Homilia do Bispo do Funchal na Festa do Monte e telegrama do Papa Francisco de solidariedade ao Povo da Madeira

Homilia do Bispo do Funchal na Festa do Monte e telegrama do Papa Francisco de solidariedade ao Povo da Madeira

HOMILIA DE D. ANTÓNIO CARRILHO, BISPO DO FUNCHAL

na Solenidade de Nossa Senhora do Monte

Padroeira da Cidade do Funchal e de toda a Diocese

Monte-Funchal, 15 de agosto de 2016

 

Maria, Mãe de Misericórdia

 

Exultemos no Senhor, ao celebrar este dia de festa em honra da Virgem Maria – Assim canta hoje a Igreja, na multidão dos seus filhos, espalhados pelo mundo, na alegre solenidade litúrgica da Assunção de Nossa Senhora ao Céu; assim cantamos nós, em comunhão com a Igreja universal, ao celebrarmos, aqui, a Festa da Senhora do Monte, Padroeira da Cidade e da Diocese do Funchal.

É com muito respeito e religiosa veneração, que nos encontramos neste santuário, que há tantos anos, em especial após a aluvião de 1803, tem acolhido e abraçado gerações sucessivas de homens e mulheres crentes, peregrinos e devotos da Senhora do Monte.

Aqui acorre gente de todas as idades e tantas famílias, que vêm agradecer os dons recebidos, pedir o auxílio, o conforto e a esperança do Alto, sobretudo quando pesa a cruz, quando falta o ânimo e a alegria, a força para caminhar.

Através dos meios de comunicação social são muitos aqueles que se associam a nós neste dia e neste momento. Uma saudação especial para todos os idosos e doentes e a nossa comunhão com todos os irmãos emigrantes, que em terras distantes vivem e testemunham a sua fé, de modo especial aqueles que nos acompanham através da RTP, da rádio (PEF) e da internet. Nossa Senhora do Monte a todos abençoe e nos conduza a Jesus.

Perante a vaga de incêndios dos últimos dias e as suas dolorosas consequências, não podemos deixar de lembrar os que morreram e manifestar a mais profunda solidariedade a quantos, de algum modo, sofreram momentos de grande angústia e aflição, em especial os que perderam as suas casas e todos os seus bens. E se na nossa memória não passam as imagens dramáticas, que vivemos de perto ou entraram nas nossas casas, jamais esqueceremos também os gestos de solidariedade e a generosidade de tantos familiares, vizinhos e profissionais, o acolhimento e todo o apoio prestado por tantas instituições; jamais esqueceremos, ainda, a capacidade de reagir, por parte de muitos, perante situações inesperadas e tão difíceis, com a força e a coragem de querer começar a olhar em frente e projetar o futuro.

A glorificação de Maria

A celebração litúrgica de Nossa Senhora da Assunção é uma das mais antigas festas marianas. Na verdade, a Igreja sempre acreditou e defendeu, que, após a morte, a Bem-Aventurada Virgem Maria subiu à glória do céu em corpo e alma, mas só em 1950 o Papa Pio XII proclamou a Assunção de Nossa Senhora, como dogma de fé: a Santa Mãe de Deus, a Arca da Nova Aliança, intimamente associada ao sofrimento e à morte de Cristo, foi também e, desde logo, associada à Sua gloriosa Ressurreição.

A riqueza da mensagem litúrgica, que a Igreja nos propõe para este dia, introduz-nos no dinamismo e contemplação da esperança da vida eterna, a Vida plena em Deus, após a morte. Na Virgem cheia de Graça, o Verbo Eterno do Pai, Cristo Jesus, fez-se Carne e habitou entre nós. Sua Mãe Imaculada, concebida sem pecado, não podia, por isso, segundo a fé da Igreja, estar sujeita à corrupção da morte.

