Homilia nos Votos simples de uma irmã Clarissa

08-12-2015 21:01

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

 na celebração da profissão temporária de votos simples

de uma Irmã Clarissa

Convento do Lombo dos Aguiares, 8 de Dezembro 2015

Vida Contemplativa na Igreja

“Avé, cheia de graça, o Senhor está contigo”(Lc 1,28).Celebrar a Imaculada Conceição da Virgem Maria, “a Cheia de Graça”, é adentrar-se no mistério altíssimo do Amor do Pai das Misericórdias que nos convoca para a sua intimidade. No dia da abertura do Ano Santo da Misericórdia, em Roma, com estes sentimentos de eclesial louvor e adoração celebremos e cantemos alegremente a nossa fé: “Aclamai o Senhor, terra inteira, exultai de alegria e cantai”(Sl 97).

A Virgem Imaculada ocupou, desde o séc. XIV, um lugar especial no coração do povo luso. Os portugueses dedicaram-lhe um singular amor, quase 500 anos antes da definição do dogma da Imaculada Conceição, por Pio IX. Nos finais do séc. XIII, o beato Duns Scotto, filósofo e notável teólogo franciscano, foi um promotor por excelência e grande defensor do dogma da Imaculada Conceição. É por isso que os franciscanos a chamam filial e carinhosamente “Imaculada Franciscana”.

No espelho da eternidade

 Neste Ano da Vida Consagrada, a profissão de votos simples, de obediência, pobreza, castidade e clausura, da Irmã Augusta Rodrigues, na Ordem de Santa Clara, reveste-se de particular significado. É uma graça enorme para o Mosteiro de Santo António e para a nossa Igreja do Funchal.

Santa Clara convida as suas filhas a contemplarem o espelho da eternidade e a adentrar-se no dinamismo inefável desse amor transformante. A contemplação assídua da Palavra, da Eucaristia e do ícone de S. Damião abre-se num olhar mais vasto, para além dos muros da clausura, até ao coração da humanidade, quer da Igreja quer do mundo. Este é o vosso caminho de vivência e entrega, na Igreja, queridas Irmãs. Podemos dizer que a humilde filha de S. Francisco e suas Irmãs viveram a cultura da comunhão e da inclusão. No silêncio da escuta, no trabalho humilde e na oferta da vida, abraçam o Senhor e o Seu Corpo ferido, particularmente presente nos pobres, nos doentes e nos excluídos. Escondidas no seu mosteiro, Clara e as suas Irmãs privilegiaram uma singular intimidade com Jesus e entregaram a sua vida ao Senhor, para que outros tivessem vida.

Luz que brilha e irradia no silêncio

Apesar da clausura e da vossa missão específica, também estais sempre “em saída com o coração aberto ao mundo, aos horizontes de Deus”, disse o Papa Francisco, às Irmãs Clarissas, em Assis. E acrescentou: “se rezar é permanecer na oração de Jesus, dali não se pode sair a não ser no êxodo do amor que nos impele a abraçar o mundo e cada rosto. O Filho é aquele que vive com o Pai e juntos se fazem presentes ao lado de cada pessoa, em especial dos últimos” (Regina Caeli, 1.6.2014).

A luz de Clara continua a atravessar os séculos e mantém-se viva, no coração das suas filhas. Mas somente um coração pobre e vazio de si mesmo pode encher-se da beleza de Deus. Neste Ano Santo Jubilar, sois chamadas a ser o Rosto da Misericórdia, em primeiro lugar, na própria fraternidade, e depois, junto daqueles que vos procuram e pedem ajuda espiritual ou material.

À semelhança de Maria Imaculada e da santa Fundadora, abri o coração ao Espírito do Senhor e vivei a santíssima pobreza, em santa unidade, junto ao Coração de Cristo, Fonte inesgotável de Vida e de Misericórdia. Com entusiasmo sempre renovado, deveis manter viva a chama do amor fraterno, orar assiduamente, com os lábios e com a vida, sempre e em todo o lugar. Isto é, ser Amor no Coração da Igreja, como dizia Santa Teresinha do Menino Jesus. Na verdade, só o Amor é eternamente criativo!

Irmã Celina da Apresentação – A beleza da humildade

Neste momento de graça, apraz-me recordar a jovem Clarissa francesa, Irmã Celina da Apresentação (1878 -1897). Conheceu a pobreza da família, a exclusão social, a orfandade e, mais tarde, no Mosteiro foi acometida por tuberculose. Com grande paciência e amor a Jesus aceitou humildemente todos os sofrimentos. Faleceu aos dezanove anos. Foi beatificada a 16 de Setembro de 2007, na Catedral de Bordeaux. Com grande simplicidade e ternura, deixou o testemunho vivo do segredo da sua entrega e da sua imensa felicidade.

Gostava de viver escondida, na obediência e na pobreza, e privilegiava uma profunda espiritualidade eucarística, no carisma de Santa Clara. São dela estas palavras de sabedoria que foram o projeto concreto e luminoso da sua vida, tão bela e tão breve: “eu tomei a resolução de ser uma violeta de humildade, uma rosa de caridade e um lírio de pureza para Jesus”. A beleza da sua humildade flui em ondas de perfume, que irradiam da sua presença, dizem as testemunhas que a invocam. Por isso é chamada “La sainte aux perfums”.

Viver a transparência do Amor contemplativo

Mas esta vida de contemplação, que é fonte de alegria, de paz e de felicidade não é só para alguns. A Congregação dos Religiosos vai apresentar a sua última carta “Contemplação” dedicada “aos consagrados e consagradas, nas pegadas da Beleza”. É um convite urgente a manter viva, mesmo de permeio à missão específica de cada instituto, uma vida de intensa comunhão com Deus, em contemplação. “Cada consagrada e cada consagrado é chamado a contemplar e testemunhar a face de Deus como Aquele que entende as nossas fraquezas, para derramar o bálsamo da proximidade sobre as feridas humanas, combatendo os cinismos da indiferença”. (Contemplate, 59).

Queridas Irmãs, com Maria Imaculada, a contemplativa mas vigilante e diligente no serviço aos outros, procuremos viver esta intimidade profunda com o Pai das Misericórdias, no silêncio, na escuta e na entrega sem reservas a Deus e aos nossos irmãos e irmãs.

Funchal, 8 de Dezembro de 2015

†António Carrilho, Bispo do Funchal

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