Quarta-feira de Cinzas 2016

14-02-2016 15:03

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal

na Missa de Quarta-feira de Cinzas 2016

 

Sé do Funchal, 10 de Fevereiro de 2016

 

Viver a Quaresma no Ano Santo da Misericórdia

 

“Convertei-vos a Mim de todo o coração…” (Joel 2,12). Com a celebração litúrgica de hoje, quarta-feira de Cinzas, a Igreja inicia a sua caminhada quaresmal, tempo especial de graça, de conversão pessoal e comunitária, como preparação para a solene e frutuosa celebração da Páscoa, acontecimento central da nossa fé cristã.

As cinzas são sinal de penitência, convite ao arrependimento e à conversão; lembram a fragilidade e finitude humanas neste nosso peregrinar, a caminho da eternidade de Deus. É assim que o rito da bênção e imposição das cinzas não pode ser apenas um gesto exterior, de mera tradição, mas um compromisso interior exigente, na escuta da Palavra e na fidelidade à voz do Espírito. Diz-nos Deus, através do Profeta Joel: “Convertei-vos a Mim de todo o coração…” (2,12). Daí a urgência de parar, de fazer silêncio, interiorizar a mensagem e caminhar ao ritmo do Coração de Cristo.

A Quaresma é tempo de preparação para a Páscoa; tempo de saborear e aprofundar o sentido do nosso Batismo, nas suas múltiplas implicações; tempo de aceitar o desafio de caminharmos ao encontro de Cristo, “rosto da Misericórdia do Pai”, em escuta atenta da Palavra, na oração e no acolhimento da reconciliação sacramental; tempo de voltar para o Senhor com todo o coração, em conversão de amor a Deus e aos irmãos.

A força libertadora da Palavra

O verdadeiro dinamismo quaresmal é provocado pela leitura, interiorização e vivência da Palavra de Deus, que deve pautar a nossa vida pessoal, familiar, eclesial e social. “A Palavra divina introduz cada um de nós no diálogo com o Senhor: o Deus que fala, ensina-nos como podemos falar com Ele” (Bento XVI, Verbum Domini, 24).

O texto do livro do profeta Joel, que acabámos de escutar, acentua a exigência de renovação interior: “rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos” (Joel 2,13). Trata-se de uma mudança, de uma conversão verdadeira e profunda do próprio coração, que no sentido bíblico significa a totalidade da pessoa. Este convite estende-se a todas as pessoas de todas idades e tem como resposta certa a presença libertadora e salvadora do amor misericordioso de Deus: “O Senhor encheu-Se de zelo pela Sua terra e teve compaixão do Seu povo” (Joel 2,18).

Na segunda leitura, S. Paulo, impelido pela caridade de Cristo, pede aos irmãos da comunidade de Corinto, que, “pelo amor de Cristo se reconciliem com Deus” (2Cor 5,20). Na teologia Paulina, Cristo Crucificado assume o mistério da nossa iniquidade, “fez-se pecado por amor de nós” (2Cor 5, 20), para nossa salvação.

A loucura e sabedoria da Cruz, que tanto apaixonam Paulo, são a visibilidade do indizível amor misericordioso do Pai pela Humanidade. Suprema bondade divina, que se revela na entrega voluntária do Filho, como Cordeiro inocente, imolado sobre a Cruz. Deus não se impõe ao homem. É oferta gratuita de infinito Amor. “Não sejamos insensíveis à bondade de Cristo”, lembra Santo Inácio de Antioquia.

Verdadeiro sentido da ascese

No texto do evangelho de S. Mateus, Jesus introduz-nos no dinamismo da autêntica conversão, agradável a Deus. Esta não consiste num conjunto de práticas exteriores, de aparente religiosidade: Jesus não condena as sãs tradições religiosas da esmola, oração e jejum, mas pede que sejam praticadas com pureza de intenção, com verdadeiro espírito religioso.

Estes gestos de renúncia devem ser realizados sem ostentação, com alegria e humildade, no segredo que só o Pai conhece. Disse Jesus: “Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles (Mt 6,1); e acrescenta: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita” (Mt 6,3).

