Palavras de D. António Carrilho, Bispo do Funchal, na sessão comemorativa dos 508 anos da Misericórdia do Funchal

Palavras de D. António Carrilho, Bispo do Funchal, na sessão comemorativa dos 508  anos  da Misericórdia do Funchal

Palavras de S. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na sessão comemorativa dos 508  anos

da Misericórdia do Funchal

Funchal, 27 de Julho de 2016

 

Misericordiosos como o Pai!

 

É com muita alegria que me encontro aqui, convosco, neste ato comemorativo dos 508 anos da fundação da Santa Casa da Misericórdia do Funchal.

Saúdo e felicito, pela iniciativa desta conferência “Misericórdia – Misericórdias”, a Mesa Administrativa com todos os demais Órgãos Sociais, com os Irmãos, colaboradores e benfeitores, a quem também agradeço a dedicação e entrega à nobre causa do serviço à população, nas diversas carências e valências, em que a Santa Casa presta, atualmente, a sua melhor atenção e ajuda. Desde já felicito e agradeço aos conferencistas pela mensagem espiritual e dinamismo inconformista, que nos deixam, perante os novos desafios da Igreja e da sociedade atual.

Nesta memória histórica da fundação da Santa Casa de Misericórdia do Funchal, a 27 de Julho de 1508, unindo o passado e o presente num abraço solidário e amigo, afirmamos a sublime dignidade humana e o infinito Amor de Deus, proclamado de forma tão significativa pelo Papa Francisco com o Ano Santo da Misericórdia e o convite a sermos misericordiosos como o Pai, no acolhimento aos mais “pequeninos” do Reino, tão amados por Jesus: as crianças, os idosos, os pobres, doentes e desprotegidos.

Inspiradas no texto de São Mateus, as Santas Casas de Misericórdia têm um fundamento e um objetivo cristão, evangélico e eclesial: tornar visível, através de mediações humanas, o Coração de Deus e o Seu amor indiscritível por todos os homens e mulheres, particularmente pelos que mais sofrem no corpo ou no espírito. “Tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes; estava nu e Me vestistes; adoeci e fostes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me.” Onde e quando é que fizemos isso? “Sempre que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos a Mim mesmo o fizestes” (cf. Mt 25,34-46). A caridade evangélica contempla a unidade e totalidade da pessoa!

O espírito de misericórdia é um espírito aberto de “fazer o bem, sem olhar a quem”, com um coração grande, inspirado no mandamento novo do amor fraterno e em especial no testemunho do próprio Senhor Jesus, que deu a Sua Vida, como maior prova de amor, e apontou para os Seus discípulos idêntica proposta de vida: “Nisto conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 13, 35).

Santa Isabel e D. Leonor

Neste ano Jubilar da Misericórdia, a Igreja não pode deixar de recordar a figura insigne da Rainha Santa Isabel de Portugal, falecida a 4 de Julho de 1336, e o seu testemunho de admirável caridade, junto dos mais pobres, doentes e excluídos. Padroeira das Misericórdias, a Rainha Santa tornou visível o Rosto da Misericórdia de Deus: “Deus tornou-me rainha para me dar meios de fazer esmolas.” Este amor aos pobres, nem sempre compreendido pelo marido, o Rei D. Dinis, chegou até nós na famosa cena do “milagre das rosas”, que todos nós bem conhecemos: “São rosas, meu Senhor”.

Mas não podemos esquecer, também, a Rainha D. Leonor, esposa de D. João II: foi ela quem consolidou as Misericórdias em Portugal. A 15 de Agosto de 1498 fundou, em Lisboa, a primeira Santa Casa de Misericórdia com estatutos aprovados, para fazer face aos numerosos “órfãos, viúvas, desgraçados, pedintes e enjeitados” dessa tão conturbada época histórica.

Como bons samaritanos

Se foram muitas as necessidades em épocas passadas, são muitas também hoje, ainda que, eventualmente, com características e dimensões diferentes, as carências a que urge dar respostas adequadas.

Nos novos cenários de crise e de pobreza, face aos desafios de futuro, a Igreja reconhece a atualidade das Misericórdias, a sua capacidade de resposta, valor social e espiritual. Elas são o “Bom Samaritano”, que se inclina à beira da estrada da vida para escutar, acompanhar e cuidar das irmãs e irmãos, feridos no corpo ou na alma.

Sabemos como muitas pessoas são, atualmente, atingidas nas suas necessidades básicas, com reflexos profundos no modo de olhar a vida, na falta de estabilidade familiar e suas consequências, tanto na relação entre o casal como no cuidado dos filhos; dificuldades, ainda, no caso de muitos idosos, sobretudo no campo da saúde e bem-estar. Mas hoje, também, podemos dar graças a Deus, porque se tem desenvolvido o sentido da solidariedade e do voluntariado, tem aumentado o número de instituições sociais em campos especializados e crescido o apoio por parte das instituições públicas.

Na presente conjuntura social e económica há que unir esforços e promover parcerias, sem que nunca se perca a verdadeira responsabilidade das instituições privadas e dos poderes públicos, cujo objetivo e grande aposta será sempre perspetivar caminhos de desenvolvimento e justiça social. Esta, porém, como escreve Bento XVI, nunca poderá dispensar o sentido do amor-caridade na relação entre as pessoas, não tanto para obviar a carências materiais mas para assegurar caminhos de verdade e comunhão, respondendo às exigências espirituais da felicidade humana (Cf. Verdade na Caridade).


E termino, formulando os meus votos do maior sucesso para toda a vossa atividade! Obrigado por tudo o que tendes feito até hoje e pelo que tendes em projeto fazer, sulcando as 14 Obras de Misericórdia, com fé, confiança e coragem. É este o compromisso das Santas Casas. É o repto de cada tempo, a provocação de todos os tempos, o grito do nosso tempo. Nunca percais de vista a vossa identidade, o que sois e a quem servis!

 

Funchal, 27 de Julho de 2016

 

 

† António Carrilho, Bispo do Funchal

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