Homilia na Festa do Corpo de Deus

Homilia na Festa do Corpo de Deus

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

Funchal, 26 de maio de 2016

 

Eucaristia, fonte de Misericórdia

 

Caríssimos Diocesanos da Madeira e do Porto Santo:

Aqui nos encontramos, no centro do Funchal, numa das praças mais caraterísticas da cidade, para celebrar publicamente a nossa fé na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia: é a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo.

Daqui saúdo, com muita alegria e amizade, todos os nossos diocesanos e emigrantes, vós aqui presentes e quantos nos acompanham através da rádio e da internet. Rezemos, pois, uns pelos outros, solidários com os problemas, desejos e necessidades de cada um, dando graças a Deus pelas alegrias da vida e confiando ao Seu Amor misericordioso as aspirações mais profundas dos nossos corações.

Rezamos, em particular, por todos os doentes e idosos e pelos ministros da comunhão, que percorrem as suas casas a distribuir o Pão da vida. Rezamos, também, pelos Irmãos das Confrarias do Santíssimo Sacramento aqui presentes, pelo testemunho de amor à Eucaristia, que é próprio da sua identidade pastoral. E saudamos as Irmandades das Misericórdias da Madeira, aqui representadas, que durante toda esta semana (23-31 de Maio) concretizam o projeto de uma “Semana da Misericórdia” e que, nesta circunstância, trazem ao nosso pensamento todas as outras instituições socio caritativas da Diocese.

Celebrar o Corpo de Deus no Ano Jubilar

Toda a nossa celebração é uma manifestação de fé pública. A fé não pode ficar apenas fechada nas nossas igrejas: deve irradiar e comunicar-se, para tocar e transformar a realidade do mundo em que vivemos. Queremos uma Igreja em saída, uma fé traduzida em novas atitudes e portas abertas, para que os cristãos anunciem a alegria do Ressuscitado nas suas vidas e levem aos outros a “alegria do Evangelho”. Uma Igreja que seja sinal do amor e da misericórdia de Deus, verdadeiro “oásis” de misericórdia.

Celebramos a Festa do Corpo de Deus em pleno Jubileu da Misericórdia. Na Bula da Proclamação deste ano especial de graça, o Papa Francisco convida-nos a refletir sobre as obras de misericórdia corporais e espirituais. Não se trata apenas de refletir e saber enumerar essas obras, pois o mais importante é pô-las em prática, dar vida a cada uma delas nas nossas atitudes. São “obras”, porque são gestos e ações concretas, que nos aproximam de Deus e nos aproximam uns dos outros em fraternidade, em justiça e caridade. São “obras” que manifestam a identidade dos cristãos, como discípulos de Jesus.

A Eucaristia é a verdadeira “porta da misericórdia”, por onde jorra a infinita caridade de Cristo para toda a Igreja e a Humanidade, como do Seu Lado trespassado na cruz. Somos, por isso, convidados a abrir as “portas santas”, não apenas das nossas igrejas jubilares, mas sobretudo as portas dos nossos corações, tantas vezes fechados pelo egoísmo e desamor. Somos chamados a responder aos desafios da atualidade, na ajuda aos nossos irmãos que habitam as chamadas “periferias existenciais” da sociedade.

“Dai-lhes vós de comer”

Na primeira leitura (Gen 14,18-20), o sacerdote-rei Melquisedech oferece um sacrifício com pão e vinho. É já sinal do que haveria de acontecer na ceia pascal de Jesus, em quinta-feira santa, e sempre que a repetimos em Sua memória. O pão e o vinho tornam-se sinais da presença real d’Aquele que Se entregou totalmente, dando a Sua vida para que nós tivéssemos Vida em abundância.

São Paulo, na segunda leitura (1Cor 11,23-26), transmite-nos o texto mais antigo das palavras de Jesus na Última Ceia: pão e vinho consagrados, Corpo e Sangue entregues por cada homem e cada mulher. A Eucaristia é, assim, o amor de Jesus por cada um de nós, traduzido em sinais, que atualizam o Seu sacrifício e perpetuam a Sua presença.

No Evangelho de São Lucas (9,1-17), há pouco proclamado, vemos que um grande número de pessoas (cerca de cinco mil homens) tinha passado o dia com Jesus, a escutar a Sua Palavra. Ao fim da tarde, aquela gente está cansada e tem fome. Jesus enche-Se de compaixão e quer saciar essa fome. Então diz aos apóstolos: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Mas eles só têm cinco pães e dois peixes. Como é possível alimentar tanta gente com tão pouco? É que o pouco, com Deus, transforma-se em abundância e multiplica-se: um coração que se encontra com Deus não vive para si mesmo, não guarda tudo para si; sabe partilhar, sabe dar. E pensando nós na sociedade atual, como seria importante educar e ajudar os mais novos a crescerem na grandeza do dar, do partilhar, do sair de si mesmos, para construir um mundo melhor, onde todos possam ter um lugar condigno.