É que a ascese quaresmal tem como finalidade o encontro íntimo e pessoal com o Pai, a reconciliação da própria pessoa, das famílias e da sociedade em geral. É o testemunho alegre da verdadeira “metanóia” ou conversão, que se exprime na jubilosa intimidade com Cristo, Redentor do homem.

Relação entre fé e caridade

Irmãos: em pleno Ano Santo da Misericórdia, não podemos deixar de reconhecer e afirmar o sentido redentor do mistério pascal de Jesus Cristo, como referência para os seus discípulos, na entrega total ao Pai. Também Ele, afinal, tocou o sofrimento e a morte, mas pela sua Ressurreição abriu-nos a porta da verdadeira Vida, deu-nos a maior razão da nossa esperança.

Preparamo-nos, pois, para celebrar a Páscoa, pensando em nós e nos outros, com os olhos postos na pessoa de Jesus. É Ele a nossa referência, é Ele quem nos aponta o caminho da vida, é n’Ele que acreditamos e com Ele contamos, no peregrinar concreto da nossa vida de cada dia: na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, nas horas fáceis e nas horas difíceis.

Com Ele contamos nesta caminhada quaresmal de aprofundamento da nossa fé, de esforço de conversão e santificação pessoal, de testemunho de um maior compromisso de solidariedade e amor fraterno, de empenho efetivo pela verdade e pela justiça, em ordem a uma sociedade marcada pela alegria e esperança cristãs.

Como escreve o Papa Francisco na sua Mensagem para este tempo, intitulada “Prefiro a misericórdia ao sacrifício (Mt 9,13) – As obras de misericórdia no caminho jubilar”, a Quaresma constitui “um período que deve ser vivido intensamente, como momento forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus […] Um tempo favorável para poder sair da própria alienação existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia”. Assim, no contexto do Jubileu da Misericórdia, a Quaresma proporciona-nos uma preciosa ocasião para meditar sobre a relação entre fé e caridade: entre o crer em Deus, no Deus de Jesus Cristo, e o amor, que é fruto da ação do Espírito Santo e nos guia por um caminho de dedicação a Deus e aos outros.

Em síntese, temos a conhecida, mas exigente palavra de São Tiago: “A fé sem obras é morta” (Tg 2,20). As obras da fé são as obras da caridade, segundo o convite da Carta aos Hebreus: “Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Heb 10,24).

Renúncia Quaresmal

Irmãos: perante os problemas humanos e sociais, que hoje preocupam a Igreja e a Sociedade, a própria fé nos interpela a estarmos atentos uns aos outros, a não nos mostrarmos alheios e indiferentes aos problemas dos irmãos, a prestarmos atenção ao bem e às necessidades de todos, cultivando um “olhar de fraternidade”. Um coração que olha e vê é um coração sensível às necessidades materiais e espirituais dos irmãos e irmãs.

Neste Ano Jubilar somos desafiados a refletir sobre as obras de misericórdia corporais e espirituais e a trazê-las para os gestos e atitudes da nossa vida quotidiana. Como escreve o Papa Francisco na sua Mensagem para a Quaresma: “A nossa fé traduz-se em atos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo no corpo e no espírito (…) Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho”.

Tendo em atenção os múltiplos apelos do Papa e de alguns Bispos do Médio Oriente, perante a situação angustiante em que se encontram milhares de cristãos, expulsos de suas casas e impedidos de professar e celebrar livremente a sua fé, a Diocese do Funchal, através da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), encaminha a Renúncia da Quaresma deste ano de 2016 para ajudar os cristãos perseguidos, em especial no Iraque e na Síria.

As ofertas desta Renúncia Quaresmal serão recolhidas, em todas as igrejas e capelas, nos ofertórios das missas dos dias 19 e 20 de março, sábado e Domingo de Ramos. Como sempre, a participação é muito livre, segundo as possibilidades e a consciência pessoal dos fiéis, na certeza de que Deus não deixará sem recompensa qualquer gesto de atenção e partilha fraterna.

E agora, irmãos, sob o olhar compassivo de Maria, que convida a escutar o seu Filho, a partilhar e a amar, caminhemos jubilosamente em direção à Páscoa.

 

                     Funchal, 10 de Fevereiro 2016

† António Carrilho, Bispo do Funchal

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