Sexta-feira Santa

30-03-2016 19:51

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

na Sexta-feira Santa – Celebração da Paixão do Senhor

Sé do Funchal, 25 de Março de 2016

A Cruz, Fonte de Vida e Misericórdia

“Não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,13). Com a solene celebração litúrgica da Ceia do Senhor de Quinta-Feira Santa, demos início ao Tríduo Pascal, ponto culminante de todo o mistério da salvação. O Pão da Vida, oferta do inefável Amor de Jesus, dom por excelência do Corpo entregue e Sangue derramado, prefigura e antecipa a consumação do sacrifício de Cristo, o novo Cordeiro Pascal, imolado sobre o altar da Cruz.

Hoje a Igreja não celebra a Eucaristia, mas oferece-nos, em comunhão sacramental, o pão eucarístico consagrado ontem à tarde, na Eucaristia da Ceia do Senhor, e que juntamente com o jejum e a abstinência deste dia, nos ajudam a participar no sacrifício de Cristo na Cruz, hoje comemorado de modo tão expressivo e eloquente.

A Palavra de Deus, há pouco proclamada, e a cerimónia da adoração da cruz, que se vai seguir, evocam neste dia de sexta-feira santa o amor eterno do Pai, revelado em Jesus Cristo, dom por excelência à Humanidade: “Deus amou tanto o mundo que entregou o Seu Filho Unigénito, para que todo o que crê n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

Contemplar a cruz do Senhor

Caríssimos diocesanos, fixemos o nosso olhar na Cruz de Cristo. A Sua morte violenta na Cruz é a expressão mais alta da Sua entrega e obediência ao Pai e do Seu amor sem limites pela Humanidade. Nela refulge a grandeza do Amor do Crucificado por cada um de nós. Nela se aponta, segundo o desígnio de Deus, para a vitória definitiva sobre a morte, mediante a graça e o mistério da Ressurreição. “Na cruz, podemos tocar a misericórdia de Deus e deixar-nos tocar pela sua própria misericórdia”, disse o Papa Francisco aos jovens.

Acabámos de escutar, na proclamação do Evangelho, aquilo que bem podemos chamar o “livro vivo” da Paixão e Morte de Jesus. No expressivo relato de São João, testemunha ocular de todos aqueles acontecimentos, Jesus, apesar dos atrozes sofrimentos da Paixão, manifesta a Sua bondade e poder: “Ninguém Me tira a vida, sou Eu que a dou. Tenho o poder de a dar e de a retomar” (Jo 10, 18).

A extraordinária estatura moral e espiritual de Jesus desarma-nos e interpela-nos: a entrega pacífica e voluntária nas mãos dos inimigos, o Seu respeito pelo homem e a perfeita obediência ao Pai: “Insultado, não pagava com injúrias; maltratado, não respondia com ameaças, mas entregava-Se Àquele que julga com justiça” (1Ped 2,23).

Fiel até ao fim, Jesus aceitou com plena liberdade, submissão e amor, a Sua “glorificação” com a morte de Cruz. “Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento; e, tendo atingido a Sua plenitude, tornou-Se para todos os que Lhe obedecem causa de salvação eterna” (Heb 5, 9).

Palavra viva de amor

Senhor da Vida e da Morte, apesar de indizíveis sofrimentos físicos e morais, Jesus assume, com plena consciência e lucidez, a vontade do Pai: “Tudo está consumado” (Jo 19,30). Com inteira liberdade, num gesto de total confiança e abandono filial, entregou-Se definitivamente nas Suas Mãos: “Pai, nas Tuas Mãos entrego o Meu espírito” (Sl 31,6). Abandonado pelos amigos e rejeitado pelo povo, levantado no madeiro da Cruz, o Filho de Deus “inclina a cabeça e rende o Espírito” (Jo 19,30).

O Apóstolo São João refere que, após a morte, o soldado trespassou o Lado de Jesus com a lança e logo saiu Sangue e Água. Na tradição dos Padres da Igreja, estes sinais simbolizam a Eucaristia e o Batismo, Sacramentos da Igreja, ela mesma Sacramento universal de salvação, nascida do Lado trespassado do Senhor.

O Coração, porém, ficou para sempre aberto como Fonte inesgotável de Vida e Misericórdia. É, pois, com imensa gratidão e amor, que contemplamos Cristo morto na Cruz e sentimos ressoar dentro de nós a Sua Palavra: “Não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,13).

Paixão de Cristo, paixão do mundo

A Cruz era um terrível suplício, a pena de morte infamante, reservada aos escravos e estrangeiros. Um cidadão romano não podia ser crucificado. Com a morte de Cristo, o patíbulo da Cruz transformou-se em trono e em altar para o Corpo “chagado e glorioso” e, para os que crêem n’Ele, sinal de Vitória, Esperança e Amor: “E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim” (Jo 12, 32).

A Paixão de Cristo e todo o Seu Mistério Pascal permanecem vivos no coração da nossa história. Em todo o tempo e lugar, nos sofrimentos, medos, adversidades e incertezas, somos iluminados pela Luz da Páscoa, Morte e Ressurreição do Senhor, porque Deus está connosco na superação dos limites da nossa própria natureza.

De facto, podemos reconhecer o Seu corpo ferido e coração trespassado no Seu corpo místico, a Igreja, e na família humana em geral. Perante as imagens de sofrimento o discípulo de Cristo não pode ficar insensível ou indiferente. É necessário, pois, cultivar um coração compassivo, sensível à dor dos irmãos que sofrem.

No seu humanismo, a Igreja privilegia servir e acompanhar, com particular solicitude, o clamor dos mais fracos: famílias com graves dificuldades económicas, desempregados, marginalizados e excluídos da sociedade, idosos abandonados, doentes em fase terminal, cristãos perseguidos por causa da sua fé, vítimas das guerras que matam e aumentam a violência e a fome.

A Paixão não terminou no Calvário. Jesus continua a sofrer em cada irmã ou irmão que sofre. Nos caminhos deste mundo, são muitos ainda aqueles que experimentam “ao vivo” os sofrimentos de Jesus e solicitam a nossa solidariedade, atenção e amor concreto. Então, todos somos chamados a ser “cireneus” desses irmãos que sofrem, testemunhando a alegria da Fé, a coragem da Esperança e a força do Amor!

Mãe da nossa esperança

Hoje, contemplamos a Senhora da Piedade, que Miguel Ângelo imortalizou na célebre escultura da “pietá”. No ícone da Mãe com o Filho morto nos braços, qual regaço de imensa ternura e misericórdia, encontram refúgio e consolação todos os que sofrem. No coração e no corpo chagado do filho de Maria, está a marca do sofrimento da Humanidade de todos os tempos.

O Papa Francisco recorda-nos o papel fundamental da Mãe da Igreja, no Calvário: “Ao pé da cruz, na hora suprema da nova criação, Cristo conduz-nos a Maria; conduz-nos a ela, porque não quer que caminhemos sem uma mãe; e, nesta imagem materna, o povo lê todos os mistérios do Evangelho” (A alegria do Evangelho, 285).

Óh Maria, aurora da Redenção, nas lágrimas do teu rosto de Mãe escondem-se mistérios de Vida, de Luz e de Esperança Pascal. Mãe da nossa esperança, Senhora da Piedade, rogue por nós!

Funchal, 25 de Março 2016

† António Carrilho, Bispo do Funchal

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