Papa Francisco desafia jovens a sair do sofá

De 27 a 31 de julho, o Papa Francisco esteve reunido com uma imensidão de jovens, provenientes de todos os continentes, na terra natal do Santo Padre João Paulo II, a cidade de Cracóvia, na Polónia, na Jornada Mundial da Juventude. Um encontro mundial que acontece de três em três anos. Aí é escolhida uma cidade para a próxima jornada. A primeira jornada aconteceu em 1986, em Roma, com o Papa João Paulo II, o mentor das Jornadas Mundiais da Juventude. Depois em Buenos Aires, Compostela, Czestochowa (Polónia), Denver, Manila, Paris, Roma, Toronto, Colónia, Sydney, Madrid, Rio de Janeiro e este ano em Cracóvia. A próxima será no Panamá, em 2019.

Para cada jornada escolhe-se um versículo bíblico como tema, um hino, um logótipo. Toda a jornada é um encontro de cerca de uma semana com vários momentos de oração, catequeses, visitas culturais, reflexão, convívio, peregrinações. Para todos os jovens que participam, os testemunhos são sempre de alegria, de amizade e de fraternidade geradas pelo encontro. No regresso aos seus países, são chamados a testemunhar essa alegria aos outros jovens.

Trata-se de um grande encontro de jovens provenientes do mundo inteiro, reunidos num mesmo local para celebrar Cristo vivo e presente no meio deles. Reunidos para celebrar a fé. Reunidos para renovar a amizade com Jesus e a vontade firme de O seguir e amar. E a melhor maneira de renovar a amizade com Jesus é partilhar essa amizade com outros jovens. Já vivi uma Jornada da Juventude, em Roma, e foi impressionante perceber a variedade de culturas e línguas que se reúnem para celebrar Cristo vivo e presente em unidade e comunhão. Recordo cantar os mesmos cânticos da missa juntamente com jovens do Hawai. Mudava a língua, mas a fé e a música eram as mesmas.

Para esta jornada, integrada no Jubileu da Misericórdia, foi escolhido o tema bíblico: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia” (Mt 5,7).

“O mundo está em guerra!”. Foram estas as palavras do Papa na viagem de Roma para a Polónia. Toda a Jornada acontece num mundo assustado pelo terror e pela guerra. Muitos são os jovens provenientes de cenários de guerra e de terrorismo. E é neste mundo que o Papa apela aos jovens a serem a esperança, a não desistirem da vida, a não viverem na angústia ou no medo, mas a pedirem a Deus a força e a coragem para reagir fazendo do bem e construindo da paz. Exorta-os a não reagirem ao mal com mais mal, ao ódio com mais ódio. A nossa resposta a este  mundo em guerra tem um nome: chama-se fraternidade. Aos jovens o Papa apresentou duas opções: ou construir muros ou construir pontes. O cristão é aquele que não desiste de construir o diálogo, o entendimento e as pontes humanas entre todos. O Papa desafiou os jovens a dizerem um forte “sim” à mudança. O mundo pode mudar para melhor e os jovens podem iniciar esta mudança.

O Papa emocionou os jovens ao recordar um rapaz de 22 anos, designer gráfico, voluntário nas jornadas, autor de muitos desenhos das bandeiras e do kit do peregrino, que faleceu a 2 de julho, vítima de um cancro. Precisamente nesse trabalho de voluntariado reencontrou a sua fé. Ele queria tanto chegar vivo à jornada. Foi um jovem corajoso que fez tanto bem.

Dirigindo-se aos jovens, o Papa afirmou que não há nada mais triste que ver um jovem “reformado”, um jovem “aposentado”. É triste ver jovens que desistiram da vida e de sonhar. Jovens com caras tristes. Jovens chateados com a vida e a chatear os outros. Chamou a atenção para o perigo de procurar a vida por caminhos obscuros e nocivos e que, depois acabam por pagar bem caro e vazios. Por isso, os jovens juntos são mais fortes e um suporte para que nada nem ninguém lhes possa roubar a alegria e os sonhos com falsas ilusões. A resposta para a felicidade não está nas ilusões, mas numa Pessoa. Chama-se Jesus Cristo. E os jovens podem segui-l’O. Só Cristo sabe dar verdadeira paixão à vida. É Aquele que nos ajuda a erguer-nos sempre que nos damos por vencidos. É Ele que nos impele a levantar e a olhar e a percorrer novos e mais vastos horizontes.

