Homilia do Bispo do Funchal nas Ordenações Sacerdotais

Homilia do Bispo do Funchal nas Ordenações Sacerdotais

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,
na Eucaristia das Ordenações Presbiterais
 
Sé do Funchal, 23 de julho de 2016

 

Sacerdotes com o Coração do Bom Pastor

 

Alegra-se e rejubila a Igreja do Funchal, alegra-se e rejubila toda a Igreja, porque aqui, neste dia, o Senhor mais uma vez colocou sobre ela os Seus olhos de misericórdia, concedendo-lhe a graça de dois novos sacerdotes para o serviço da Diocese.

Olhando, agora, para vós, caros Diáconos José Alberto Gomes Vicente e Vítor Manuel Baeta de Sousa, que, dentro de alguns momentos, ides receber a ordenação sacerdotal, eu vos saúdo com muito carinho e amizade, em profunda comunhão nos sentimentos desta hora.

 

A nossa gratidão

Saudar-vos, neste dia, leva-me a saudar, também, com muito afeto de Pastor, todos quantos entraram no caminho da vida de cada um de vós e vos acompanharam, tornando possível a grande festa de hoje: familiares e amigos, sacerdotes e catequistas. Saúdo e felicito, particularmente, as vossas famílias e paróquias: Nossa Senhora da Nazaré (Funchal) e Atouguia (Calheta). Aqui estão os vossos filhos! É nas comunidades cristãs que nascem e crescem as vocações de especial consagração!

E manifesto, também, o mais profundo reconhecimento e gratidão a quantos vos apoiaram e orientaram no caminho do discernimento vocacional e da preparação para a vida sacerdotal: os responsáveis pela vossa formação, os Seminários e a Universidade Católica, as paróquias que vos acolheram em estágio pastoral e todos quantos vos testemunharam a beleza do seguimento de Cristo.

O Senhor vos chamou ao sacerdócio; o Senhor quer contar convosco para continuar no mundo a Sua missão. Ele vos chamou para exercer na Igreja, o ministério sacerdotal ao serviço de todo o Povo de Deus. Sacerdotes com o coração misericordioso do Bom Pastor.

 

Anunciar Cristo e o Seu Evangelho

O belo cântico poético de Isaías, que acabámos de escutar na primeira leitura (Is 61, 1-3), introduz-nos no mistério do chamamento e missão do Messias esperado: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a Boa Nova aos infelizes, a curar os corações atribulados...” (Is 61,1). Jesus anunciou a chegada da plenitude dos tempos com a proclamação deste texto de Isaías, aquando da Sua visita à sinagoga de Nazaré. O sacerdote da Nova Aliança é ungido para anunciar a Boa Nova da Paz e da Alegria.

Também no contexto do mundo atual, o presbítero, que ama apaixonadamente a Deus e o Seu Povo, tem de aparecer como Sacramento de Cristo, Rosto visível do Amor e da Misericórdia junto de todos os homens e mulheres, mas sobretudo daqueles que mais precisam de ajuda, quando a tristeza, o vazio e a solidão se fazem sentir nas suas vidas. Bento XVI dizia-nos que o sacerdócio não é uma "profissão", mas um "Sacramento": "Deus serve-se de um simples homem a fim de estar, através dele, presente entre os homens, e agir em seu favor".

Na segunda carta aos Coríntios (4, 1-2.5-7) São Paulo salienta a grandeza do ministério apostólico, graça e maravilhoso dom de Deus, e a fragilidade dos “vasos de barro”, que somos nós próprios, transportando esse belo “tesouro do nosso ministério” sacerdotal. Consagrados na Verdade e servos de todos, os sacerdotes são chamados, no hoje da história, a anunciar Jesus Cristo, o Esplendor da Glória do Pai, para que todos tenham Luz e Vida em abundância: “Deus fez brilhar a luz em nossos corações, para que se conheça em todo o seu esplendor a glória de Deus, que se reflete no rosto de Cristo”(2 Cor 4,6). Cristo é, afinal, o centro da história da salvação!