O texto do Apocalipse, na primeira leitura, enaltece a figura singular da “Mulher revestida de sol com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça” (Ap 12,1). “Este sinal grandioso” é Maria, a excelsa figura da Igreja, que depois dos sofrimentos e lutas desta vida, é revestida da Luz do Ressuscitado, com toda a beleza e esplendor. Nossa Senhora da Assunção é, para cada um de nós, sinal preclaro de consolação e esperança no nosso peregrinar neste mundo.

Na segunda leitura (2Cor 15, 20-27), S. Paulo sublinha o mistério admirável da Ressurreição de Cristo, “pois se em Adão todos morremos, assim também em Cristo todos serão restituídos à vida” (1Cor 15, 22). A Virgem Maria foi a primeira a participar desta vitória sobre a dor e a morte, como primícias de esperança para todos os batizados em Cristo. Criados à imagem e semelhança de Deus, o homem e a mulher são chamados a viver eternamente com Ele.

Na escola de Maria

E se a Igreja convida os crentes a contemplar Maria na glória do Céu, ela também os convida a imitar as suas sublimes virtudes, como modelo de fé e de amor a Cristo e aos irmãos.

Na sugestiva e belíssima página do Evangelho de S. Lucas (1,39-56), escutámos e acompanhámos a jovem Maria de Nazaré, que sobe apressadamente a montanha da Judeia para ajudar sua prima Isabel, que estava grávida. O “Sim” incondicional de Maria a Deus, face ao admirável mistério do Verbo Encarnado, abre-lhe um horizonte imprevisível de total doação e serviço aos outros. A sua fé profunda e viva é dinâmica: cheia de amor e de alegria corre a visitar e a ajudar Isabel.

Perante o nosso mundo, marcado por profundas mudanças sociais, culturais e religiosas, e fragilizado por algumas ideologias e práticas que rejeitam ou se distanciam do Transcendente, a Igreja é convidada a reavivar a consciência do mandato recebido e a pôr-se a caminho, apressadamente, como Maria, para exercer o grande serviço da caridade de levar a luz de Cristo a todas as nações, a todas as pessoas, a começar por aquelas que se encontram mais perto de nós.

Que o testemunho de vida dos cristãos seja um claro sinal de esperança perante as forças do mal, o “dragão” a que se refere o Apocalipse, que ameaça a cultura e a sociedade, quando esta prescinde de Deus. O cristão é chamado, hoje, como sempre, a ser a Luz que vence as trevas, nos caminhos da vida, e o Amor que cria comunhão, promove a reconciliação e a paz, reflete o rosto misericordioso do Pai.

É este, afinal, o desafio que o Papa Francisco lança a toda a Igreja e a cada um de nós, em particular, no Ano Santo da Misericórdia, que está a decorrer: “A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa (...) A sua linguagem e os seus gestos (…) devem irradiar misericórdia (...) Por isso, onde a Igreja estiver presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai (…) Em suma, onde houver cristãos, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia” (Misericordiae Vultus,12). Não podemos esquecer que o amor-caridade é o distintivo dos discípulos de Jesus.

À Senhora do Monte

E, por fim, irmãos, uma prece muito especial a Maria-Mãe, à nossa Padroeira:

Senhora do Monte, olhai para esta Diocese que é vossa; olhai e amparai os vossos filhos que nesta hora mais precisam de ajuda, ânimo e força para refazer as suas vidas e construir o futuro; abençoai e protegei todas as famílias; abençoai e protegei as crianças e os jovens, os idosos, os doentes, os pobres, os desempregados, todos os que perderam a coragem de sonhar e de acreditar em Deus e nos homens. Que não nos falte a saúde, a paz e a concórdia, o trabalho, o ânimo e a força da fé e da esperança para enfrentar a realidade concreta da vida de cada dia.

Senhora do Monte, nossa Padroeira, rogai por nós!

Funchal, 15 de agosto de 2016

† António Carrilho, Bispo do Funchal

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