Homilia do Bispo do Funchal na Festa de São Martinho

Homilia do Bispo do Funchal na Festa de São Martinho

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na festa de São Martinho, nos 1700 anos do seu nascimento

Paróquia de São Martinho, 11 de novembro de 2016

São Martinho, belo testemunho de misericórdia!

Caríssimos irmãos e irmãs

É com muita alegria que aqui nos encontramos, nesta igreja paroquial, para celebrar São Martinho. Ao celebrar a Eucaristia da festa do padroeiro comemoramos, também, os 1700 anos do seu nascimento.

Quero saudar o vosso pároco, o Padre Marcos Gonçalves, e agradecer-lhe o convite para estar convosco neste dia a presidir à festa, a proclamar a beleza da vida de São Martinho e os apelos da Palavra de Deus, que acabamos de escutar.

São Martinho nasceu na atual Hungria, no ano 316, no seu tempo uma província de fronteira do Império Romano. Nasceu no seio de uma família que não era cristã e adorava os deuses romanos: o seu próprio nome “Martinho” foi-lhe dado em honra do deus Marte. Aos dez anos conheceu os cristãos e sentiu um grande desejo de se preparar para receber o batismo. O seu pai, comandante militar, para o afastar dos cristãos alistou-o, aos 15 anos, na cavalaria do exército romano. Ainda que contra a sua vontade, Martinho servia com dedicação o imperador quando, por volta do ano 331, aconteceu o célebre encontro com o mendigo que, cheio de frio, pedia a Martinho uma esmola à entrada da cidade de Amiens.

Ver Cristo no rosto dos pobres

 Sem ter dinheiro consigo, Martinho corta com sua espada a longa capa que como cavaleiro trazia. À noite, num sonho, Cristo aparece a Martinho usando o pedaço da capa, revelando-lhe assim que o pobre que agasalhara era o próprio Senhor. Este episódio da divisão da capa e da partilha com o mendigo é uma síntese da vida de São Martinho. E é esta vida que hoje, aqui, estamos a celebrar.

 É celebrar, afinal a misericórdia e a caridade; é celebrar a obra de Deus no coração daqueles que se deixam tocar pela Sua graça. A fé não isolou São Martinho da realidade do mundo em que vivia. Ele não se fechou na relação e na amizade com Deus; pelo contrário, a fé e a oração levaram-no a reconhecer Cristo no rosto dos mais pobres, dos que necessitavam da sua ajuda, do seu conselho.

Ao refletir sobre o Evangelho reconhecemos, em cada obra de misericórdia, não apenas o rosto de Jesus, mas o rosto daqueles que O amam e seguem. Jesus bem pode olhar para São Martinho e dizer-lhe: tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber, cobristes a nudez, suavizastes a doença, combatestes a ignorância, consolastes os tristes, visitastes os encarcerados, vinde bendito de meu Pai! (cf. Mt 25,40).

Celebrar São Martinho é celebrar a Santidade. É sempre uma grande oportunidade para escutar o desafio que o Senhor a todos nos coloca: “Sede Santos, como Eu sou Santo”. Conhecer a sua vida, as suas obras, é um caminho para crescer na fé, numa vida cheia de Deus, e fortalecer a coragem para ousar ir mais longe na caridade, com muita esperança. A santidade na Igreja não é apenas para alguns, mas é a vocação de todos os cristãos. E o mundo precisa de santos: santos na Igreja; santos na vida familiar e na sociedade; santos que transformam o mundo com o testemunho da luz da alegria do Evangelho.

Anunciar o Evangelho com a voz e a vida

Celebrar São Martinho é celebrar um Pastor, um grande evangelizador. Como nos diz São Paulo, na segunda leitura, também São Martinho podia dizer: “Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória, é uma obrigação que me foi imposta. Ai de mim se não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16). Nada nem ninguém poderia conter a Palavra de Deus, que enchia o seu coração e a sua vida. Como monge, como sacerdote e depois como Bispo de Tours, anunciou a Palavra de Deus, com todo o empenho e generosa dedicação.

Por terras pagãs anunciava o Evangelho não apenas com a voz, mas com a vida, com o testemunho de uma vida transformada por Cristo. Onde a Palavra não era bem acolhida ou encontrava maior resistência, São Martinho fundava mosteiros ou pequenas comunidades monásticas, para que a vida dos monges, com a sua oração e o seu exemplo de caridade, cativasse e atraísse as pessoas para Cristo.

No texto do profeta Isaías, proclamado na primeira leitura, podemos reconhecer as palavras que o próprio Jesus leu na sinagoga e atribuiu a si mesmo: “O espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor Me ungiu e Me enviou a anunciar a Boa Nova” (Is 61,1). Para São Martinho talvez fosse mais fácil refugiar-se na oração e numa vida contemplativa; seria também um caminho de santidade, mas Deus tinha outro plano e outra vocação para ele. Deus precisava da sua voz, do seu coração e dos seus pés, para caminhar e anunciar, com dedicação e muito amor, a alegria do Evangelho. E também nós somos ungidos e fortalecidos pelo Espírito Santo, enviados a anunciar a beleza da mensagem de Cristo, Ele mesmo vivo em nós. Como dizemos no lema deste ano pastoral, importa “Viver, em Igreja, a alegria de ser cristão”.

Em louvor e ação de graças

Conhecemos a vida de São Martinho e tantos episódios que o eternizaram na memória do povo cristão. O seu perfil de grande homem e o testemunho de santidade, que nos legou e a Igreja reconhece, levam-nos hoje a bendizer e dar graças a Deus pela sua vida e missão de Bispo e Pastor da Igreja.

Confiemos, pois, a São Martinho, com fé e muita esperança, as nossas preocupações, necessidades e anseios; a sua vida e as suas virtudes sejam para nós modelo de vida cristã, de amor a Cristo e à Igreja, de entrega generosa ao serviço dos irmãos. E não esqueçamos as palavras de Jesus: “Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos a Mim próprio o fizestes” (Mt 25,40).

 

Funchal, 11 de Novembro de 2016

 

†António Carrilho, Bispo do Funchal

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