A alegria do seguimento do Mestre

O texto evangélico de São Lucas (5, 1-11) diz-nos que Jesus Se apresentou na praia, dialogou com os pescadores, que “estavam a lavar as redes”, na sua faina da pesca. É assim: Deus entra na vida concreta das pessoas, pelo que qualquer momento do nosso dia está carregado da presença e do mistério do Amor de Deus; o importante é saber reconhecê-l’O na diversidade dos Seus sinais e apelos.

Depois de uma noite sem terem pescado nada, à palavra de Jesus “lançaram as redes” e a surpresa foi grande: uma pesca abundante, com os barcos quase a se afundarem, tal era a quantidade de peixes. Diante do assombroso acontecimento, Pedro pressente a presença sobrenatural e a grandeza divina daquele Homem, que depois os convidou a segui-l’O.

Não são os discípulos que escolhem seguir Jesus, mas é Jesus que os escolhe. A iniciativa é sempre do Senhor que chama, porque nos ama: Ele precede o nosso “sim” frágil, tornando-o forte, responsável e dinâmico. Desde aquele momento a praia alargou-se no horizonte e os pescadores (Pedro, Tiago e João) deixaram tudo, a família e a atividade profissional, e partiram com Jesus para uma aventura divina que não terminaria.

Lembra-nos o texto: “Daqui em diante serás pescador de homens. Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus”(Lc 5,11). A simbologia dos barcos e das redes, usada por Jesus, era uma linguagem conhecida destes homens do mar, de coração humilde mas determinado a seguir o Mestre até às últimas consequências.

Viver o Sacerdócio na Igreja Diocesana

Queridos sacerdotes, Jesus chamou-nos não apenas para escutar e anunciar a sua Palavra de Vida, mas para estarmos sempre com Ele, na Sua intimidade, assumindo alegremente, na nossa vida concreta, o Seu estilo de vida e de comunhão na entrega total ao serviço do Reino.

Colaboradores diretos do Bispo no ministério do sacerdócio, também os novos presbíteros ficam unidos entre si na comunhão sacramental e fraterna do presbitério diocesano. A solicitude, a partilha e a conjugação dos nossos esforços na oração, no estudo e na ação pastoral constituem, sem dúvida, uma grande força, que ajuda a viver, em fidelidade e unidade, os compromissos assumidos igualmente por todos, em inteira liberdade, na ordenação sacerdotal.

A caridade pastoral do sacerdote, que nasce do sacrifício eucarístico e nele encontra a sua plena realização, deverá abrir-se não só à sua própria paróquia ou serviço pastoral, mas ao horizonte alargado da Igreja Diocesana e Universal. E face aos desafios da nossa sociedade globalizada, urge privilegiar a pastoral do acolhimento, a evangelização da cultura, da família, dos jovens, dos novos meios de comunicação e a preparação de agentes pastorais. Temos de nos capacitar sempre mais e preparar as nossas comunidades para corresponderem, com eficácia, às exigências dos tempos de hoje. Daí a necessidade da formação contínua, humana, teológica, espiritual e pastoral.

Ano Santo da Misericórdia

Escolhemos este dia das Ordenações para celebrarmos o Jubileu dos Sacerdotes da nossa Diocese, respondendo nós também aos apelos e propostas do Papa Francisco a toda a Igreja, na Bula de proclamação do Ano Santo da Misericórdia, e mais especificamente na mensagem que nos deixou no Jubileu Mundial dos Sacerdotes, em Roma, nos dias 1 a 3 de Junho, por ocasião da solenidade do Sagrado Coração de Jesus.

Convidando-nos, então, a fixarmos “o olhar em dois corações: o coração do Bom Pastor e o nosso coração de pastores”, é do Papa Francisco esta grande interpelação aos sacerdotes, que hoje também ressoa para nós: “À vista do Coração de Jesus, surge a questão fundamental da nossa vida sacerdotal: para onde está orientado o meu coração? Uma pergunta que nós sacerdotes, nos devemos pôr muitas vezes, cada dia, cada semana: para onde está orientado o meu coração? O ministério aparece, com frequência, cheio das mais variadas iniciativas, que o reclamam em tantas frentes: das catequeses à liturgia, à caridade, aos compromissos pastorais e mesmo administrativos. No meio de tantas atividades, permanece a questão: onde está fixo o meu coração? Para onde aponta o coração? Qual é o tesouro que procura? Porque - diz Jesus – “onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,21).

