Homilia nos 100 anos da Associação de Futebol da Madeira

28-09-2016 21:36

Homilia de D. António Carrilho, Bispo do Funchal,

nos 100 anos da Associação de Futebol da Madeira

Sé do Funchal, 28 de Setembro 2016

 

O desporto na transmissão de valores

 

Há 100 anos, no dia 28 de Setembro de 1916, nasceu a Associação de Futebol do Funchal, graças à iniciativa e empenho de um grupo de madeirenses, ligados às atividades desportivas. O tempo passou e a Associação cresceu passando a designar-se Associação de Futebol da Madeira (14 de Setembro de 1996), por ser esta denominação mais adequada em virtude do surgimento de novos clubes espalhados por toda a Região, incluindo o Porto Santo.

 Cresceu numa apreciável implantação do futebol nas competições nacionais e europeias. Hoje já são 42 os Clubes filiados nas vertentes de Futebol, Futsal e Futebol feminino, tendo inscritos para as diversas competições cerca de 5000 atletas, num global de 2300 jogos por época, sendo os mais representativos os Clubes Centenários “Sport Marítimo” (campeão nacional em 1926), “Desportivo Nacional” (1º representante da Região na Taça de Portugal em 1939) e o Clube “Futebol União”, que disputam provas profissionais.

Hoje estamos aqui, em memória agradecida e confiante, solidários na ação de graças a Deus pela longa história desta Associação e lembrando, de modo particular, quantos deixaram nela muito das suas vidas e já partiram deste mundo, em comunhão com todos os dirigentes, atletas e jogadores, adeptos e amigos.

Lutar e correr para a meta.

Escolhemos dois textos bíblicos para iluminar a nossa reflexão, no contexto desta celebração festiva. Assim, na primeira leitura (Fl 3, 8-14), S. Paulo diz-nos que colocou toda a sua vida e projetos em Jesus Cristo Ressuscitado, a Sabedoria do Pai. Ele é o Bem Supremo, a Fonte plena da Felicidade. Por isso, urge viver configurado com Cristo, participando dos Seus sofrimentos e do poder da Sua Ressurreição. Tudo o mais é considerado como “ lixo e prejuízo”.

Como bem sabeis, todos os atletas têm de fazer grandes esforços e sacrifícios, muitos treinos, quando se preparam para participar nas grandes competições, regionais, nacionais ou internacionais. O triunfo por ter alcançado a meta e ganho o “troféu” vale bem todos esses sacrifícios e renúncias. S. Paulo pensando na meta, que para ele era Cristo, diz-nos: “Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta, em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus”(Fl 3,14). Para S. Paulo e para os cristãos, a maior vitória é alcançar a Vida Eterna.

Como é gratificante observar o rosto sorridente da vitória, resultado do esforço dos atletas coroado de êxito! Vale a pena treinar, lutar e correr para alcançar a meta, não só no desporto, mas também nos estudos, no trabalho e na santidade, com a vivência exigente dos valores do Evangelho.

Todos conhecemos o fascínio mundial pelo futebol e a interação com os espetadores, através dos meios de comunicação social. Muitas vezes, os espetadores identificam-se com o jogo e com os jogadores, e participam no seu empenho, ora apoiando ora protestando. Os próprios jogadores quase se tornam símbolos de suas vidas, o que se reflete também nos atletas. E não podemos esquecer que até os insucessos são oportunidades para repensar estratégias e crescer na relação humana, participar e jogar com mais responsabilidade, lealdade e espírito fraterno.

Num mundo onde se verifica cada vez mais a interdependência e a interculturalidade, a ética desportiva é fundamental na dinâmica do jogo e no desenvolvimento integral dos jovens participantes. De facto, nas atividades desportivas podem cultivar-se grandes valores como o autodomínio, a disciplina, a liberdade, o espírito de equipa, a união e a solidariedade, sempre no respeito mútuo, no campo e fora do campo.  

Cultivar e partilhar talentos

O texto evangélico de S. Mateus (25,14-23) narra-nos o investimento que um homem rico fez nos seus servos, antes de empreender uma viagem. Jesus, que neste relato é prefigurado pelo homem rico, alerta-nos para o investimento e rentabilidade dos talentos, que devem ser desenvolvidos e disponibilizados para o serviço do conjunto e do bem comum.

Do desenvolvimento dos dons de Deus, das qualidades e aptidões próprias, das competências que nos valorizam e enriquecem para o serviço dos outros, resulta o êxito, a alegria, a consciência do dever cumprido, uma existência feliz. “Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas confiar-te-ei as grandes” (Mt 25, 23). É nesta permuta de dons e serviços, consoante os talentos recebidos, que seremos justamente recompensados e realizados.  

Não podemos de maneira alguma enterrar os talentos que Deus nos deu, nem nos deixarmos possuir pela superioridade e orgulho. Todos temos talentos variados e o rigoroso dever de os incrementar e partilhar, se queremos valorizar e dignificar os nossos clubes. Só ultrapassando os horizontes fechados do comodismo, da violência, do hedonismo e da resistência à mudança, podemos construir uma cultura de verdade e justiça, de esperança e alegria, de amor, paz e união. São valores humanos e sociais bem necessários na vida das pessoas, dos grupos e das instituições, na sociedade atual, também no mundo do futebol, a diversos níveis, se queremos construir um mundo novo, um mundo melhor.

Testemunho e mensagem

A terminar, gostaria de trazer até nós a extraordinária figura do nosso Papa Francisco, bem conhecido por todos na sua paixão pelo futebol, desde os tempos de criança, e uma breve síntese do seu pensamento sobre o desporto como veículo privilegiado de transmissão de valores.

 Falando a dirigentes dos Comités Olímpicos, o Papa associa o crescente interesse da Igreja pelo mundo do desporto àquilo que este proporciona, referindo expressamente: espírito de sacrifício, lealdade nas relações interpessoais, amizade, respeito pelas regras, justiça, educação, solidariedade, paz, harmonia, partilha, coexistência harmoniosa entre pessoas. Tudo isto, afirmou, “é possível porque o desporto é uma linguagem universal que ultrapassa fronteiras, linguagens, raças, religiões e ideologias. (…) O desporto é um meio e não um fim em si mesmo”, no âmbito da formação do corpo e do caráter da pessoa humana.

Que o desporto, pois, nas suas diversas modalidades, nomeadamente a do futebol, pelas múltiplas relações que proporcionam, seja um meio de criar novos laços de comunhão, progresso e solidariedade entre os povos, em ordem ao verdadeiro desenvolvimento, à construção da Paz e da Civilização do Amor.

Pelo seu passado centenário, pelos esforços do presente e pelas expectativas do futuro, parabéns à Associação de Futebol da Madeira, nesta data tão significativa.

 

 

Funchal, 28 de Setembro de 2016

 

 

† António Carrilho, Bispo do Funchal

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