Homilia do Bispo do Funchal na Missa de Quarta-feira de Cinzas

Homilia do Bispo do Funchal na Missa de Quarta-feira de Cinzas


Homilia de D.
António Carrilho, Bispo do Funchal,


na Missa de Quarta-feira
de Cinzas 2017


Sé do Funchal, 1 de Março de 2017


À escuta da
Palavra, ao encontro dos Irmãos

 

 "Convertei-vos a Mim de todo o coração..."
(Joel 2,12). Com a celebração
litúrgica de hoje, quarta-feira de Cinzas, a Igreja inicia a sua caminhada
quaresmal, tempo especial de graça, de conversão pessoal e comunitária, como
preparação para a solene e frutuosa celebração da Páscoa, acontecimento central
da nossa fé cristã.

As cinzas são sinal de penitência, convite ao arrependimento e à conversão;
lembram a fragilidade e finitude humanas neste nosso peregrinar, a caminho da
eternidade de Deus. É assim que o rito da bênção e imposição das cinzas não
pode ser apenas um gesto exterior, de mera tradição, mas um compromisso
interior exigente, na escuta da Palavra e na fidelidade à voz do Espírito.

A Quaresma é tempo de preparação para a Páscoa; tempo de saborear e aprofundar o
sentido do nosso Baptismo, nas suas múltiplas implicações; tempo de aceitar o
desafio de caminharmos ao encontro do verdadeiro rosto de Cristo, em escuta
atenta da Palavra, na oração e no acolhimento da reconciliação sacramental;
tempo de voltar para o Senhor com todo o coração, em conversão de amor a Deus e
aos irmãos.

Palavra e conversão

O verdadeiro dinamismo quaresmal parte da leitura, interiorização e vivência da
Palavra de Deus, que deve pautar a nossa vida pessoal, familiar, eclesial e
social. "A Palavra divina introduz cada um de nós no diálogo com o Senhor: o
Deus que fala, ensina-nos como podemos falar com Ele" (Bento XVI, Verbum Domini, 24).

O texto do livro do profeta Joel, que acabámos de escutar, acentua a exigência de
renovação interior: "Convertei-vos a Mim
de todo o coração
(...) Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos"
(Joel 2,12-13). Trata-se de uma mudança, de uma conversão verdadeira e profunda
do próprio coração, que no sentido bíblico significa a totalidade da pessoa.
Este convite estende-se a todas as pessoas de todas idades e tem como resposta
certa a presença libertadora e salvadora do amor misericordioso de Deus: "O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do Seu povo" (Joel 2,18).

Na segunda leitura, S. Paulo pede aos irmãos da comunidade de Corinto que, pelo
amor de Cristo, se reconciliem com Deus. Na teologia Paulina, Cristo crucificado
assume o mistério da nossa iniquidade: "identificou-O
Deus com o pecado por amor de nós
" (2Cor 5, 20), para nossa salvação; e que
ninguém receba em vão a Sua graça.

A loucura e sabedoria da Cruz, que tanto apaixonam Paulo, são a visibilidade do
indizível amor do Pai pela Humanidade, que se revela na entrega voluntária do
Filho, como Cordeiro inocente, imolado sobre a Cruz. "Não sejamos insensíveis à bondade de Cristo", recomenda-nos Santo
Inácio de Antioquia.

O verdadeiro espírito da penitência 

No texto do Evangelho de S. Mateus, Jesus introduz-nos no dinamismo da autêntica
conversão, agradável a Deus. Esta não consiste num conjunto de práticas
exteriores de aparente religiosidade: Jesus não condena as sãs tradições
religiosas da esmola, oração e jejum, mas pede que sejam praticadas com pureza
de intenção, com verdadeiro espírito religioso.

Estes gestos de renúncia devem ser realizados sem ostentação, com alegria e
humildade, no segredo que só o Pai conhece. Disse Jesus: "Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles (Mt 6,1); e acrescenta:
"Não saiba a tua mão esquerda o
que faz a direita
" (Mt 6,3).

É que a penitência quaresmal, nascida como exigência do amor misericordioso de
Deus, aponta para o encontro íntimo e pessoal com Ele, para a reconciliação da
própria pessoa, das famílias e da sociedade. É o testemunho alegre da
verdadeira "metanóia" ou conversão, mudança de mentalidade e comportamentos.

Todos temos experiência de como a alegria interior constitui a melhor recompensa para
a nossa generosidade e partilha, para a nossa atenção e serviço de amor aos
irmãos e irmãs que mais sofrem. De facto, somos felizes na medida em que
partilhamos a vida e os dons que Deus nos concede.