O Papa Francisco exorta os jovens a lançarem-se na aventura da misericórdia. Na aventura de socorrer o pobre ou quem se sente sozinho e abandonado, quem já não encontra sentido para a vida. A olhar para aqueles que não têm fé e a fazer caminho com eles. “A vida é plena quando é vivida a partir da misericórdia” - disse o Papa aos jovens.

O Papa nestas jornadas visitou, em silêncio, os campos de concentração. Foram imagens fortíssimas que valeram mais que mil palavras. No meio daqueles campos sobressaía a figura branca do Papa a rezar. Impressionante vê-lo na sela do padre São Maximiliano Kolbe que deu um sublime testemunho de amor entregando a sua vida para salvar a de um pai de família. O Papa permaneceu na sua sela em silêncio e a rezar por todos os que sofrem, vítimas do terrorismo, da violência, da crueldade. Foram imagens que transmitiam, ao mesmo tempo, serenidade e paz, frutos da oração. Transmitiam que o amor é mais forte que o ódio. Que o amor é eterno.

O Papa falou aos sacerdotes e disse-lhes que na nossa vida há um único sentido: sair de nós mesmos para encontrar os outros. Trata-se de realizar a saída de nós mesmos, de perder a própria vida por Cristo, seguindo o caminho do dom de nós mesmos. Jesus não gosta de portas entreabertas, de vidas duplas. Pede para sair, para se meter à estrada, leves, para sair renunciando às próprias seguranças, firmes apenas em Cristo. Jesus espera por nós, quer que partilhemos a vida com Ele, que contemos a nossa jornada e tudo o que fizemos. As coisas boas e as coisas más da vida devem ser partilhadas com Cristo na oração, confiando na misericórdia de Deus. Possamos como sacerdotes reavivar, em nós, a força do primeiro chamamento que é mais forte do que a fraqueza. Que é mais forte do que o próprio cansaço.

Na Vigília de oração, o Papa chamou a atenção para o perigo de se deixar paralisar. Fechar-se e paralisar diante do medo ou fechar-se e paralisar numa vida cómoda, parada. Jovens que vivem sentados num sofá. Confundem a felicidade com um sofá. Felicidade para estes é ficarem acomodados, tranquilos, fechados em casa a jogar videojogos, adormecidos, pasmados e entontecidos. E diante deste adormecimento, outros mais astutos, mas não os melhores, decidem o futuro por eles. Queremos jovens fora do sofá. Jovens a lutar pelo futuro. Jovens vigilantes e livres. Jovens a decidir o seu futuro. Viemos a este mundo não para estar de sofá, mas para deixar uma marca na vida. Decididos a ir mais longe com Cristo. Decididos a trocar o sofá por sapatos que nos ajudem a caminhar por estradas nunca sonhadas. Caminhar pelas estradas do nosso Deus que nos convida a agir, a transformar o mundo e a pensar uma economia mais solidária.

Aos jovens, em Cracóvia, aos jovens do mundo inteiro, a todos nós, o Papa disse, na missa de encerramento, que nada nos pode separar do amor de Deus. Deus ama-nos como somos, e nenhum pecado, defeito ou erro Lhe fará mudar de ideia. Somos importantes para Deus, disse o Papa. Deus sempre nos aguarda com esperança, mesmo quando nos fechamos nas nossas tristezas e dores, remoendo continuamente as injustiças recebidas e o passado.

Os jovens vão voltar para casa. Regressarem às suas vidas. Mas na bagagem transportam Cristo e o desafio de construir uma nova Humanidade.

O Papa anunciou que a próxima Jornada acontecerá no Panamá, em 1919. Não sabe se estará presente. Sabe que, com certeza, estará Pedro. Isto é, com certeza estará o Papa, sucessor de Pedro.

Padre Marcos Gonçalves

(in Funchal Notícias, 03/08/2016)

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