Dia Mundial da Paz

01-01-2019

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Festa de Santa Maria, Mãe de Deus - Dia Mundial da Paz

Funchal, 01 de Janeiro 2019

"O Senhor volte para ti os seus olhose te conceda a paz".

Neste 52º Dia Mundial da Paz, sob a proteção e abençoados pela Santa Mãe de Deus, Rainha da Paz, iniciamos o Ano Novo na Alegria e na Luz do Menino de Belém. Boas Festas. Feliz ano de 2019 na Paz!

No limiar do novo ano, ainda na oitava do Natal, a Igreja convida-nos a mergulhar, com Maria, na contemplação do admirável mistério da Encarnação do Verbo de Deus. Jesus, o Príncipe da Paz, está entre nós, na fragilidade de uma criança. Rico em misericórdia, Ele oferece-nos a riqueza do Seu imenso amor, desde uma pobre gruta, que se abre à dimensão do universo, para nos acolher a todos, pobres e ricos, santos e pecadores.

Deus vem abençoar-nos e iluminar as trevas do nosso coração e da nossa história, libertar-nos dos nossos medos e angústias. "O Verbo era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem". Ele tem a chave e a proposta da felicidade, abre os nossos corações ao sol da Esperança e da Paz.

Maria, Mãe de Jesus

Desde as origens da Igreja, Maria é venerada como a Santíssima Mãe de Deus. Mas foi no Concílio de Éfeso, em 431, que foi proclamado solenemente o dogma da sua maternidade divina. Maria, a Cheia de Graça, é a Mãe de Cristo, e por isso a santa Mãe de Deus.

A centralidade da Palavra de Deus, que escutámos, hoje, põe em relevo a humanização do Verbo de Deus, o Filho Unigénito do Pai. O Livro dos Números, na primeira leitura, apresenta a solene bênção, que os sacerdotes invocavam, em nome de Deus, sobre o povo de Israel. A bênção litúrgica tem um sentido muito forte, significando a súplica e o dom da prosperidade e da paz: "O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz" (Nm 6,26).

Abençoada pelo Senhor Deus Altíssimo, com dons extraordinários, Maria tornou-se para nós bênção e medianeira de todas as graças. Ela fez acontecer a plenitude dos tempos, dando à luz o Filho de Deus, "nascido de uma mulher" (Gal 4,4), como refere S. Paulo na segunda leitura. Graças ao mistério Pascal de Cristo, o Espírito Santo foi derramado em nossos corações. O Espírito clama dentro de nós com gemido inefável: "Abba, Pai"(v.6), mais carinhoso "paizinho", Somos filhos amados do Pai.

Os pobres alegram-se com o nascimento de Cristo

Ao escutar a palavra do Anjo, os pastores dirigiram-se a Belém e, pelo sinal da pobreza, identificaram o menino numa manjedoura, como lhes fora anunciado. Jesus é o Messias dos pobres e são eles os primeiros a levar boa notícia. "Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto" (Lc 2,20). Quanto a Maria contemplava silenciosamente o mistério daquele Menino. As duas atitudes, diante do insondável mistério do amor de Deus, a de Maria e a dos pastores, são as duas faces da missão evangelizadora. Que belo programa para celebrar o Ano Missionário, que está a decorrer: contemplar e anunciar!

No final do texto do Evangelho proclamado, S. Lucas diz-nos que foi dado ao Menino recém-nascido o nome de Jesus. Conhecida por muitos povos do Oriente, a cultura israelita privilegiava a circuncisão, como sinal de pertença à comunidade: "Deram-Lhe o nome de Jesus" (v.21). A atribuição do nome, neste caso, não foi decisão dos seus pais, mas de Deus, conforme foi anunciado a Maria pelo Anjo. Jesus é um nome providencial e é todo um programa de vidaque quer dizer Salvador

Mensageiros e testemunhas da Paz

A paz que os anjos cantaram em Belém é uma glorificação de Deus no céu e inaugura, na terra, uma nova era de paz e de bênçãos divinas.

O Papa Francisco, na sua Mensagem para este Dia Mundial da Paz, dirigindo-se à comunidade internacional, sublinhou o dever e a necessidade de exercer um bom serviço político. Com a temática A boa política está ao serviço da paz, o Santo Padre leva-nos a refletir sobre alguns aspetos fundamentais para que seja possível viver-se em harmonia e construir a paz.

Em primeiro lugar diz-se que é preciso cada um estar em paz consigo próprio; em paz com os outros, fomentando as relações fraternas e finalmente com a natureza, a nossa casa comum, tão ameaçada e degradada pelas práticas e comportamentos egoístas da sociedade de consumo. O Papa evoca as "Bem-aventuranças da política" do cardeal vietnamita Francisco Van Thuan, falecido em 2002: "Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses".

A atividade política, o serviço da autoridade está destinado ao bem da comunidade e ao crescimento e desenvolvimento dos povos que lhes são confiados, em ordem à construção da paz: "A boa política está ao serviço da paz; respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, para que se teça um vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e as futuras" (Mensagem,3).

Os jovens no dinamismo da paz

Neste momento, não posso deixar de recordar o Sínodo dos Bispos sobre "os jovens, a fé e o discernimento vocacional". Em Roma, gerou-se uma onda de alegria juvenil, pois contou com a participação de jovens de diversas partes do mundo. Todo este encanto e envolvimento dos jovens culminará com a Jornada Mundial da Juventude, no Panamá, no fim deste mês de Janeiro.

Face à quase generalizada desconfiança da política, devido ao abuso do poder em muitos lugares, o Santo Padre afirma que "a política pode tornar-se verdadeiramente uma forma eminente de caridade". Pediu também que as novas gerações sejam envolvidas na corresponsabilidade e dinâmica da paz e não seja reservada apenas a uns privilegiados. "Por isso, a política é a favor da paz, se se expressa no reconhecimento dos carismas, qualidades e capacidades de cada pessoa" (n.5).

E o Papa finaliza a Mensagem, dizendo que a boa política pode inspirar-se no Magnificat de Maria, Mãe de Cristo Salvador e Rainha da Paz, que cantou o seu louvor e gratidão a Deus, em nome de todos os homens e mulheres.

Ninguém fica dispensado de construir a paz. Esta responsabilidade não é apenas dos políticos, de algumas instituições ou das comunidades internacionais. A Paz não é um mero equilíbrio de forças, é um dom do Espírito Santo; a paz é bela e frágil: a Paz é Jesus Menino, que está envolto em panos, deitado numa manjedoura. A fragilidade da paz precisa de ser cuidada com delicadeza, ternura e amor.

Que a Luz do Verbo de Deus, de permeio com tantos sofrimentos, injustiças e guerras, inunde de paz e amor a Humanidade, sedenta de Paz e carente de Essencial. A todos desejo um feliz Ano 2019, rico de Paz e das maiores bênçãos e graças do Senhor.

Relembrando a fórmula de bênção da primeira leitura, desejo a todos "Que o Senhor Vos abençoe e vos guarde; volte para vós o Seu olhar e vos conceda a Paz; que o Senhor se compadeça de nós e nos abençoe"!

Ó Maria, Rainha da Paz, rogai por nós.

Funchal, 01 de Janeiro 2019

†António Carrilho, Bispo do Funchal