártires de Marrocos, desejou imitá-los e partir imediatamente para terras de missão. Desejava ardentemente anunciar o Evangelho e dar a sua vida por Cristo. Decidiu, então, entrar na Ordem Franciscana, onde recebeu o hábito de S. Francisco e tomou o nome de Frei António. Mas Deus tinha outro plano para o audacioso e jovem pregador franciscano. Devido a um naufrágio e à doença foi obrigado a seguir para a Itália. Em Assis, teve a graça e a alegria de participar no "Capítulo das Esteiras" e de conhecer pessoalmente São Francisco, Fundador da Ordem dos Frades Menores.

Por ocasião de uma cerimónia de ordenação sacerdotal, tendo sido convidado a fazer o sermão, os frades ficaram estupefactos com a sua eloquência e profunda formação teológica. Perante tão grande talento e santidade de vida, os superiores enviaram-no logo a pregar o Evangelho da Paz e da Alegria. Percorreu as periferias, com opção preferencial pelos pobres, pregou na Itália, especialmente na cidade de Pádua, e na França. Com o seu luminoso exemplo e testemunho de vida, numerosas foram as conversões. "A linguagem é viva, quando falam as obras", diz Santo António.

Em Bolonha, deu início ao seu ensinamento, com a aprovação e bênção de São Francisco, que reconheceu logo no frade português a presença do "Espírito do Senhor e do seu santo operar", claramente manifesto na sua oração, fraternidade e profunda humildade. Por isso lhe pediu, através de um pequeno escrito, que ensinasse "as santíssimas palavras de Nosso Senhor aos seus frades".

"Arca do Testamento"

O Papa Gregório IX, depois de o ouvir pregar, com tanta sabedoria e eloquência, intitulou-o "Arca do testamento". Os seus sermões e milagres ficaram célebres. Neles fala da oração como mistério de encontro pessoal com Jesus Cristo, que contemplava, segundo o carisma franciscano. "Se pregas Jesus, Ele comove os corações duros; se o invocas, alivia das tentações amargas; se o pensas, ilumina o teu coração; se o lês, sacia-te a mente"(Sermones Dominicales et Festivi III).

Tinha constantemente, diante dos seus olhos e na sua vida, os mistérios da Encarnação do Verbo e de Cristo, o Pobre Crucificado. Neles contemplava o inefável amor do Pai e a altíssima dignidade humana, por quem Jesus nasceu e morreu. O eminente e insigne pregador percorria incansavelmente cidades e aldeias, anunciando Jesus, sem medo das intempéries e das dificuldades. Cansado e exausto do excessivo trabalho apostólico, a 13 de Junho de 1231 faleceu às portas da cidade de Pádua. Um ano depois da sua morte, devido aos numerosos milagres, realizados pela sua poderosa intercessão, foi logo canonizado.

Mais tarde, no pontificado de Pio XII, em 1946, devido à riqueza teológica e espiritual dos seus sermões, onde refulge a força e a beleza do Evangelho, o Santo Padre proclamou o humilde e sábio Frei António Doutor da Igreja e atribuiu-lhe o título de "doutor evangélico". Hoje mesmo, em Roma, o Papa Francisco se referiu a Santo António como "doutor da Igreja e patrono dos pobres".

Forte incentivo e apelo para a juventude

Ao fazermos memória, cheia de gratidão e de júbilo, da vida e testemunho de Santo António, encontramos um jovem ardente e sonhador, apaixonado por Jesus. O seu indiscritível amor a Cristo e à missão evangelizadora continua a ser um forte incentivo e apelo para a juventude atual.

O Papa Francisco, atento aos desafios do nosso tempo, convidou a Igreja a preparar um novo Sínodo dos Bispos com o tema: "Os jovens, a fé e o discernimento vocacional». E acrescenta o porquê desta opção: "Eu quis que vós, jovens, estivésseis no centro da atenção, porque vos trago no coração". Na carta que lhes dirigiu, Francisco afirmou ainda: "Não tenhais medo de ouvir o Espírito que vos sugere escolhas audazes, não hesiteis quando a consciência vos pedir que arrisqueis para seguir o Mestre. Também a Igreja deseja colocar-se à escuta da vossa voz, da vossa sensibilidade, da vossa fé; até das vossas dúvidas e das vossas críticas".

Queridos jovens: a Igreja caminha convosco, quer escutar o vosso coração de jovens com as suas inquietações, tristezas, alegrias, perplexidades e esperanças. Como podereis ser a luz do mundo? Diante de tantas guerras, de corrupção, abuso de poder, ignorância, tristeza, dor e morte, que devereis fazer para iluminar os irmãos e irmãs que sofrem? Na escola da Virgem Maria, a jovem de Nazaré, encontrareis a luz da verdadeira sabedoria. Ela acompanha-vos neste novo despertar para a vida, aponta os caminhos da autêntica liberdade, do serviço aos mais pobres e da alegria verdadeira.

Santo António, o eminente pregador do evangelho, deixou um testemunho eloquente e luminoso a todos os sacerdotes, religiosos, famílias, jovens e leigos que se dedicam ao anúncio da Palavra: conciliar uma vida de oração com o estudo das escrituras e da pregação. E pôr em prática aquilo que se anuncia, pois, como diz Santo António "A linguagem é viva, quando falam as obras".

Funchal, 13 de Junho de 2018

†António Carrilho, Bispo do Funchal