E acrescenta “Os tesouros insubstituíveis do Coração de Jesus são dois: o Pai e nós […] Também o coração do pastor de Cristo só conhece duas direções: o Senhor e as pessoas”, está fixo em Deus e nos irmãos. Já antes o Papa havia escrito que a nossa missão é unir dois corações que se amam: o do Senhor e os do Seu Povo (Alegria do Evangelho, 143).

À semelhança do Bom Pastor

Neste Ano jubilar não podemos deixar de sentir o desafio de espelhar no nosso rosto de sacerdotes o rosto da misericórdia que é Cristo. Seja, pois, a misericórdia a trave mestra de toda a nossa ação pastoral. Na verdade, o sacerdote que anuncia a Palavra e celebra os Sacramentos, é também aquele que preside à caridade e proclama a misericórdia de Deus, não só por palavras mas pelo seu testemunho, pela sua forma de viver e relacionar-se com os outros. É padre para todos e não apenas para alguns. Como diz o Papa Francisco: “Ninguém fica excluído do seu coração, da sua oração, do seu sorriso. Com olhar amoroso e coração de Pai, acolhe, inclui e, quando tem que corrigir é sempre para aproximar; não despreza ninguém” (No Jubileu dos Sacerdotes).

Perante os desafios das novas realidades sociais e culturais do mundo atual, sobretudo face ao relativismo moral e ao indiferentismo religioso, o sacerdote há de ser uma testemunha viva e contagiante do Amor infinito de Deus por cada homem e por cada mulher. À semelhança do Bom Pastor, ele é chamado a servir com humildade, alertar e libertar dos perigos com a força da Palavra e dos Sacramentos, sinais da presença salvadora de Deus, prestando uma particular atenção às situações mais dolorosas da vida humana.

Que através do nosso testemunho, os jovens possam sentir o inquietante desafio do Senhor: “Vem e segue-Me”. Caríssimos jovens, procurai descobrir a vossa própria vocação, o caminho de uma vida que vos faça felizes e contribua generosamente para a felicidade dos outros; abri o vosso coração a Cristo, Redentor da humanidade; escutai o Senhor que vos ama e chama alguns de vós a uma especial consagração, na vida sacerdotal, religiosa e missionária ou nos institutos seculares, deixai-vos contagiar pelo testemunho de paz e alegria de tantos outros jovens, rapazes e raparigas que cheios de alegria e entusiasmo, avançaram por esses caminhos da missão, bendizendo o Senhor.

Jubileus sacerdotais

E, a terminar, ao mesmo tempo que felicito os novos sacerdotes pela generosidade e alegria do “sim” de cada um, na disponibilidade para o serviço do Povo de Deus, saúdo também aqueles que, em 2016, celebram jubileus das suas ordenações presbiterais: 50 anos (Bodas de Ouro), os Reverendos Padres António Ramos Teixeira da Silva, Emanuel Eleutério Figueira de Ornelas, Francisco Avelino Vargem Andrade e Manuel Jorge Fernandes Neves, ordenados em 1966; e 25 anos (Bodas de Prata), Reverendo Padre Rui Fernando Nunes de Sousa, ordenado em 1991. Bendizemos o Senhor pela vida e ministério destes sacerdotes e para cada um imploramos as Suas maiores Bênçãos.

À Mãe da Igreja

A Maria, Mãe da Igreja, Rainha do Clero, confio os nossos sacerdotes, diáconos, seminaristas e jovens em discernimento vocacional. Que todos se deixem conduzir pela novidade do Espírito de Deus e respondam com alegria, entusiasmo e empenho, à própria vocação, na fidelidade e inteira disponibilidade para servir, como Maria.

 

Funchal, 23 de Julho de 2016

† António Carrilho, Bispo do Funchal

 

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