Sinais da Misericórdia de Deus

“Dar de comer a quem tem fome” e “dar de beber a quem tem sede” são as primeiras e básicas obras de misericórdia. Encerram em si mesmas o valor da generosidade e da partilha, do “dar” aos outros. Na verdade, importa olhar e ver com o coração, perceber as necessidades do próximo e saber partilhar, criar condições, a nível das diferentes responsabilidades pessoais e sociais, para que todos possam viver com dignidade.

As obras sociais da Igreja pretendem ser a expressão generosa deste “dar”, amando. Todos os dias, mesmo na maior discrição, são muitos aqueles que fazem o bem,  partilhando os seus bens e a vida com quem mais precisa. O mesmo acontece com muitas famílias que se entreajudam, cuidando dos seus membros; com os vizinhos que velam por quem não tem ninguém; e com o empenhamento de muitas instituições da nossa sociedade.

Como disse o Papa Bento XVI, mesmo na sociedade mais justa há sempre espaço para a caridade! E para nós, crentes, toda a atenção, cuidado e ajuda que possa existir entre as pessoas, é já um sinal de esperança, um sinal da presença amorosa de Deus, que Se torna próximo, através da nossa própria relação de proximidade e serviço fraterno, como no caso do Bom Samaritano.

Presença e compromisso

 

Para nós, a Eucaristia é o dom por excelência de Cristo à Sua Igreja, fonte de misericórdia, comunhão e unidade. A Eucaristia é presença real e viva de Jesus Cristo no meio do Seu povo, Pão da Vida, alimento da nossa caminhada de Peregrinos neste mundo. É o centro da nossa vida cristã, sacramento da nossa entrega com Cristo ao Pai. “Ó precioso e admirável banquete, salutar e cheio de toda a suavidade! Que há de mais precioso que este precioso banquete”, exclama S. Tomás de Aquino, o exímio cantor da Eucaristia. Na verdade, a Eucaristia é o maior tesouro espiritual da Igreja.

Na Igreja e na sociedade atual, urge ter consciência desta presença de Cristo Ressuscitado. Ele caminha connosco, como outrora em Emaús. Com a força da Palavra cura as nossas feridas, desilusões e medos, e aviva a nossa fé; ajuda-nos a vencer as nossas lutas e dificuldades; aponta-nos um futuro de esperança na construção da paz e da justiça; abre caminhos de reconciliação e comunhão fraterna entre todos; e oferece-nos um novo sentido para a vida.

A Eucaristia tem sempre um carácter e compromisso social, porque é exigência de comunhão com os outros (cf. Bento XVI, Sacramento da Caridade, 89). E a Igreja, porque vive da Eucaristia, é chamada a saciar as novas sedes e fomes da Humanidade, oferecendo o pão da amizade, da alegria, do perdão, da ternura, do sorriso amigo, da esperança e do serviço gratuito, enfim, a intensificar a solidariedade e a fraternidade, neste tempo de profundas mutações.

Viver a fé na família

Nesta época do ano pastoral, nas nossas comunidades paroquiais, temos vindo a celebrar as primeiras comunhões das crianças. É um tempo de relevante importância para a vivência da fé das famílias. O Santo Padre sublinha a importância do testemunho e da oração, solicitando a presença do Espírito Santo, nos momentos de alegria ou de tristeza, como meio privilegiado para reforçar a fé pascal, em família. “O caminho comunitário da oração atinge o seu ponto culminante ao participarem juntos na Eucaristia (pais e filhos), sobretudo no contexto do descanso dominical. Jesus bate à porta da família, para partilhar com ela a Ceia Eucarística” (A alegria do amor,318). Na Eucaristia, descobrimos a fonte do dinamismo missionário e a alegria de anunciar Jesus, também num esforço de transmissão e educação da fé no ambiente familiar.

Cristo vivo nas ruas da cidade

Após esta celebração eucarística teremos a tradicional procissão pelas ruas da nossa cidade, ornamentadas com belos tapetes de flores. É Cristo vivo que vai passar! Esta bela tradição eucarística, vivida com fé e amor na presença real de Jesus na Eucaristia, bem nos faz recordar as caminhadas de Jesus, quando, outrora, percorria as estradas da Palestina, acolhendo todos os que O procuravam, privilegiando as crianças, os pobres e os doentes, “porque saía d’Ele uma força que a todos curava” (Lc 6,19).

Que Jesus, ao percorrer as nossas ruas e colocar o Seu olhar sobre aqueles que encontra nestes caminhos ou Lhe dirigem uma prece do silêncio das suas casas ou do sofrimento dos seus corações, a todos conforte na coragem da fé e na alegria da esperança!

 

E que a Virgem Maria, Senhora do Santíssimo Sacramento, nos ensine a viver, em cada dia, as exigências de uma verdadeira cultura eucarística, que promove o diálogo, o respeito, a amizade sincera e a partilha do pão da fraternidade.

 

Funchal, 26 de Maio de 2016

 

† António Carrilho, Bispo do Funchal

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