Na verdade, perante os problemas humanos e sociais, que hoje preocupam a Igreja e
a sociedade, todos somos chamados a estarmos atentos uns aos outros, a não nos
mostrarmos alheios e indiferentes ao destino dos irmãos, a prestarmos atenção
ao bem do outro e a todo o seu bem. Se cultivarmos este olhar de fraternidade,
brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade e a justiça, bem como a
misericórdia e a compaixão.

Mensagem do Papa Francisco

O Papa Francisco na sua Mensagem para a Quaresma deste ano, inspirando-se na parábola comovente do rico e do pobre Lázaro, sublinha a importância da Palavra de Deus na vida do
cristão, bem como a necessidade e urgência de prestarmos atenção e ajuda aos
nossos irmãos. É assim um convite à escuta da Palavra e ao encontro dos irmãos.

Com o tema "A Palavra é um dom. O outro é um dom",
o Santo Padre alerta-nos para uma atenção maior e sempre vigilante ao grito dos
mais pobres e dos marginalizados, que encontramos nos caminhos da nossa vida,
como Lázaro, à espera de ajuda, de acolhimento, compreensão e amor. Escreve o
Papa Francisco que "a quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada
necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo" (Mensagem,1).      

Por vezes, os nossos corações fecham-se à partilha e não reconhecem esse rosto de Cristo naqueles que
interpelam a nossa consciência, comodismo ou indiferença. Como antídoto para os
nossos males ("amor ao dinheiro e ao poder, vaidade e soberba"), Francisco
afirma que a Palavra de Deus pode ajudar a transfigurar e curar os sentimentos
dos nossos corações, abrindo-nos aos outros como verdadeiros dons e cada um de
nós encontra-os no próprio caminho.

É assim que a Igreja, procurando ser fiel a Cristo e aos homens, continua a afirmar o valor da vida humana e um profundo respeito pela dignidade da pessoa, desde o seu nascimento até à morte
natural: "Cada vida que vem ao nosso encontro é um dom e merece acolhimento,
respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a
vida e amá-la, sobretudo quando é frágil" (Mensagem,1).

Em breve síntese, escreve
o Papa: "Amados irmãos e irmãs, a quaresma é o tempo favorável para nos
renovarmos no encontro com Cristo vivo na Sua Palavra, nos sacramentos e no
próximo. (...) Que o Espírito Santo nos ajude a realizar um verdadeiro caminho de
conversão, para redescobrir o dom da Palavra de Deus, ser purificados do pecado
que nos cega e servir Cristo nos irmãos necessitados" (Mensagem,3).

Renúncia quaresmal 2017

Em espírito de solidariedade e partilha fraterna, pensamos nas situações de carência mais próximas de nós,
mas não esquecemos, também, muitas outras necessidades materiais e espirituais,
que a Igreja encontra em tantas terras de Missão.

Repartimos, por isso, a
renúncia da quaresma deste ano de 2017, em duas partes
iguais: uma parte, conforme proposta do Conselho Presbiteral, para o Fundo
Social Diocesano, com o principal intuito de ajudar as famílias mais
carenciadas, designadamente algumas famílias de emigrantes, que neste momento
se apresentam com dificuldades; a outra parte, atendendo ao recente apelo do
Papa Francisco, será para ajudar a população do Sudão do Sul, país africano que
vive um conflito fratricida e uma grave crise alimentar, onde milhares de
pessoas morrem de fome, especialmente crianças.

As ofertas desta renúncia
quaresmal serão recolhidas em todas as igrejas e capelas, conforme é costume,
nos ofertórios das missas de Sábado e Domingo de Ramos, ou seja, nos próximos
dias 8 e 9 de Abril. Como sempre, a participação é muito livre, segundo as
possibilidades e a consciência pessoal dos fiéis, na certeza de que Deus não
deixará sem recompensa qualquer gesto de atenção e partilha fraterna.

Com Maria, junto da Cruz

E agora, irmãos, sob o olhar compassivo de Maria, que nos convida a escutar o
Senhor, a partilhar e a amar, caminhemos jubilosamente em direção à Páscoa. Que
ela nos acompanhe neste percurso quaresmal, pelos caminhos do Espírito e da
comunhão fraterna; e como ela, junto da Cruz de seu Filho, aprendamos a sabedoria
e a coragem da fé, o sentido e o alcance do amor redentor de Jesus.

E com o Papa Francisco, "rezemos uns pelos outros para que, participando na
vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então
poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa".                


Funchal, 1 de Março de 2017


+ António Carrilho, Bispo do Funchal


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