Festa de S. Franscisco Xavier

03-12-2018

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Festa de S. Francisco Xavier - O Apóstolo das Índias

Funchal, 03 de dezembro de 2018

"Ai de mim se não anunciar o Evangelho"!

Celebra a Igreja, neste dia 3 de dezembro, a figura notável de Francisco Xavier, que pela sua intensa ação missionária e evangelizadora, veio a chamar-se o Apóstolo das Índias. Nele, a palavra audaciosa de S. Paulo encontrou ressonância, despertou a consciência e a urgência da missão: "Ai de mim se não anunciar o Evangelho"!

A Luz desafiadora do Evangelho

A Palavra de Deus, que escutamos, é um clamor que nos leva ao encontro intimo com a pessoa de Jesus. Ela convida-nos a entrar na Luz desafiadora do Evangelho e a comunicar aos outros a Boa Nova da Paz e da Alegria.

Na Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios, somos convidados a proclamar, a denunciar as estruturas de pecado e a anunciar Jesus Cristo, Boa Nova e Luz para todos os povos. Com inteira liberdade e gratuidade, sem vaidades ou protagonismos, conforme a palavra do Apóstolo das gentes, somos enviados para a missão: "Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória, é uma obrigação que me foi imposta (1 Cor 9, 16).

Apesar dos sofrimentos, perseguições e sacrifícios inerentes, evangelizar é falar ao coração dos irmãos e irmãs e dizer-lhes que Deus é Amor! A Nota Pastoral da CEP, com o tema, "Todos, Tudo e Sempre em Missão", sobre o Ano Missionário, recorda-nos que, Paulo VI interpela-nos a "conservar o fervor do espírito e a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas..."

No relato do Evangelho, somos imersos novamente na Luz da Páscoa. Estamos face-a-face com o Senhor Ressuscitado, que permanece no meio dos apóstolos, lhes comunica o Espírito Santo e os envia em missão: "Ide e ensinai todos os povos, diz o Senhor: Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos". O dinamismo missionário brota verdadeiramente do mistério Pascal de Cristo, paixão, morte e ressurreição. Apesar das dificuldades, do pecado e falhas dos cristãos, na ação evangelizadora da Igreja, Deus permanece fiel. Cristo Ressuscitado está eternamente presente, comunicando o Seu amor, a Sua Paz e a força do Seu Espírito Consolador, Espírito de Amor e de Verdade.

Um jovem irrequieto e apaixonado por Jesus

São Francisco Xavier, de origem espanhola e de família nobre, nasceu no castelo de Xavier, em Navarra, no ano de 1506. O jovem Francisco, irrequieto e sonhador, dedicou-se aos estudos em colégios e frequentou a prestigiosa Universidade de Paris, Sorbonne, tendo adquirido uma formação académica superior, em filosofia e teologia. Foi ali, que encontrou Santo Inácio de Loiola, que viria a ser o fundador da Companhia de Jesus. Com sete colegas universitários, unidos pela amizade em Jesus Cristo, fez a sua consagração a Deus pelos votos de obediência, pobreza e castidade.

Numa linha de total fidelidade e obediência à Igreja, dirigiram-se a Roma a fim de pedir a aprovação pontifícia para a nova Ordem Religiosa, que viria a denominar-se Companhia de Jesus. É de assinalar a presença de Simão Rodrigues, o primeiro Jesuíta português. A Companhia surge como resposta às gravíssimas dificuldades que a Igreja enfrentava, no séc. XVI, sobretudo, a crise de autoridade papal, com a reforma protestante.

Pela mão de Deus, numa aventura de Infinito

Apaixonado por Cristo e animado pelo intenso ardor missionário, o Padre Francisco Xavier deixou a sua família, a sua terra e aceitou o desafio de evangelizar no Médio Oriente. A pedido de D. João III, que estava preocupado com a evangelização da Índia e dilatação da fé, veio para Portugal, na companhia do Padre Simão Rodrigues.

Enviado pelo Papa Paulo III, que lhe deu "amplos poderes para estabelecer e manter a Fé em todo o Oriente", seguiu na sua missão para a Índia. Nas periferias geográficas, ao lado dos mais carenciados e sem cultura, concretizou o seu ardente desejo e sonho missionário: gastou-se heroicamente ao serviço dos mais pobres. Numa das suas cartas, dirigida a Santo Inácio, ressoa a chama missionária, o profundo amor e compaixão pelos pobres e sem cultura: "Ao entrar nos povoados, as crianças não me deixaram rezar o Ofício Divino, nem comer, nem dormir, e só queriam que lhes ensinasse algumas orações".

As suas palavras de fogo interpelavam e contagiavam. Num olhar retrospetivo sobre a Europa, agora, infelizmente, tão descristianizada, acrescentou, pedindo reforços missionários: "Muitas vezes me vem ao pensamento ir aos colégios da Europa, levantando a voz como homem que perdeu o juízo, e, principalmente, à Universidade de Paris, falando na Sorbona aos que têm mais letras que vontade para se disporem a frutificar com elas". Para este admirável missionário, a formação académica devia estar ao serviço da evangelização, na escuta da sabedoria divina do Espírito Santo, no serviço e doação da vida pelos outros.

No seu incansável ardor missionário chegou ao Japão e desejava evangelizar a China. Mas desgastado e doente, pobre e sem recursos, faleceu, em Sanchoão, antes de entrar naquele país.

Por ter vivido heroicamente todas as virtudes, a Igreja reconheceu, em 1622, a santidade do grande missionário, no pontificado de Gregório XV.

Ser amor, no coração missionário da Igreja

Ser missionário implica não somente ir pelas paróquias, dioceses, países de missão. Anunciar Jesus e o Seu evangelho, compromete-nos a ser homens e mulheres de oração, de comunhão fraterna e de bens. O primeiro anúncio inicia-se na família, na escola, no trabalho, entre amigos, com o testemunho de vida. Quantos cristãos através do seu sacrifício e oração colaboram no trabalho evangelizador da Igreja! Não é por acaso que, ao lado de S. Francisco Xavier está Santa Teresinha do Menino Jesus, como padroeira das Missões. A humilde carmelita, quis ser "amor no coração da Igreja-Mãe". No silêncio da clausura, sem nunca ter deixado o seu Carmelo de Lisieux, entregou toda a sua vida em holocausto de amor e rezou muito especialmente pelos missionários.

A força dos jovens pelos caminhos da missão

Com profundo afeto, dirijo-me aos jovens, eles que estão cheios de força e de coragem e de alegria de viver: Não tenham medo de abrir o coração a Cristo, que é sempre jovem! "Anunciai em todos os povos as maravilhas do Senhor", como cantávamos no refrão do salmo 95.

O Santo Padre, nos seus apelos ao diálogo e escuta das novas gerações, pediu aos jovens: "A Igreja e o mundo precisam urgentemente do vosso entusiasmo. Sejam companheiros de estrada dos mais frágeis, dos pobres, dos feridos pela vida". Como `São Francisco Xavier, queridos jovens, gastai a vossa vida, com alegria e generosidade, por amor de Cristo e dos outros!

Nossa Senhora, Mãe da Igreja e Rainha das Missões, dá-nos muitos e santos missionários.

S. Francisco Xavier, Apóstolo das Índias, rogai por nós.

Funchal, 03 de Dezembro de 2018

†António Carrilho, Bispo do Funchal